Kent Nagano rege canadenses na Sala São Paulo

A ópera é uma constante na vida do maestro norte-americano Kent Nagano. Mas nos últimos anos, ele resolveu enfrentar o compositor Richard Wagner de uma maneira especial. Antes de interpretar, em Colônia, na Alemanha, a tetralogia O Anel do Nibelungo, criou um projeto de cinco anos no qual palestras, debates, lançamentos de livros e pesquisas nas partituras originais pudessem oferecer um novo olhar sobre a obra. “Temos sentido irritação, animação, entusiasmo, tudo ao mesmo tempo”, ele conta. “Voltar ao começo é sempre importante, entender o que está por trás das coisas, o objetivo inicial que levou à criação de uma obra, a razão do que fazemos.”

Esse tipo de cuidado na releitura do repertório do passado é uma das marcas da carreira de Nagano, que nesta terça e quarta, dias 1º e 2, rege a Orquestra Sinfônica de Montreal na Sala São Paulo pela temporada da Cultura Artística. E é a essência do trabalho que ele realizou com o grupo do qual esteve à frente nos últimos 16 anos.

“Uma turnê é um momento de mostrar aquilo que você é. E, no caso da Sinfônica de Montreal, isso significa entender o lugar de onde ela vem, o papel que desempenha na sociedade em que está inserida. Quando desembarquei em Quebec, era como se estivesse em solo europeu. A influência europeia era muito viva, sem rejeições. Ao mesmo tempo, havia um desejo de modernidade característico do novo mundo. E isso sugeria, em um primeiro momento, que a experiência sinfônica precisava ser a mais rica possível, com um mergulho mais profundo no grande repertório”, diz.

Os programas em São Paulo são símbolos disso. Nesta terça, o grupo toca o Concerto para violino, de Brahms, e o Concerto para orquestra de Bartók; quarta, o Concerto para violino nº 3, de Mozart, e a Sinfonia nº 5, de Mahler. A solista será a violinista Alexandra Soumm, que substitui Veronika Eberle, previamente anunciada, que cancelou sua participação na turnê da orquestra na semana passada.

São peças que, se colocadas lado a lado cronologicamente, cobrem duzentos anos de música, do século 18 ao século 20. O maestro cresceu na cidade de Morro Bay, na Califórnia, onde seus pais, importantes acadêmicos, trocaram a vida na universidade pelo trabalho na fazenda da família. A formação musical se deu em casa, mas também na escola. E, na universidade, o estudo formal o dirigiu à composição. A regência surgiu depois, por acaso. “Meus colegas formavam grupos para interpretar suas obras e precisavam de alguém que pudesse regê-los.”

A ideia da criação associada à interpretação lhe deu um olhar diferenciado – e talvez mais dinâmico – na relação com o repertório. Se muitas peças ganharam vida por suas mãos, o olhar para o passado também se transformou: nada, diz, está fechado em seu tempo, e é possível entender a história como uma sequência de transformações que dialogam com o que passou tanto quanto com o que virá.

Isso se torna possível, porém, quando se tenta olhar para a música sempre de novas maneiras. “A pergunta é: por que as pessoas vão a uma sala de concertos? Por que elas querem ouvir essa música? Ninguém é obrigado a ouvir música clássica, mas as pessoas fazem isso. E de maneira bastante particular. Se eu vejo um filme, por mais que goste dele, talvez consiga vê-lo mais uma ou duas vezes. Com uma sinfonia, porém, nossa relação é diferente. Eu a ouço dezenas de vezes – e estou pronto para mais. Para mim, as pessoas estão sempre buscando algo, querendo descobrir algo. Uma sinfonia talvez seja símbolo da perfeição humana, daquilo que podemos atingir.”

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