Do futebol de formação ao alto rendimento, o ABC vive a expansão da presença feminina nos campos, mas ainda enfrenta uma conta difícil de fechar. Projetos voltados a meninas e mulheres ampliam o acesso à modalidade, enquanto clubes buscam estrutura para disputar competições nacionais. A falta de recursos, espaços, materiais, apoio e oportunidades de longo prazo, porém, ainda limita parte desse avanço. Para quem atua na região, a Copa do Mundo Feminina da FIFA de 2027, que terá o Brasil como sede, pode abrir uma nova janela para a modalidade, desde que a visibilidade do torneio resulte em ações permanentes.
Em São Bernardo, a AFF! (Academia de Futebol Feminino) representa uma das pontas dessa trajetória. Criada por Isaque Guimarães em 2016, a iniciativa surgiu a partir da percepção de que muitos campos ofereciam espaço para meninos, enquanto poucas opções existiam para meninas e mulheres. O projeto começou com 15 atletas e hoje reúne mais de 500 participantes. Ao longo da história, mais de 3 mil meninas e mulheres já passaram pela academia.

As atividades atendem participantes dos 6 anos até a idade adulta, com o principal encontro aos sábados no CREC Baetinha, em São Bernardo. O trabalho contempla aspectos técnicos, físicos e táticos, além de acompanhamento nas áreas de nutrição, fisioterapia e psicologia. A proposta não se limita à formação esportiva. A AFF busca também fortalecer confiança, autonomia e preparo para a vida fora do futebol.
“Criamos um espaço exclusivo porque existiam muitos campos para os meninos e poucas oportunidades para as meninas. A ideia sempre foi oferecer um ambiente no qual a menina pudesse chegar, jogar, aprender e se sentir pertencente”, afirma Guimarães.
O reflexo aparece também fora das quatro linhas. Ex-participantes seguiram caminhos profissionais em Educação Física, Fisioterapia, Nutrição, psicologia esportiva, comunicação esportiva, gestão e supervisão do futebol. Há ainda atletas que chegaram a categorias de base de clubes, seleções brasileiras e universidades estrangeiras por meio de bolsas. “A bola é a nossa ferramenta. A transformação de vidas é o nosso verdadeiro resultado”, resume Guimarães.
O crescimento da modalidade também alterou a relação das famílias com o futebol. A presença das meninas em campeonatos, festivais e outras atividades ampliou as referências para novas gerações. Ao mesmo tempo, permanecem barreiras como preconceito, julgamento, falta de estrutura, segurança, profissionais capacitados e espaços adequados.
Para Guimarães, o Mundial de 2027 pode representar uma oportunidade rara para ampliar esse movimento. A presença das principais seleções e atletas no País pode levar mais meninas aos estádios, aumentar o interesse pela modalidade e criar novas referências. O desafio, após a competição, será transformar esse interesse em escolas esportivas, horários específicos, espaços públicos, torneios, festivais e projetos permanentes.
Do encontro entre amigas ao campo
Em Ribeirão Pires, o futebol feminino aparece por uma perspectiva diferente. No Parque Aliança, o Fut das Minas reúne mulheres sem limite de idade ou exigência de experiência para jogar, conversar, fazer amizades e sair da rotina. A iniciativa surgiu depois que Tuane Souza viu nas redes sociais um vídeo de mulheres que se reuniam para jogar futebol, mesmo sem domínio da modalidade.

A partir da ideia, Tuane criou um grupo e convidou amigas, que passaram a chamar outras mulheres. A primeira edição teve 35 integrantes, com 22 participantes em campo. Atualmente, o grupo ultrapassa 85 mulheres e a segunda edição já conta com 50 participantes confirmadas.
O projeto ainda não possui treinamento regular. Os encontros ocorrem uma vez por mês, com previsão de intervalo de 15 dias. Antes das partidas, as participantes fazem aquecimento sob orientação do personal trainer João Victor Filgueira. Três mulheres estão à frente da iniciativa, enquanto o marido de Tuane, com experiência no futebol amador e na várzea da região, passou a ajudar na busca por campos, contatos e possibilidades de apoio.
