
Amparado no crescente número de casos relatados de vício em plataformas digitais de jogos, as BETs, o Ministério da Saúde aumentou de 600 para 100 mil teleatendimentos mensais em saúde mental na parceria que tem com o Hospital Sírio-Libanês. A proposta é oferecer mais tratamentos para um problema de saúde sério que afeta também a economia das famílias. Na plataforma Meu SUS é possível inclusive chegar à etapa de autoexclusão do CPF das plataformas de jogos, mas psiquiatra diz que, em muitos casos, é necessária uma terapia presencial aliada ao teleatendimento, além de impedir cadastro de familiares do paciente nos sites de jogos, para impedir que jogue com dados de outra pessoa.
Na quinta-feira (13/8) o ministro da Fazenda, Dario Durigan, informou que mais de 5 milhões de brasileiros estão impedidos de apostar em BETs. Procurado, o Ministério da Saúde não divulgou dados regionais sobre pessoas em tratamento no ABC, mas se sabe que o vício está presente em muitas famílias da região.
Segundo o presidente da CDL (Câmara de Dirigentes Lojistas) de São Caetano, Alexandre Damasio Coelho, as apostas em jogos online afetam principalmente as famílias mais pobres. “A BET é um mau econômico que a gente não consegue ainda mensurar. Se o trabalhador comprava 12 pães para uma família, se ele apostar R$ 10 na BET volta para casa só com quatro pães. Então as pessoas mais humildes estão indo fazer compras e não têm mais dinheiro para comprar a mesma quantidade de coisas. O índice Scielo do ramo de padaria mostra que as pessoas estão indo com menos dinheiro para a padaria. A BET faz parte deste empobrecimento sistêmico”, disse Coelho em entrevista ao RDCast.
Segundo o Ministério da Fazenda, dos impedidos em apostar em BETs, 1,2 milhão estão nesta condição porque excluíram seus dados. Os demais são pessoas endividadas ou inscritas em programas sociais. Cerca de 800 mil dos dois milhões de brasileiros que aderiram ao programa Desenrola para negociação de dívidas tiveram seus CPFs excluídos das plataformas. Três milhões inscritos em programas como o Bolsa Família e o BPC (Benefício de Prestação Continuada) foram excluídos como medida de proteção social.
Para Danilo Baltieri, psiquiatra do Centro Universitário FMABC os primeiros sinais que demonstram que o uso das BETs deixa de ser recreativo para se tornar um vício aparecem quando o comportamento de apostar se torna persistente e gera prejuízo clinicamente significativo.
Transtorno do jogo
Segundo o médico, entre os indicadores iniciais mais frequentes estão a preocupação constante com apostas (planejar a próxima jogada, reviver resultados anteriores ou pensar no jogo mesmo em momentos inadequados), a necessidade de apostar quantias cada vez maiores para obter a mesma excitação, a irritabilidade ou inquietação quando se tenta reduzir ou interromper as apostas (sintomas de abstinência), tentativas repetidas e malsucedidas de controlar o comportamento, o uso do jogo como escape de emoções negativas, o “perseguir perdas” aumentando apostas após prejuízos na tentativa de recuperá-los, mentiras para familiares e amigos sobre o envolvimento e o comprometimento de relacionamentos, trabalho ou estudos. Esses critérios, estabelecidos por manuais diagnósticos, quando presentes, devem caracterizar o transtorno do jogo e diferenciar o uso recreativo do patológico”, detalha.
O psiquiatra diz que, em relação à dependência, o vício em jogo online compartilha mecanismos neurobiológicos centrais com a dependência química de álcool e de outras drogas, como a ativação do sistema de recompensa, alterações na tomada de decisão e perda de controle, mas apresenta particularidades estruturais que o tornam potencialmente mais intenso.
“A disponibilidade 24 horas por dia, anonimato, velocidade das apostas e depósitos, ausência de pausas naturais e facilidade de acesso por dispositivos móveis (smartphones). Em comparação com jogos presenciais, essas características elevam o risco de progressão rápida para o transtorno do jogo”, explica Baltieri.
