Cineastas reivindicam espaço para produções independentes

Estrutura que deu lugar ao Cine Tangará é um dos equipamentos abandonados na região (Foto: Pedro Diogo)

Neste domingo (19/6) comemorou-se em território nacional o Dia do Cinema Brasileiro, uma data dedicada a celebrar e conscientizar a população sobre a importância da área para a memória cultural do País. Entretanto, não é novidade que o meio passou – e ainda passa – por difíceis obstáculos, a exemplo da falta de investimento público em produções independentes.

A diretora artística, Soraia Costa, conta que apesar de terem centros audiovisuais e escolas livres de cinema na região, o cenário para o setor ainda é muito irrisório. “Na instituição que trabalho temos alguns projetos de produção e formação em cinema, alicerçados nos direitos humanos e educação ambiental, mas sequer temos algum investimento ou interesse do poder público local em ajudar mais efetivamente nos projetos”, conta a diretora ao lembrar que emendas parlamentares têm sido a saída para o lançamento de algumas produções e mostras culturais.

Apesar de não obter efetivamente auxílios do poder público local, Soraia diz nunca ter perdido o carinho e o interesse de produzir material para e sobre a região. “Não à toa que estamos lançando 20 curtas, todos feitos no ABC”, conta. A série é também um laboratório de produções, intitulado como Dona Claquete. No projeto, produtores independentes foram contratados e orientados na confecção de vídeos por uma equipe técnica, cada qual com seu nível de experiência. “Eu, por exemplo, sou diretora e também fiz material de formação (em nível de sensibilização) em documentário”, explica. Cada curta foi realizado por um coletivo de 10 pessoas, com um tema específico, argumento e bagagem, que envolveu 200 participantes na região.

 

Na tentativa de impulsionar o setor, em abril deste ano a Prefeitura realizou a reabertura do Cine Theatro Carlos Gomes (rua Senador Fláquer, nº 110 – Centro) equipamento que estava desativado desde 2008, após apresentar problemas estruturais. Acontece que, desde a reinauguração, o espaço recebeu apenas apresentações musicais, algumas projeções e deu lugar a convivência social, e desagradou uma parcela dos amantes de cinema e artes visuais.

A aposentada Rosa Aparecida dos Santos, de 62 anos, contou que costumava ir aos cinemas de rua durante sua juventude, e por isso esperava que o espaço fosse reaberto na utilização destes moldes. “Deveriam voltar com os cinemas de rua, igual tínhamos aqui, mas esqueceram dos princípios”, reclama. Ainda na cidade, o Cine Tangará também deixou lembranças, mas o prédio segue abandonado. “Lá era ótimo, mas desde que foi desativado ninguém fez mais nada naquele espaço”, salienta a munícipe.

Este cenário entristece o ator e empreendedor social, Fernando Rios Andrade, que deixou a cidade por falta de opção. “Santo André é uma cidade complexa, sempre com o mesmo movimento. No Paço Municipal são sempre os mesmos eventos, com as mesmas empresas e no final um show do Queen. Não tem variação, e uma das premissas da cultura é a diversidade cultural”, reclama o ator ao citar que, para driblar o problema, encontrou espaço fora do ABC.

Para Andrade, o Dia do Cinema Brasileiro é mais do que conscientização, é também o resgate da cultura e investimento público no setor. “Já basta o governo federal cortar nossos fundos, manchar as leis e não aprovar projetos variados, só aqueles direcionados […] Temos muitos espaços no ABC, como conchas acústicas, teatros, grandes espaços culturais, mas poucas ações. Falta produção, falta diversidade e falta divulgação”, salienta.

Garantia de sustentabilidade

A produtora cultural e integrante do Corja Filmes, Luma Reis, explica que ainda que exista projetos de formação na cidade desenhados pela Prefeitura de Santo André, não há editais de fomento, o que dificulta a formação de artistas e produtores locais. “Formamos artistas na cidade, mas eles não conseguem garantir sustentabilidade, porque após a formação são poucos os recursos destinados à Cultura, sejam eles via editais ou outros”, diz. Luma lembra, ainda, que no seu caso precisou ir para São Paulo em busca de emprego, uma vez que não encontrou oportunidade para atuar e produzir na região. “E particularmente nunca acessamos edital daqui, embora todos sejamos de Santo André. Acessamos editais de São Bernardo, São Paulo, mas por aqui não conseguimos recursos, nada. Não temos como nos manter”, salienta.

1% para a Cultura

Na luta para um planejamento melhor no setor cultural da cidade, os Fóruns de Cultura formados pela sociedade civil de Santo André anunciam manifesto para a próxima terça-feira (21/06), às 10h, na Câmara, a favor de um Plano Municipal elaborado com a participação da população. De acordo com os artistas, o plano atual não cumpre a meta 25, e menos de 1% dos recursos do orçamento são destinados à Cultura.

O ator, palhaço, produtor e diretor da Cia Teatro Endoscopia e Conselheiro de Cultura de Santo André, Flávio Marin, lembra que a pandemia atingiu duramente os trabalhadores da Cultura.

“Nossa percepção sobre a importância e a necessidade das políticas públicas culturais estruturadas, permanentes, de equipamentos bem cuidados, ficou mais aguçada. Para isso, é preciso aumentar os recursos do orçamento”, reforça Marilena Nakano, integrante da Rede Beija-Flor e dos fóruns de Cultura da cidade.

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