
A revista de fim de semana do jornal britânico Financial Times publicou uma longa reportagem de capa sobre a família Bolsonaro neste sábado (26/9). A notícia também esteve na manchete do site da publicação ao longo do dia.
“Conheça os Bolsonaro: um clã tão radical quanto disfuncional. Oscilando entre o conservadorismo e o caos, eles praticam um estilo paranoico de política. Assim como a família Trump, eles incorporam o zeitgeist político dos anos 2020: o superficial e o sinistro, a fusão entre celebridade, rede social e a busca pelo poder”, descreve o material.
Assinado pelo jornalista Michael Pooler, o texto recebe o título “Scandal and succession in the House of Bolsonaro” (“Escândalo e sucessão na Casa dos Bolsonaro”, em tradução livre) e o subtítulo “Jair Bolsonaro está preso por planejar um golpe, deixando seu filho mais velho para disputar contra um antigo rival. Poderia a primeira família da direita radical do Brasil estar no caminho de uma volta por cima?”.
Ao longo das páginas, busca apresentar os membros da família, apontando Jair como líder e figura central, Flávio como o “Bolsonaro moderado”, Michelle como “a Bolsonaro amável”, Carlos como um “craque das redes sociais” e Eduardo como “o filho que mais lembra o pai em estilo”, conforme opiniões atribuídas por fontes (identificadas ou não) ouvidas pela revista.
São apresentadas algumas das disputas internas do que chama de “clã”, focando na polarização entre a ex-primeira-dama e os filhos, ainda que destacando particularidades de cada um. O Brasil é definido como “uma peça importante na busca de Trump pela dominância do hemisfério” e, por isso, destaca o texto, as eleições de outubro tem importância para o público americano.
“Faltando pouco mais de uma semana para a votação, Flávio tem o vento a seu favor. Na campanha, ele visivelmente aumentou sua autoconfiança”, consta no texto. Entre os prognósticos, abre uma série de possibilidades. “Se Flávio ganhar, a Casa dos Bolsonaros será consolidada como uma dinastia política em vez de uma anomalia que só ocorreu uma vez.”
“Ele imediatamente vai pressionar o Congresso para garantir uma ampla anistia para os conspiradores do golpe e para os condenados pelo 8 de Janeiro, com o perdão presidencial como alternativa”, continua o texto, indicando que Jair Bolsonaro poderia retornar à corrida presidencial em 2030, “apesar de preocupações com a idade e a saúde fazerem esse prospecto parecer cada vez menos provável.”
Em caso de derrota, o Financial Times aponta “o fim da Era Bolsonaro”, o que “abriria as portas para uma direita mais moderada, como Tarcísio de Freitas”. Isso, somado ao fato de o PT “não ter um sucessor óbvio de Lula”, poderia “marcar o fim de uma década de polarização política” daqui a quatro anos.
A publicação ainda cita Alexandre de Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF): “Em uma reviravolta irônica, Moraes, o mesmo juiz que aprisionou Jair, pode involuntariamente providenciar a chave para a sua liberdade”.
O ponto de partida do texto é o vídeo postado por Michelle Bolsonaro, que “expôs uma briga familiar de muito tempo”, acusando Flávio Bolsonaro de “humilhá-la em uma disputa interna do partido”. “A demonstração pública de hostilidade expôs uma racha no coração da primeira família de políticos de direita, mesmo enquanto estavam planejando seu retorno ao poder.”
O Financial Times descreve Jair Bolsonaro como um “demagogo da linha-dura da direita”, líder de um movimento conservador populista com tons religiosos, em que seus apoiadores acreditavam estar em uma “cruzada contra um sistema apodrecido”. Destaca-o ainda como um presidente marcado “por suas aberturas para Donald Trump e um aumento repentino na destruição da floresta Amazônica, assim como sua má gestão da pandemia de covid-19”.
“Bolsonaro foi considerado culpado de conspirar para permanecer em seu cargo ilegalmente por meio de uma conspiração não realizada que incluía planos para assassinar Lula”, diz a reportagem.
“Orbitando o rei sol perdendo o brilho”, o jornal americano cita a mulher de Jair e três de seus filhos. Apresenta Flávio Bolsonaro como “o escolhido para restaurar a sorte da dinastia política”, mesmo “envolvido em suposta fraude”.
“Outro filho é um craque das redes sociais que criticou com veemência membros do governo de seu pai. Um terceiro está vivendo um autoexílio nos Estados Unidos e corre risco de prisão caso retorne”, consta, sobre Carlos e Eduardo, respectivamente.
Ao abordar a conjuntura do Brasil, o Financial Times também aborda o presidente Luiz Inácio Lula da Silva como “um ex-sindicalista que ainda tem grande apoio entre brasileiros pobres que se beneficiam dos aumentos do salário mínimo e dos programas de assistência social introduzidos pelo seu Partido dos Trabalhadores (PT)”. Aliados diriam que ele “prioriza os pobres num país desigual”, e os críticos que “condena a 10.ª maior economia do mundo à mediocridade” e seria complacente com gangues de drogas.
A reportagem o indica como alguém considerado internamente por aliados como um candidato fraco, com líderes empresariais e membros do establishment da centro-direita tendo buscado “alguém sem o sobrenome tóxico”, capaz de “apelar ao campo central”, como o “governador tecnocrata de São Paulo, outro protegido de Bolsonaro”, Tarcísio de Freitas (Republicanos).
