
Por Gisele Yamauchi
O fenômeno das shrinking cities refere-se ao processo de encolhimento urbano decorrente da interação entre fatores econômicos, demográficos, sociais e territoriais, que se manifesta por meio da perda populacional, envelhecimento, desindustrialização, suburbanização e reorganização econômica. Embora seja um fenômeno de alcance global, seus estudos se concentramm principalmentem nos países do Norte Global. Nesse contexto, o Japão constitui um dos casos mais representativos, por combinar, desde as últimas décadas do século 20, declínio demográfico, desaceleração econômica e profundas transformações territoriais.
A trajetória histórica japonesa evidencia que o acelerado processo de industrialização iniciado na Era Meiji impulsionou o crescimento econômico e consolidou o país como uma das principais economias mundiais no pós-Segunda Guerra Mundial. Entretanto, a partir da década de 1970, especialmente após a crise do petróleo, a economia passou a apresentar desaceleração estrutural, agravada pelo colapso da bolha imobiliária e financeira na década de 1990.
Desde então, o Japão enfrenta crescimento econômico reduzido e oscilações persistentes, perdendo posições relativas na economia mundial. Paralelamente, a população passou a apresentar redução contínua, associada às baixas taxas de fecundidade, ao envelhecimento populacional e às mudanças culturais
relacionadas à constituição familiar.
O encolhimento demográfico tem produzido impactos diretos sobre as cidades japonesas, sobretudo as pequenas e médias. Estudos apontam que, entre 1990 e 2007, aproximadamente um quarto das cidades com mais de 100 mil habitantes perdeu população, tendência que se intensificou nas décadas seguintes. A migração de jovens para grandes regiões metropolitanas, como Tóquio, Nagoya, Osaka e Fukuoka, reforçou a concentração econômica e populacional, enquanto diversas cidades interioranas passaram a enfrentar perda de dinamismo econômico, redução da base produtiva e envelhecimento acelerado de seus habitantes. Esse processo evidencia a estreita relação entre mudanças demográficas, globalização, reestruturação produtiva e reorganização territorial.
As pesquisas sobre shrinking cities no Japão demonstram que os efeitos do encolhimento extrapolam a redução populacional, alcançam a sustentabilidade financeira dos municípios, a manutenção das infraestruturas urbanas e a oferta de serviços públicos essenciais. O caso de Nagasaki exemplifica a necessidade de articulação entre governo, setor privado e sociedade civil para garantir a continuidade de serviços como transporte, saneamento, energia e abastecimento diante da diminuição da população e do aumento da proporção de idosos.
Além disso, a internacionalização da economia, a transferência de atividades industriais para outros países asiáticos e a concentração dos investimentos nas grandes metrópoles intensificaram as desigualdades territoriais entre centros urbanos e regiões periféricas.
Em resposta a esses desafios, o Japão passou a incorporar o encolhimento populacional às políticas de planejamento territorial. Inicialmente, predominou uma postura de adaptação à retração demográfica, acompanhada da descentralização administrativa e do fortalecimento das estratégias locais de desenvolvimento. Posteriormente, o 5º Plano Nacional de Ordenamento do Território (2015–2022) introduziu medidas voltadas à contenção da expansão urbana, à consolidação de áreas residenciais e ao incentivo a cidades mais compactas, embora seus resultados tenham sido limitados.
Desde 2023, o 6º Plano Nacional de Ordenamento do Território busca aperfeiçoar essas estratégias por meio do conceito de "compact + network", priorizando cidades compactas, manutenção seletiva das infraestruturas, integração territorial e promoção do crescimento econômico compatível com uma sociedade em declínio populacional. Entretanto, a implementação dessas medidas enfrenta resistências políticas, desigualdades regionais e elevados custos institucionais, tornando necessária a avaliação de seus resultados nos próximos anos.
O caso japonês evidencia que o encolhimento urbano constitui um processo estrutural e de longo prazo. Exige políticas públicas integradas capazes de articular planejamento territorial, desenvolvimento econômico, infraestrutura e mudanças demográficas. A experiência japonesa oferece importantes referências para países que começam a enfrentar desafios semelhantes, como o Brasil. O ABC já enfrenta o encolhimento e o envelhecimento populacional, de crescimento industrial e precisa rever as suas políticas de Estado, que devem incorporar o planejamento estratégico de cidades em retração às agendas de desenvolvimento urbano sustentável e regional.

Gisele Yamauchi é economista de Ribeirão Pires, doutora em Arquitetura e Urbanismo pela USJT (Universidade São Judas Tadeu), docente em Sistemavjaponês de produção pela Association for Overseas Technical Cooperation and Sustainable Partnerships (AOTS) e pesquisadora associada (Ceasia-UFPE) Coordenadoria de Estudos de Ásia da Universidade Federal de Pernambuco.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
