O fundador e presidente do Parceiros da Educação, Jair Ribeiro, defende que o Ministério da Educação deveria priorizar o currículo, com foco em conhecimentos básicos e na capacidade interpretativa e de raciocínio dos estudantes.
“O aluno não precisa saber seno e cosseno, não precisa saber equações polinomiais, mas precisa saber ler e escrever muito bem e precisa saber as bases de matemática”, disse ao participar do Brasil Adiante, série de eventos promovida pela reportagem até agosto.
O ciclo de debates busca apresentar propostas concretas ao presidente eleito em outubro sobre os principais problemas do País. As soluções serão consolidadas em um documento entregue em novembro ao vencedor do pleito.
Ribeiro cita que cerca de 34% dos estudantes do 3.º ano do ensino médio da rede pública apresentam nível de aprendizagem em Português adequado. A situação é ainda mais drástica em Matemática: apenas 5% registram desempenho propício. Os dados são do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) de 2023, contabilizados pelo Todos pela Educação. “Ainda temos um volume muito grande de crianças abaixo do básico, nessa escuridão cognitiva.”
Para ele, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) “cobre muita coisa e não dá profundidade”. “É necessário dar o mínimo de habilidades essenciais para esses jovens que vão para o mercado de trabalho e interagem com a inteligência artificial. A IA pode ser uma grande niveladora de conhecimentos para eles, desde que tenham as habilidades essenciais.”
Quais propostas o próximo governo deve adotar no MEC?
O trabalho do MEC é ser indutor das políticas nos Estados e Municípios, que executam a educação básica.
A grande prioridade do Brasil hoje é resgatar 70% das crianças que estão nos anos finais do ensino médio e têm desempenho abaixo do conhecimento básico. Essa é a prioridade. É necessário garantir o mínimo de habilidades essenciais para esses jovens que vão para o mercado de trabalho e interagem com a inteligência artificial. A IA pode ser uma grande niveladora de conhecimentos para eles, desde que tenham as habilidades essenciais.
Não precisam saber seno e cosseno, não precisam saber equações polinomiais, mas precisam saber ler e escrever muito bem e precisam saber as bases de matemática.
Para isso, o governo federal, como indutor, deveria fazer três ou quatro coisas. A primeira é priorizar o currículo do MEC. Hoje, a BNCC cobre muitas coisas e não dá profundidade. É necessário mais profundidade, principalmente em Língua Portuguesa e Matemática.
A segunda medida é expandir as escolas de período integral. Elas deram qualidade de ensino no modelo de Pernambuco. Hoje, um ano de escola de período integral equivale a três anos de uma escola regular. O governo federal reduziu o dinheiro destinado às escolas de período integral no ano passado por causa do Pé-de-Meia e outros projetos.
O terceiro ponto é um programa forte de recomposição de aprendizagem. Ainda há um volume muito grande de crianças abaixo do básico, nessa escuridão cognitiva. É necessário atuar de forma direta para reduzir esse gap.
Como o MEC pode priorizar o currículo nos primeiros 24 meses?
O MEC é responsável pela BNCC. O governo federal deveria atuar de forma corajosa e fazer uma priorização curricular. Isso não ocorre apenas no Brasil. O mundo inteiro prioriza habilidades essenciais. O Brasil segue o que a literatura indica.
A recomposição exige mudanças na Base Nacional Comum Curricular?
Não. Existem vários programas específicos de recomposição. Vários Estados executam essas ações. Em São Paulo, existe um programa chamado Professor Tutor, presente em mais de 3.000 escolas. Há exemplos também em Santa Catarina, Espírito Santo e Goiás.
Os programas de recomposição utilizam material didático dentro das zonas de desenvolvimento proximal do aluno, próximo do que ele entende — teaching at the right level — e verificam e personalizam o nível de proficiência das turmas.
O MEC poderia ser um grande indutor com materiais didáticos e recursos para que Estados e Municípios executem bem esses programas.
Seriam necessários mais professores e aumento de orçamento?
Não necessariamente. Poderia redirecionar recursos. O Pé-de-Meia custa cerca de R$ 18 bilhões. Qual é a evidência de que esse programa funciona? Há evidência de que programas de recomposição funcionam.
Às vezes, há necessidade de um professor extra para alunos mais defasados em turmas menores. Também é possível dividir as salas por níveis de proficiência. Isso mantém o mesmo custo.
Existem várias formas de execução sem aumento de orçamento. Não há necessidade de passar pelo Congresso, apenas de priorização.
O MEC tem recursos. O Brasil tem dinheiro. Eu priorizaria programas como escola em período integral e recomposição, que têm evidência, em detrimento do Pé-de-Meia. Qual é a evidência de que o Pé-de-Meia funciona? Pode reduzir a evasão, mas retirou recursos de programas mais essenciais.
Como medir a eficiência desses programas?
O Brasil tem um dos melhores sistemas de avaliação do mundo. Mesmo países desenvolvidos não têm o volume de avaliações existentes aqui.
Há o Saeb, avaliações estaduais e outras avaliações independentes que permitem medir a eficácia dos programas.
Qual a meta para escolas integrais nos primeiros 24 meses?
Isso depende de Estado para Estado. Há Estados mais avançados e outros menos. Depende também da infraestrutura das escolas.
Houve queda demográfica e mudança de distribuição populacional. Em São Paulo, por exemplo, escolas no centro estão subutilizadas, enquanto há alta demanda na periferia. É lá que se precisa construir escolas. Mas isso demanda tempo. O planejamento precisa ser descentralizado.
No âmbito do MEC, é possível estabelecer metas para os primeiros 24 meses?
O MEC deveria negociar metas com cada Estado e apoiar com recursos já existentes. Esses recursos foram retirados do programa de escola de período integral em 2025. Isso é um erro de priorização.
Por que esses projetos ainda não avançaram?
Hoje há consenso sobre o que precisa ser feito. O problema é de priorização. Programas mais eleitoreiros, populistas e assistencialistas acabam recebendo prioridade em detrimento de políticas com maior evidência.
E sobre o uso de inteligência artificial?
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