Flávio ainda é descrito por uma fonte não identificada como o filho “mais normal” da família Bolsonaro, uma pessoa “afável, que não guarda mágoas” e que, segundo Hamilton Mourão (Republicanos), “nunca foi de discursos agressivos”. O jornal relembra que o senador nunca teve um mandato no Poder Executivo, mas já concorreu, sem sucesso, à prefeitura do Rio em 2016 – citando ainda o episódio de seu desmaio durante debate naquela campanha e a recusa de Jair de que ele fosse socorrido por Jandira Feghali (PCdoB), que era médica e sua concorrente.
Carlos Bolsonaro é descrito como alguém “conhecido por sua persona online combativa”, que tem “o rosto do pai tatuado no braço”, referido pelos familiares como “o pit bull da família”, mas que nunca cogitou substituir o pai na política.
“Após se divorciar, Jair lançou Carlos, então com 17 anos, para disputar uma vaga na Câmara do Rio em 2000. O adolescente ganhou. Anos depois, Carlos descreveu o incidente como um pequeno problema familiar, mas disse que ele e sua mãe fizeram as pazes posteriormente”, consta na reportagem.
Eduardo Bolsonaro, segundo o Financial Times
Para o Financial Times, Eduardo Bolsonaro “é o filho que mais lembra o pai em estilo”, um “ideólogo combativo, entusiasta de armas e surfista”, que “fala inglês e espanhol tão bem quanto sua língua nativa”. Destacam-se as ligações internacionais com a família Trump e outros aliados ideológicos de direita.
Por estar morando no Texas desde 2025, tendo sido expulso do Congresso e sob risco de ser preso caso volte ao Brasil, é dado como alguém “fora da equação de sucessão”, afirma o texto.
Michelle Bolsonaro, segundo o Financial Times
Michelle Bolsonaro, por sua vez, é descrita como uma “cristã devota” que cuida de Jair, especialmente após a prisão e cirurgias recentes. O Financial Times dá detalhes sobre a forma como se conheceram e casaram. Ao abordar a relação entre ela e os filhos políticos de Jair, traz uma declaração do pastor Silas Malafaia: “Uma madrasta não é parente. Eles não partilham do mesmo sangue”.
Ela ainda é descrita como uma “arma secreta” de Bolsonaro durante o mandato presidencial, tendo focado em causas como doenças raras e a comunidade surda. O repórter relembra a infância humilde “em uma casa pobre e instável” no Distrito Federal, em que Michelle “vendia laranjas no semáforo quando tinha 10 anos e perdeu amigos para o tráfico de drogas”.
O jornal aponta uma fonte não identificada para afirmar que a relação de Eduardo e Flávio com Michelle é “fria, mas civilizada”, enquanto Carlos não teria mais contato com a madrasta.
Jair Bolsonaro, segundo o Financial Times
O Financial Times dedica diversos parágrafos para relatar a trajetória política de Bolsonaro. “Durante a maioria de suas três décadas como legislador em Brasília, Jair foi considerado um extremista excêntrico e irrelevante”, diz a reportagem, citando como exemplo de suas posturas a defesa da tortura, o apoio à ditadura militar, as declarações homofóbicas e a frase “Eu não te estupro porque você não merece”, dita a uma “deputada de esquerda” – Maria do Rosário.
A revista destaca o crescimento de Bolsonaro em meados da década de 2010, quando se posicionou como uma “alternativa anti-establishment”, e foi apoiado pela “coalização de boi, bala e Bíblia”, formada pelo agronegócio, cristãos conservadores e membros das forças de segurança. Cita ainda o lema “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos.”
A publicação traz opiniões favoráveis e desfavoráveis a Jair, que seriam de pessoas que conviveram com ele. Elas vão desde que se trata de uma pessoa brincalhona e normal, que sai na rua e come pastel na feira, até de que seria “frio e que não expressa gratidão” ou que seria “frágil e se irrita fácil”.
O Financial Times define a pandemia como um divisor de águas: “Ele descreveu a covid-19 como uma gripezinha, promoveu tratamentos sem eficácia comprovada e foi acusado de atrasar a compra de vacinas”.
A publicação indica que o 8 de Janeiro foi considerado pela Justiça como a “última tentativa de um esquema para mantê-lo ilegalmente no poder” e descreve o ministro do STF Alexandre de Moraes como alguém “que havia sido o nêmesis do líder de direita enquanto estava no cargo (e depois supervisionou o seu julgamento)”.
Além das polêmicas envolvendo a disputa com Michelle e a definição para saber quem seria o escolhido de Jair para a disputa presidencial, a publicação indica “uma série de gafes constrangedoras” por parte de Flávio em 2026.
Sem citar o nome do banqueiro Daniel Vorcado, diz que “pediu dinheiro a um suspeito por fraude bancária”, para “supostamente financiar um filme hagiográfico sobre seu pai”, “Dark Horse”. “O projeto recebeu ao menos 12,3 milhões de dólares do empresário preso que está no centro de uma ampla controvérsia de corrupção agitando Brasília.”
O Financial Times também aponta que Flávio foi definido como “traidor da pátria” pelo governo Lula após ter postado uma foto no salão oval com Donald Trump e, dias depois, o governo dos EUA ter anunciado novas tarifas ao Brasil.
A reportagem é encerrada com uma frase atribuída ao ex-ministro Ernesto Araújo, de que Bolsonaro “não é apenas um homem. É uma ideia, uma visão de um Brasil que pode mudar”.
O Financial Times ainda afirma que Eduardo Bolsonaro e Flávio Bolsonaro não responderam aos pedidos por um comentário sobre a reportagem; que não localizou Carlos Bolsonaro e Jair Renan Bolsonaro; e que Michelle Bolsonaro se recusou a comentar.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
