
O Alzheimer pode começar a se desenvolver no cérebro até 20 anos antes dos primeiros esquecimentos. Com os avanços da medicina, biomarcadores já permitem identificar alterações associadas à doença em fases mais precoces, inclusive por meio de exames de sangue, tornando a investigação menos invasiva e mais acessível. A informação é do geneticista e assessor médico do DB Diagnósticos, Carlos Aschoff, em entrevista ao RDtv.
De acordo com Aschoff, o entendimento sobre o Alzheimer mudou significativamente nos últimos anos. Hoje, sabe-se que alterações biológicas no cérebro começam muitos anos antes dos sintomas clínicos, tornando possível identificar sinais da doença em uma fase silenciosa.
“O Alzheimer não começa quando a pessoa passa a esquecer compromissos ou nomes. Nesse momento, o processo neurodegenerativo já está em curso há muitos anos. O que mudou foi nossa capacidade de enxergar essa fase pré-clínica por meio de biomarcadores, permitindo uma investigação muito mais precoce do que era possível até pouco tempo”, comenta.
As primeiras alterações envolvem o acúmulo gradual das proteínas beta-amiloide e tau no cérebro, consideradas características da doença. Durante muitos anos, essas mudanças só podiam ser identificadas por exames complexos, como a tomografia por emissão de pósitrons (PET cerebral) ou pela análise do líquido cefalorraquidiano (LCR), obtido por punção lombar.
Nos últimos anos, porém, a medicina passou a contar com biomarcadores plasmáticos capazes de detectar essas alterações por meio de um exame de sangue. A tecnologia representa um dos principais avanços recentes na investigação do Alzheimer, tornando o diagnóstico mais acessível e menos invasivo.
Segundo o médico, os biomarcadores não substituem a avaliação clínica, mas oferecem uma ferramenta importante para complementar a investigação, principalmente em pacientes com comprometimento cognitivo leve ou quando existe suspeita diagnóstica. “Quanto mais cedo identificamos as alterações biológicas, maiores são as possibilidades de acompanhamento individualizado e de planejamento terapêutico”, diz.
Embora o Alzheimer ainda não tenha cura, especialistas afirmam que identificar a doença precocemente traz benefícios importantes para pacientes e familiares. Além de permitir um diagnóstico mais preciso, a investigação antecipada possibilita o controle de fatores de risco cardiovasculares, o estímulo à atividade física e cognitiva, o planejamento familiar e financeiro e o acesso mais rápido a terapias capazes de retardar a progressão da doença nos pacientes elegíveis.
“O objetivo não é antecipar uma preocupação, mas as oportunidades de cuidado. Quanto mais cedo entendemos o que acontece no cérebro, mais cedo conseguimos orientar o paciente, acompanhar sua evolução e tomar decisões baseadas em evidências”, diz Carlos Aschoff.
Biomarcadores
A evolução dos biomarcadores também começa a transformar a realidade brasileira. Exames de sangue voltados à investigação do Alzheimer, antes restritos a poucos centros e frequentemente enviados para processamento no Exterior, passam a ser realizados no Brasil.
Ao identificar alterações associadas à doença antes do surgimento dos sintomas clínicos, esses exames representam um importante avanço para a medicina diagnóstica e acompanham uma tendência internacional de tornar a investigação do Alzheimer mais precoce, acessível e menos invasiva.
Para o especialista, a principal mensagem é que o Alzheimer deixou de ser uma doença investigada apenas quando a perda de memória já interfere na rotina. “Hoje sabemos que esperar os primeiros esquecimentos pode significar perder anos importantes de acompanhamento. A medicina caminha justamente na direção oposta: identificar a doença cada vez mais cedo para oferecer mais informação, mais planejamento e melhores perspectivas de cuidado ao paciente”, diz.
O que é o Alzheimer
O médico explica que o Alzheimer é uma doença neurodegenerativa progressiva, que provoca perda de memória e o declínio das funções cognitivas. Segundo o Ministério da Saúde, é a principal causa de demência e que a causa é desconhecida. Apesar disso, acredita-se que seja passada geneticamente.
O Alzheimer atinge cerca de 8% dos idosos. “O principal fator de risco é a idade, acima de 65 anos a gente tem uma prevalência ali em torno de 8%, e quando a gente vê a população acima de 90 anos, a gente estima que essa prevalência chega em torno de 30 a 40%, varia de populações para populações”, comenta.
“O declínio cognitivo afeta a memória, afeta a atenção, a atenção espacial ali no momento de se entender, de reconhecer os fatos mais recentes da vida e com o avanço da doença vai começando a perder outras capacidades que são necessárias para a vida da pessoa”, destaca o médico.
Por ser uma doença neurodegenerativa, às vezes é possível detectar alguns sinais se forem analisados com antecedência. “Como dentro das doenças neurodegenerativas, às vezes a gente pode ter sinais como biomarcadores e até às vezes como alguns exames de imagem podem ter alterações antes mesmo de se iniciarem os primeiros sintomas”, relata.
Sobrecarga de informações no dia a dia
Carlos ainda ressalta que uma perda de memória pode ser um sintoma, mas deve tomar cuidado para não confundir com a sobrecarga do dia a dia. “Uma das causas que a gente tem é o excesso de informações que a gente tem no nosso dia a dia e que a gente pode ter a atenção desviada por alguns momentos, porque a gente tá um pouco mais preocupado com algum assunto e acaba esquecendo coisas no nosso dia a dia”, comenta o médico.
O médico destaca outros fatores como ansiedade, falta de sono e uso de medicamentos, que podem prejudicar a memória, mas não estão atreladas ao Alzheirmer. “Outras situações também podem acometer a memória da gente, alguns problemas psiquiátricos, principalmente um transtorno de ansiedade. Então, não necessariamente é uma demência, é um quadro neurodegenerativo”, comenta.
Segundo Carlos, no tratamento da doença existe o tratamento não medicamentoso e com medicamentos. “O tratamento não medicamentoso é por causa do estilo de vida saudável, evitar diabetes, pressão alta, ter uma alimentação mais saudável e exercício físico”, destaca. Veja a entrevista completa !
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