Como no tratamento do vício em jogo presencial e aquele ligado às BETs a abordagem profissional segue a mesma linha, de acordo com a análise do professor da FMABC. “A TCC (Terapia Cognitivo Comportamental), as intervenções motivacionais e o manejo de comorbidades (depressão, ansiedade, transtornos de personalidade etc) permanecem as estratégias de primeira linha, sendo igualmente eficazes para o jogo online quando adaptadas às suas especificidades”, afirma o psiquiatra.
Finanças
A falta de controle financeiro pode agravar a situação de quem não consegue se desligar das BETs, o que pode mudar a forma de tratamento exigindo acompanhamento psiquiátrico presencial, segundo Baltieri. Os dados do Ministério da Fazenda, já mostraram que grande parte dos que se viciam em plataformas de jogos online, são pessoas de baixa renda que comprometem parcela importante do seu já enxuto orçamento familiar. Para o psiquiatra, além do teleatendimento para vício em jogos e apostas o paciente deve ter acesso a outros serviços oferecidos pelo SUS, para complementar o tratamento .
“O transtorno do jogo é reconhecido nos códigos CID-11 (6C50.0) e tem sido cada vez mais acolhido na rede de atenção psicossocial, especialmente nos CAPS (Centros de Atenção Psicossocial). Dados recentes mostram crescimento expressivo dos registros de atendimento relacionados ao jogo patológico no SUS, com aumento de mais de 200% nos CAPS entre 2021 e 2024, o que confirma que a rede pública já incorpora essa demanda, ainda que a capacidade e a especialização possam variar regionalmente”, diz o médico que sustenta que os municípios deveriam fazer campanhas de conscientização e divulgação dos canais de atendimento. “Os municípios deveriam, sim, desenvolver ações de prevenção ao vício em jogos online, uma vez que a expansão das plataformas digitais eleva a exposição de populações vulneráveis e os custos sociais e econômicos recaem localmente”, diz.
Homens entre 18 e 40 anos
O especialista da FMABC diz que o perfil do jogador online é de homens jovens, entre 18 e 40 anos, pessoas com estresse psicológico elevado, depressão ou ansiedade, usuários de álcool ou de outras substâncias durante o jogo e indivíduos com menor renda. O psiquiatra diz que, diante dos problemas econômicos causados pelo jogo, a família deve ser envolvida no processo terapêutico. “Familiares frequentemente são os primeiros a identificar mudanças de comportamento, dificuldades financeiras e alterações de humor, e seu apoio empático, sem julgamento e sem ‘salvar’ financeiramente o jogador, aumenta as chances de adesão e manutenção da recuperação. Sessões de orientação familiar ajudam a fortalecer a rede de suporte e a reduzir a negação. Embora o teleatendimento do SUS seja predominantemente individual, ele não exclui a possibilidade de incluir familiares em momentos específicos”, aponta.
CPF bloqueado
O médico diz que o bloqueio do CPF nas plataformas de apostas é uma medida importante, porém pode ser facilmente contornada com o uso dos dados de familiares o que agrava a crise financeira. O especialista sugere camadas adicionais de segurança além de orientação sobre os riscos de fornecer dados pessoais a terceiros. Para ele, é necessário incentivo à autoexclusão de todos os dispositivos e contas familiares, monitoramento de padrões de recaída e, quando possível, articulação com mecanismos regulatórios ou mesmo legais que dificultem o uso fraudulento de CPF de terceiros. “Essas camadas complementares reforçam a proteção sem substituir o trabalho terapêutico sobre a motivação e o controle do comportamento”, diz.
Por fim, o médico da FMABC considera importante que o Teleatendimento do Ministério da Saúde, seja complementado com terapias psicossociais oferecidas nos CAPS. “A integração entre o teleatendimento especializado e a atenção psicossocial (CAPS, ambulatórios ou consultórios) permite o manejo das comorbidades, o fortalecimento de habilidades de prevenção de recaída e o acompanhamento de longo prazo, reduzindo significativamente o risco de retorno ao comportamento problemático”, completa.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
