
Estima-se que grande parte das indústrias do ABC serão impactadas direta ou indiretamente pela medida de sobretaxar em mais 25% os produtos brasileiros exportados para os Estados Unidos. O tarifaço, como é chamado, passou a valer nesta quarta-feira (22/07) e, embora não se tenha ainda qualquer previsão de impacto, ele é certo e a representação do setor industrial se prepara para acolher grande número de dúvidas, questionamentos e pedidos de apoio dos associados. Para advogado especialista em Direito Econômico, ouvido pelo RD, o governo federal deve diminuir o tom de críticas a Donald Trump e começar a negociar, o que pode trazer resultados mais positivos que a guerra de narrativas.
Dentre os setores mais impactados pela nova taxação americana estão os setores de pneus, máquinas industriais, calçados, açúcar, etanol, tabaco, madeira e alguns itens da indústria metalúrgica, como o alumínio. O governo americano sustenta que o Brasil adota práticas que prejudicam os EUA nessa relação internacional de comércio. Dentre elas é citado o PIX que afeta as operações das empresas de cartão de crédito, e a regulação de plataformas digitais. Questões de fiscalização do meio ambiente e corrupção também são citadas.
Para Jorge Alberto Corso, diretor titular do Ciesp (Centro das Indústrias no Estado de São Paulo) de São Bernardo, o tarifaço vai afetar os empresários de diferentes setores, embora ele não acredite em um impacto muito grande para a sua diretoria regional visto que os Estados Unidos não são o principal destino dos produtos feitos pela indústria da cidade.
“O empresário brasileiro já tem tanto problema interno e agora é afetado também por problemas externos. Apesar de não ter sido, o Brasil, exclusivamente afetado pelo tarifaço, vemos que o ele foi um dos países com tarifas maiores e isso afeta nossos associados principalmente quando se trata de metalurgia. Temos associados que pararam suas exportações justamente porque, com mais essa taxa de hoje, os preços estavam atingindo valores proibitivos para negociar. O menos ruim é que os Estados Unidos, para exportação, não é o nosso principal país, então pontualmente afeta algum associado, mas as exportações para os EUA estão em terceiro, quarto, às vezes quinto lugar para as indústrias de São Bernardo. Esse é um levantamento de 2023 até agora nas exportações em milhões de dólares”, disse Corso em entrevista ao RDTv Momento Econômico desta quarta-feira (22/07).
Para o diretor da regional de São Bernardo do Ciesp, as compensações anunciadas pelo governo do Brasil ajudam pouco. “Sempre é uma válvula que pode ajudar uma ou outra empresa. Empresário está direcionando suas vendas para outros mercados, então uma ajuda dá um pouco de fôlego para se planejar. Mas o melhor era ter jogo de cintura para que isso (tarifaço) não ocorresse”, completa.
São Caetano prevê danos maiores
Para o diretor titular do Ciesp de São Caetano, Mauro Peres, os impactos no município serão maiores porque, segundo ele, 70% do que as indústrias da cidade exportam vai para os Estados Unidos. “Na minha empresa produzimos artefatos de borracha que é derivado do petróleo e estávamos procurando os melhores preços, quando vem agora o tarifaço. Estamos fazendo contato com nossos associados para saber o grau que cada um será afetado, direta ou indiretamente. É preciso criar alguma estrutura porque vamos sofrer bastante e procurar outros mercados não se faz de uma hora para outra. A melhor chance, e mais rápida de resolver, é através da diplomacia, porque não se trata de concorrência desleal é uma questão política, o Brasil não pode abrir mão do seu PIX, e em outra análise se pode ver que os cartões de crédito das bandeiras americanas também continuam sendo usados. Eu acredito no poder de negociação do vice-presidente Geraldo Alckmin”, sustenta.
Segundo Peres, se a indústria sofrer, o trabalhador também vai sentir o reflexo com potencial desemprego. “O pior é que se perderem empregos, toda a economia começa a sentir”, aponta. Ele diz que o Ciesp de São Caetano está se preparando para receber os pedidos de orientação dos associados.