A expansão do grupo mostra uma demanda que vai além da competição. Mulheres que antes tinham vergonha ou receio de ocupar o espaço do futebol passaram a encontrar no projeto um ambiente de convivência. A prática ajuda na autoestima, na confiança, nas amizades e no sentimento de pertencimento. “Tem mulher que chega muito tímida, sem conhecer ninguém e depois cria amizade, se diverte e passa a esperar pelo próximo encontro. O futebol acaba sendo uma desculpa para reunir as mulheres e fazer com que cada uma tenha um espaço para estar ali”, conta Tuane.
Para a coordenadora, a Copa de 2027 pode trazer novas participantes e mostrar que o futebol feminino também existe fora dos grandes estádios. A expectativa, porém, depende de mais espaços, materiais, divulgação, incentivo e oportunidades para projetos comunitários. “O futebol feminino precisa chegar aos bairros e às comunidades. A Copa pode trazer muita visibilidade, mas também precisamos aproveitar esse momento para mostrar que existem mulheres que querem jogar em todos os lugares”, afirma.
Do projeto social ao Brasileiro
No EC Santo André, a discussão sobre estrutura chega ao nível do alto rendimento. A equipe feminina, conhecida como Ramalhetes, disputou pela primeira vez o Campeonato Brasileiro Feminino Sub-17 em 2026 e teve uma campanha considerada positiva pela comissão. O time terminou a primeira fase na liderança de um grupo com Vitória, Cruzeiro e AD Centro Olímpico e depois deixou a competição diante do Internacional, vice-campeã do torneio.

Coordenador do futebol feminino do clube, Everton Hidman avalia que a experiência reforçou a capacidade competitiva do Santo André. A expectativa é manter a vaga para a próxima temporada e preservar a base do elenco. “O Brasileiro foi excelente para nós e estava dentro do nosso planejamento. Tivemos uma equipe muito boa, uma estrutura muito boa e terminamos a primeira fase em primeiro em um grupo difícil. Contra o Internacional, faltou um pouco de experiência, mas a campanha mostrou que podemos competir”, afirma Hidman.
O clube conta com uma comissão de 14 profissionais, entre psicóloga, nutricionista, fisiologista, analista de desempenho, auxiliar técnica, preparadora física, treinadora de goleiras, médica e fisioterapeuta. As atletas utilizam o estádio quando há disponibilidade e, em outros momentos, treinam em campo de uma sociedade cedido para a equipe. A preparação física inclui plataformas de salto, GPS, fotocélulas e diferentes mecanismos de controle de desempenho. O clube também conta com materiais para os treinamentos e apoio de parceiros na área médica.
Mesmo com a estrutura, a principal dificuldade apontada por Hidman é financeira. O Santo André ainda não possui equipe profissional feminina e trabalha com a perspectiva de criar a categoria Sub-20 em 2027. A intenção é formar uma base que, no futuro, permita a criação de uma equipe profissional. “O principal desafio hoje é a contribuição financeira. O futebol feminino ainda passa por um processo de adaptação na mídia e, para conseguir qualidade, precisamos de investimento. Temos uma estrutura boa e mostramos em 2026 que, com investimento, conseguimos resultados”, afirma.
A expectativa para 2027 inclui a chegada de novos patrocinadores e parceiros. Para Hidman, a Copa no Brasil pode elevar a exposição da modalidade e facilitar a abertura de novas portas para clubes e atletas. “Espero boas contribuições financeiras, novos patrocinadores e parceiros. 2027 será um ano muito importante para o futebol feminino no Brasil por causa da Copa do Mundo”, diz.
Além da criação do Sub-20, o objetivo é garantir condições para as atletas, inclusive com auxílio financeiro. A consolidação do projeto também pode aumentar a visibilidade nacional do Santo André, valorizar as jogadoras e facilitar o interesse de outros clubes.
Porta de entrada para mais de 600 mulheres
A necessidade de criar espaços para quem está longe do alto rendimento também aparece no Joga Miga, projeto idealizado e presidido por Nayara Perone. A iniciativa nasceu em 2015 como uma fundação social, com a proposta de abrir portas para mulheres que queriam aprender futebol do zero, voltar a jogar após anos afastadas ou encontrar um ambiente capaz de acolher iniciantes.
