Prestes a completar quatro anos de existência, a comunidade Ilê Asé Onã Idajó, em Santo André, recebeu a certificação de primeiro Ponto de Memória do ABC. O reconhecimento foi concedido na quarta-feira (7/10) pelo Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) e valoriza iniciativas culturais dedicadas à preservação da memória social e das tradições das comunidades.
Fundada em 16 de outubro de 2022, a comunidade surgiu com o objetivo de preservar as religiões de matriz africana e seus saberes. Em entrevista ao RDtv, José Eduardo Ferreira da Silva, conhecido como Babá Eduardo de Xangô e fundador do Ilê Asé Onã Idajó, destacou a importância do espaço para manter vivos os conhecimentos transmitidos entre gerações.

“É um espaço de manutenção, preservação e difusão dos conhecimentos, das técnicas e das vivências do povo de terreiro, que herdamos dos nossos ancestrais e preservamos ao longo de muitas gerações. Também é um espaço intergeracional, com a participação da comunidade. Não é um espaço fechado ou restrito, mas coletivo, que busca proteger os povos tradicionais de matriz africana”, afirma Babá Eduardo de Xangô.
A iniciativa de buscar o reconhecimento surgiu quando o fundador conheceu os critérios para a certificação. “Comecei a ler quais eram as características de um Ponto de Memória e pensei: ‘Opa, nós somos um Ponto de Memória’. Então, entrei com o pedido de reconhecimento”, relata.
O fundador conta que não sabia que nenhuma iniciativa do tipo havia sido reconhecida no ABC. “Eu sabia que em Santo André não tinha, mas não fazia ideia de que não tinha no ABC. No site dos Pontos de Memória, é possível pesquisar as iniciativas reconhecidas. Na cidade de São Paulo inteira, que não é pequena, existem três Pontos de Memória”, afirma.

Além das atividades religiosas, o local também é um espaço de convivência e já realizou feiras, palestras e encontros. “As principais ações que nós tivemos foi uma feira afro cultural, que nós fizemos, uma feira que falou não só a questão da troca de conhecimentos, mas também o empreendedorismo negro e também trouxe a comunidade para para interagir mais”, destaca Babá Eduardo.
“A gente tem aulas, a gente tem palestras, a gente faz alguns encontros virtuais justamente para passar mais conhecimento para outras pessoas, também para receber conhecimento, que é sempre uma troca”, comenta.
Lei Potma
Babá Eduardo também relatou que a comunidade faz parte da criação da Lei Potma, que é uma lei que traz reconhecimento e a proteção dos povos de religiões de matriz africana. A lei ainda está em fase de mapeamento das comunidades. “Nós participamos ativamente da implementação da criação e aprovação, que é um processo que ainda está em curso, da lei Potma, que é a lei dos povos tradicionais de matriz africana da cidade de Santo André”, destaca.
“Não temos notícias de outra lei dessa forma, e nós estamos conversando com a secretaria, discutindo com as secretarias, de que forma que você pode implementar a lei. Agora é a principal fase, que é a fase de mapeamento, então a lei ela prevê vários instrumentos, um deles é o mapeamento das comunidades dos povos tradicionais de matriz africana”, comenta o fundador.
Intolerância religiosa
Apesar de existirem leis que criminalizam a intolerância religiosa, como a Lei nº 7.716/1989 (Lei do Racismo) e Lei nº 9.459/1997, a discriminação ainda faz afeta diversos brasileiros. Como é o caso de Babá Eduardo, que relata que vivencia o preconceito em diferentes âmbitos.

“Nós vivemos isso o tempo inteiro, mas através de órgãos públicos, através de vizinhos, através de pessoas e até pessoas que a gente nem esperava vivenciar. Eu entendo até um certo ponto a falta de conhecimento, mas hoje, pleno século 21, a gente tem um conhecimento muito aberto”, afirma.
O fundador ainda compartilhou um caso que aconteceu na comunidade, na qual estavam rezando e foram ameaçados por um vizinho. “Nós estávamos rezando, não tinha é atabaque, não tinha nada, nenhum ruído acima do normal. O vizinho se achou no direito de ir até a porta da comunidade e me ameaçar com uma faca. A gente teve que processá-lo, o processo já rolou e ganhamos”, relatou.
Mesmo após o ocorrido, Babá Eduardo informou que se sentiu abraçado e acolhido, e a partir disso, resolveu criar uma cartilha contra o racismo religioso. “Existe o ato violento, mas ela começa muito antes. Então, a gente foi colocando isso, quais são os contatos que você tem que ligar, como você faz o boletim de ocorrência e por aí vai, justamente para a gente trabalhar muito forte essa questão”, destaca.
Segundo Babá Eduardo, um dos pilares para esse preconceito vem da perseguição dos negros. “Eles sofrem perseguição porque é uma cultura, é uma tradição religiosa do povo negro. Quando as pessoas negras foram escravizadas, trazidas, sequestradas para o Brasil, foi preciso eliminar a cultura deles. A única coisa praticamente assim que sobrou para se apegar foi a questão da religiosidade, foi também uma forma de diminuir o significado e a importância que aquele povo tinha enquanto povo”, afirma.
“Então, existem muitos dos povos tradicionais de matriz africana que ainda estão passando por esse processo de auto reconhecimento. Opa, eu sou descendente de negros escravizados que foram trazidos ao Brasil, eu faço parte de um povo que veio de outro país, de outro continente”, diz o fundador, que relata que esse processo é importante para o reconhecimento da sua própria ancestralidade.
Babá Eduardo ainda destaca que todos os elementos utilizados no dia a dia fazem parte dessa cultura que precisa de mais reconhecimento. “A forma como você se alimenta, a forma como você conversa, a forma como você se articula, a forma como você trata os seus mais velhos, como você trata as suas crianças, a sua organização social, os elementos que você utiliza no dia a dia, tudo isso faz parte dessa cultura. Então, nós estamos e sempre estivemos, dentro da cultura viva. Nós só não sabíamos disso”, afirma.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