Para o diretor titular do Ciesp Diadema, José Adolfo Gazabin Simões, o cenário requer serenidade e atuação coordenada entre governo e setor produtivo. “Ainda é prematuro falar em impactos consolidados sobre a indústria regional, mas toda medida que dificulta o comércio internacional aumenta a insegurança para quem produz, investe e gera empregos. Nossa expectativa é que prevaleçam o diálogo diplomático e as soluções negociadas, preservando a competitividade das empresas brasileiras e a continuidade dos investimentos”, disse.
Simões ressalta que o setor industrial brasileiro possui histórico de resiliência e capacidade de adaptação, mas reforça que o momento exige atenção especial às pequenas e médias empresas, que integram importantes cadeias produtivas e podem ser afetadas de forma indireta. “Mais do que reagir ao cenário atual, precisamos aproveitar este momento para fortalecer nossa competitividade, ampliar mercados, estimular a inovação e reduzir o chamado Custo Brasil. A indústria paulista tem competência para enfrentar desafios, desde que conte com um ambiente favorável aos negócios”, conclui.
Pneus
Um dos setores impactados pela taxação americana é o de pneus, que já sofre no país grande concorrência no mercado interno com os produtos importados da China. Apesar da interpretação de que o tarifaço pode impactar a indústria de uma forma geral, especificamente neste setor, a preocupação é menor.
Para o presidente do Sintrabor (Sindicato dos Borracheiros da Grande São Paulo e Região), Márcio Ferreira, a concorrência no mercado interno que já tem quase tantos pneus chineses quanto brasileiros, é muito mais grave e maior preocupação do setor no momento. No ABC são dois grandes fabricantes de pneus, ambos em Santo André, a Bridgestone e a Prometeon (antiga Pirelli). O temor do sindicato de trabalhadores é o corte de pessoal.
“No segmento de pneus não vai ter muito impacto não, porque o nosso produto não consegue concorrer em preço com o chinês, por isso exportamos muito pouco. A única que manda um pouco para os Estados Unidos é a Bridgstone, talvez lá tenha algum impacto, mas no geral será muito pouco. A nossa briga é mesmo com o pneu importado. Agora a União Europeia taxou em 45% o pneu asiático, então agora eles vão mirar mais aqui, o que pode ser prejudicial”, analisa Ferreira.
Especialista aponta falha de comunicação do governo brasileiro ao responder Trump
Para o advogado especializado em Direito Econômico, Alessandro Azzoni, o governo brasileiro tem errado na medida quando responde ao presidente Donald Trump sobre o tarifaço. “Na primeira leva do tarifaço a Suprema Corte americana se posicionou contrária às medidas do presidente americano, agora a USTR (Representante de Comércio dos Estados Unidos, pela sigla em inglês) tenta criar a narrativa da concorrência desleal, de trabalho escravo e de não atendimento a normas ambientais. Eu acho que a situação é contornável, mas não adianta o nosso presidente usar discurso contrário, de que vai retaliar porque isso traz uma repercussão internacional grande. A primeira coisa a fazer é negociar pois as barreiras comerciais só vão encarecer o nosso produto”, analisa.
Segundo o especialista em Direito Econômico a chancelaria brasileira deve ir aos EUA buscar essa negociação da mesma forma como alguns setores conseguiram derrubar essa sobretaxa, como setor do café. “26% do nosso PIB (Produto Interno Bruto) vai para os EUA e são itens com maior valor agregado, temos nesse bolo a Embraer e também os setores de pneus e maquinários, portanto o caminho tem sido das federações irem lá negociar, pois achar novos mercados leva muito tempo, são necessárias adequações no produto e isso não é viável agora. O custo do empresário já está alto, com menos exportações, teremos menos dólares o que implica em câmbio mais alto e os juros podem subir. Até o momento vimos uma inabilidade do presidente Lula em lidar com a situação”, completa Alessandro Azzoni.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