O que começou com uma unidade se transformou em uma empresa de impacto social com 37 unidades. O projeto possui atividades em cidades como São Paulo, Santo André, Osasco, Guarulhos, Alphaville e Jundiaí, além de unidades fora do Estado de São Paulo, em Belém, no Pará, e Salvador, na Bahia. Santo André possui duas unidades, com dois horários de aulas.

Atualmente, o Joga Miga reúne mais de 600 atletas mensalistas, além das participantes que aparecem para partidas avulsas. As turmas mantêm preços acessíveis como parte da proposta social do projeto. A iniciativa também busca apoiar outros times de futebol feminino quando há possibilidade, inclusive por meio de patrocínios pontuais. “Nós éramos um time em 2015 e hoje somos uma empresa de impacto social. Continuamos trabalhando com a esfera social, que é o cerne do Joga Miga. Nossas turmas têm sempre o preço mais acessível possível”, afirma Nayara.
As aulas ocorrem uma vez por semana, em horários fixos, com duração de uma hora e meia. A metodologia divide as participantes conforme o nível de experiência. Há turmas iniciantes, destinadas a quem nunca jogou ou está há muito tempo sem praticar, e grupos intermediários ou avançados, voltados a mulheres que já jogam e buscam evolução técnica e competitiva.
Cada encontro reúne fundamentos técnicos, parte prática, preparação física conforme o planejamento da aula e, ao final, o jogo. Cada unidade possui uma técnica responsável pelas atividades e pelas correções durante as partidas. “Uma coisa é fazer com que uma mulher saia de casa para jogar uma vez ou duas. Outra é manter isso e criar uma cultura de respeito interno, com paciência para quem está começando e com quem já joga entendendo que existe um processo de aprendizado”, explica Nayara.
A presidente identifica justamente a criação de uma cultura de mulheres jogando futebol como um dos principais desafios da modalidade. A restrição histórica à prática esportiva feminina deixou marcas que ainda aparecem na relação das mulheres com os campos. “O Brasil proibiu por lei que a mulher praticasse alguns esportes, principalmente o futebol. Isso vem se arrastando por anos, décadas, de preconceito. Reverter essa cultura, abrir uma porta, gerar interesse e fazer com que essa mulher confie, saia de casa e venha jogar conosco sempre foi um grande desafio”, afirma.
Para Nayara, a estrutura pública também precisa considerar as particularidades desse público. Não basta apenas disponibilizar uma quadra. É necessário criar condições para que as mulheres ocupem esses espaços com regularidade, inclusive com horários exclusivos e estrutura adequada.
A falta de vestiários femininos em algumas quadras também aparece como obstáculo. Segundo Nayara, os proprietários dos espaços precisam enxergar as mulheres como um público que tende a crescer e também como consumidoras do futebol.
O impacto do Joga Miga ultrapassa a prática esportiva. A atividade semanal cria um espaço de lazer, contribui para a saúde física e mental e amplia a rede de relações das participantes. Os grupos mantidos pelo projeto também permitem troca de informações, indicações profissionais, ofertas de trabalho e pedidos de ajuda. “Quando você fura essa bolha e entra no futebol, encontra um monte de gente com realidades e vivências diferentes. Essas pessoas criam amizades improváveis, que talvez não surgissem no dia a dia. O Joga Miga tenta fazer com que isso seja um grande ecossistema”, afirma a presidente.
O que fica depois de 2027
A Copa do Mundo de 2027, que acontece entre 24 de junho e 2 de julho no Brasil, pode aproximar essas diferentes pontas. O aumento da exposição da modalidade tende a levar novas meninas aos campos, despertar interesse de famílias, abrir espaço para patrocinadores e criar referências para quem hoje começa a jogar. Para Guimarães, porém, o Mundial só terá impacto duradouro se o interesse permanecer após o último jogo. “A prioridade deve ser a criação de políticas públicas e projetos com continuidade, além de mais espaços, horários exclusivos, competições e festivais”, diz.
No Fut das Minas, Tuane vê a mesma necessidade a partir da realidade dos bairros. Mais mulheres querem jogar, mas ainda dependem de locais disponíveis, materiais e apoio para ampliar os encontros. Já Hidman coloca a questão financeira no centro do futuro da modalidade, em que a manutenção de elencos, a criação do Sub-20 e a possibilidade de uma equipe profissional dependem de novos recursos.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
