Dólar recua 0,47% com ajustes e recuperação parcial de ativos de risco

Após uma sequência de três pregões de alta firme, em que acumulou valorização de 8,01% e esboçou fechar acima de R$ 5,00, o dólar à vista recuou na sessão desta quarta-feira, 27, marcada pela divulgação de dados do fluxo cambial e do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) de abril. Segundo operadores, a recuperação parcial dos ativos de risco no exterior, depois de uma forte onda de depreciação, abriu espaço para ajustes e realização de lucros no mercado doméstico de câmbio. Uma vez mais, o giro no mercado futuro de dólar foi elevado, o que pode sugerir tanto um rearranjo de posições quanto aumento de movimentos especulativos.

Não por acaso, a trajetória da taxa de câmbio ao longo do pregão foi sujeita a solavancos. Com trocas de sinais, o dólar chegou a operar acima do patamar de R$ 5,00, registrando máxima a R$ 5,0402 pela manhã. Na mínima, ao longo da tarde, a divisa desceu até 4,9284 (-1,24%). No fim do dia, o dólar à vista era negociado a R$ 4,9671, em baixa de 0,47%. A divisa ainda acumula alta de 3,37% na semana e de 4,32% em abril.

No exterior, o dólar teve comportamento misto em relação a divisas de países emergentes e exportadores de commodities. As mínimas da divisa por aqui coincidiram que as perdas mais fortes da moeda americana frente ao peso mexicano e ao dólar australiano.

Já índice DXY – que mede o desempenho do dólar frente a uma cesta de seis divisas fortes – chegou a superar os 103,000 pontos (maior nível desde janeiro de 2017), sobretudo em razão da fraqueza do euro, que caiu ao menor nível em cinco anos na comparação com a moeda americana.

O pano de fundo que contribuiu para deterioração dos ativos globais nos últimos dias permanece intocado: ajuste mais rápido da política monetária americana, com provável alta de 0,50 ponto base na taxa básica dos EUA na próxima semana, escalada nas tensões geopolíticas em torno do conflito na Ucrânia (a Rússia confirmou corte de fornecimento de gás para Polônia e Bulgária) e preocupações com a economia chinesa diante de lockdowns para combater a covid-19.

Para a economista Cristiane Quartaroli, do Banco Ourinvest, a queda do dólar nesta quarta-feira pode ter sido um fenômeno pontual, em um ambiente marcado por volatilidade exacerbada. “A expectativa de que o Fed vai aumentar mais os juros e os ruídos políticos internos devem continuar a pressionar a nossa taxa de câmbio”, diz Quartaroli, em referência aos atritos entre o presidente Jair Bolsonaro e o Supremo Tribunal Federal (STF).

Dados do fluxo cambial divulgados nesta quarta-feira pelo Banco Central mostram desaceleração da entrada de dólares no país. Após fluxo positivo de US$ 6,340 bilhões em fevereiro, o saldo foi de US$ 2,851 bilhões em março, graças à entrada liquida de US$ 6,854 bilhões via comércio exterior. O canal financeiro decepcionou ao apresentar saída líquida de US$ 4,004 bilhões no período.

Na semana de 28 de março até 1º de abril, o saldo foi positivo em US$ 583 milhões (entrada de US$ 3,198 bilhões via comércio exterior e saída de US$ 2,615 bilhões no canal financeiro). No acumulado do ano (até 1º de abril), o saldo total é positivo em US$ 10,552 bilhões, com entrada de líquida de US$ 4,507 bilhões do lado financeiro e de US$ 6,045 bilhões via pelo canal comercial.

Esses números foram divulgados graças a uma trégua na paralisação dos servidores do Banco Central, que voltaram a atualizar os dados do movimento cambial, embora ainda de forma defasada. Normalmente, já estariam disponíveis dados até 22 de abril, o que permitiria saber se houve um recrudescimento das saídas pelo canal financeiro nas últimas semanas.

Segundo dados da B3, os investidores estrangeiros retiraram US$ 854,989 milhões da Bolsa na segunda-feira, 25, levando o saldo negativo em abril a R$ 1,824 bilhão. No acumulado de 2022, o capital externo soma entrada de R$ 63,504 bilhões.

“Já estamos vendo uma redução da entrada de recursos e até alguma saída de investidor estrangeiro, com realização de lucros acumulados da janela de oportunidade do início do ano”, diz o economista-chefe da Frente Corretora, Fabrizio Velloni, lembrando que o real se beneficiou da forte entrada de capital externo para a bolsa brasileira, em razão da alta das commodities no exterior e da rotação global de portfólios. “Agora esse quadro mudou. Tem muita incerteza no mercado. A China pode não voltar aos níveis de produção do passado com fechamento de Xangai e expectativa de medidas em Pequim. E o investidor pode migrar para os Estados Unidos com aumento dos juros americano.”

Divulgado pela manhã, o IPCA-15 de abril foi recebido sem sobressaltos. O índice acelerou de 0,95% em março para 1,73% em abril, mas ficou abaixo da mediana de Projeções Broadcast (1,82%). O mercado já trabalha com o fim do ciclo de aperto no mais tardar em junho.

A perspectiva é que o Banco Central cumpra o que foi sinalizado e eleve a Selic em 1 ponto porcentual, para 12,75%, na semana que vem. Embora ainda haja possibilidade de uma alta residual no encontro seguinte, as apostas em taxa básica perto de 14% agora estão mais raras.

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