
Cansaço persistente, ganho de peso inexplicado, irregularidade menstrual, dificuldade para engravidar, queda de cabelo, alterações de humor. Sintomas que muitas mulheres atribuem ao estresse, à correria do dia a dia ou à menopausa, mas que, em muitos casos, apontam para uma causa comum e subdiagnosticada: disfunção da tireoide.
Segundo artigo publicado na revista Femina, periódico oficial da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), as doenças tireoidianas acometem de 5 a 20 vezes mais o sexo feminino do que o masculino e podem impactar significativamente a saúde e o bem-estar ao longo de toda a vida da mulher, desde a infância até a idade adulta.
Para Alexandre Rossi, ginecologista responsável pelo Ambulatório de Ginecologia Geral do Hospital e Maternidade Leonor Mendes de Barros, em São Paulo, a tireoide é um tema que deveria fazer parte de toda consulta ginecológica.
A tireoide é uma glândula pequena, mas que comanda uma quantidade enorme de funções no organismo feminino. “Quando não funciona bem, a mulher sente, seja no ciclo menstrual, no peso, no humor, na fertilidade, na qualidade do sono, entre muitas outras questões que podem estar relacionadas. O problema é que esses sintomas são inespecíficos e muitas vezes atribuídos a outras causas. Por este motivo, sem consultas e avaliações periódicas, o diagnóstico tarda e o impacto na qualidade de vida se acumula”, explica Rossi.
Uma glândula, muitas funções
A tireoide é uma glândula em forma de borboleta, localizada na região anterior do pescoço. Ela produz os hormônios T3 (triiodotironina) e T4 (tiroxina), que regulam o metabolismo e agem sobre órgãos vitais, como coração, cérebro, fígado e rins. Interferem, também, no crescimento, na regulação dos ciclos menstruais, na fertilidade, no peso, na memória, na concentração, no humor e no controle emocional.
Quando a tireoide produz hormônios em quantidade insuficiente, temos o hipotireoidismo, que é o distúrbio da glândula mais comum entre as mulheres. O corpo desacelera: cansaço, ganho de peso, constipação, pele seca, queda de cabelo, sensação de frio constante e lentidão cognitiva são alguns dos sinais mais frequentes. Quando produz em excesso, temos o hipertireoidismo. O organismo acelera, com taquicardia, perda de peso, agitação, insônia e sudorese excessiva.
Além das disfunções funcionais, é possível encontrar nódulos na tireoide, também mais comuns em mulheres, que exigem acompanhamento e, em alguns casos, investigação para descartar malignidade.
A tireoide ao longo da vida da mulher
• Na adolescência: tanto o hipotireoidismo quanto o hipertireoidismo podem alterar o início da puberdade e causar irregularidades menstruais já na adolescência. Dificuldades escolares e alterações de humor nessa fase também podem ter origem tireoidiana
• Na idade reprodutiva: disfunções tireoidianas são uma causa relevante de infertilidade feminina e um fator frequentemente ignorado na investigação de casais que tentam engravidar. O hipotireoidismo não tratado pode impedir a ovulação, causar ciclos irregulares e reduzir as chances de implantação do embrião
• Na gestação: hipotireoidismo não controlado está associado a abortos espontâneos, partos prematuros, baixo peso ao nascimento e comprometimento do desenvolvimento neurológico do bebê. Por isso, a avaliação da função tireoidiana deve integrar o protocolo de pré-natal mas, idealmente, deveria ser investigada ainda antes, no planejamento reprodutivo
• No climatério e na menopausa: os sintomas do hipotireoidismo comumente se sobrepõem aos sintomas do climatério, sendo atribuídos à menopausa, quando, na verdade, parte do quadro pode ser explicada por disfunção tireoidiana
Mulheres e o risco aumentado
A prevalência de hipotireoidismo em mulheres pode chegar a 15% na fase da menopausa, com perda da proteção dos hormônios femininos. Um estudo da Fundação FIDI, baseado em 179.152 exames realizados entre 2021 e 2025, mostrou que a maior concentração de diagnósticos de alterações na tireoide ocorre entre 40 e 65 anos — com aumento progressivo conforme a idade avança, atingindo o ápice próximo aos 60 anos.
“Na menopausa, é fundamental separar o que é efeito da queda de estrogênio do que pode ser disfunção tireoidiana. São quadros que se sobrepõem e que precisam de avaliação criteriosa. A dosagem do TSH deve ser rotina em toda mulher, especialmente nessa fase da vida, ainda mais se os sintomas são intensos e não há resposta ao tratamento convencional”, alerta o médico.
Por que as mulheres são mais afetadas?
A predominância feminina nas doenças da tireoide tem explicações hormonais e imunológicas. Os estrogênios influenciam diretamente a função tireoidiana e as mulheres têm maior predisposição a doenças autoimunes, como a Tireoidite de Hashimoto (principal causa de hipotireoidismo) e a Doença de Graves (principal causa de hipertireoidismo).
Essa suscetibilidade imunológica aumenta nas fases de maior variação hormonal: puberdade, gestação, puerpério e menopausa.
Por este motivo, Alexandre Rossi reforça que o ginecologista ocupa uma posição privilegiada para identificar precocemente disfunções tireoidianas.
“A tireoide é uma das glândulas mais impactantes para a saúde feminina e uma das mais negligenciadas. Investigar sua função é responsabilidade de todo médico que cuida da mulher”, completa o especialista.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
