
O impacto do fim da escala 6×1, em discussão no Congresso, é ainda uma incógnita para a maioria dos setores da economia do ABC ouvidos pelo RD, porque o comércio, serviços e as pequenas indústrias temem prejuízos maiores. Em suma, as empresas menores, aquelas onde o patrão está mais próximo do empregado, devem ter custos maiores para se adaptarem, além da tensão já estabelecida entre empregador e trabalhador em torno do tema. Entidades representativas arriscam previsões sobre aumento de custo de produção com a redução de jornada, mas economista aponta para o ganho de produtividade e avanço na discussão sobre a qualificação de mão de obra que podem compensar.
Para o presidente da Acisa (Associação Comercial e Industrial de Santo André), Evenson Dotto, qualquer previsão que se faça ainda não trará dados concretos como base. “Na realidade as empresas não têm noção do quanto o fim da jornada 6×1 vai impactar. Não se sabe se vão pagar hora extra para cumprir o período de portas abertas, se vão abrir mais tarde ou fechar mais cedo, no caso do comércio. Eu mesmo, no prédio, tenho um problema, dois porteiros se revezam e cada um trabalha 8h, se reduzir a jornada vou ficar cerca de 40 minutos sem porteiro e não posso pedir para outro funcionário ficar ali esse período porque corro o risco de ação trabalhista. Quanto custa mudar toda uma equipe? Porém, de uma forma ou de outra a medida vai encarecer o custo das empresas”, diz.
Eleição presidencial
Segundo a análise de Dotto, o momento da discussão desta medida, às vésperas de eleição presidencial é ruim para o debate. “Eu espero que o Senado discuta bastante o tema e defina só depois da eleição”, completa.
No setor industrial a percepção é a mesma. Para o diretor titular do Ciesp (Centro das Indústrias do Estado de São Paulo), regional de Diadema, José Adolfo Gazabin Simões, o período escolhido para debater a jornada de trabalho é inadequado. “Eu acho a demanda lícita, o que nos aborrece é a forma atabalhoada e eleitoreira. Entre 65% e 70% já praticam jornada menor que 44 horas semanais na indústria, mas falta discutir esse tema por setor e por porte das empresas. A transição já majora os custos. Estimamos que o impacto vai variar entre 10% e 30% dependendo do porte. Há um risco de as empresas de pequeno porte até migrarem para a informalidade”, diz o empresário.

Simões prevê uma alta do custo com pessoal na faixa dos 18% na sua própria empresa. “A Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) e os Ciesps pleiteiam prazo para uma análise técnica e que se postergue a votação da medida para depois das eleições”, aponta o dirigente.
Nem mesmo a Agência de Desenvolvimento Econômico do ABC, que tem debatido o futuro da empregabilidade na região e o modelo econômico regional com os setores da indústria, comércio e serviços com o poderes públicos e com os trabalhadores sabe ainda o que se esperar como impacto da jornada 6×1.
Para Aroaldo Silva, que dirige a Agência e é oriundo de sindicato de trabalhadores, não se tem ainda estudos que balizem qualquer previsão de custos, quanto disso será repassado ao consumidor em cada etapa da cadeia produtiva e quanto tempo será necessário para absorção deste custo adicional.
“Acho que ninguém tem ainda essa previsão e é difícil mensurar. Teoricamente, se você coloca de forma linear, reduzir em 5% agora a jornada e depois mais 5%, não quer dizer que vai ter 10% no aumento de custo porque o custo já está colocado, então é difícil fazer esse debate. A Agência ainda não tem nenhum estudo aprofundado e acho que nenhum órgão tem isso ainda, até porque no último período diversos setores tiveram adensamento tecnológico, um processo de digitalização que mudou um pouco a configuração do trabalho, por isso é um tema que vamos ter de aprofundar”, diz o presidente da Agência de Desenvolvimento Econômico do ABC.
Economista considera que o impacto será desigual e merece análise setorial
O conselheiro do CoreconSP (Conselho Regional de Economia de São Paulo) e professor de economia da USCS (Universidade Municipal de São Caetano do Sul), Antonio Fernando Gomes Alves, considera que o impacto nas empresas da região pode ser desigual, com variação conforme o setor e porte.
“Em indústrias com maior gestão e mais organizadas essa transição para 5×2 tende a ser absorvível pela gestão ou mesmo pelas novas tecnologias que, dentro dessa reorganização, vão se reconfigurar em turnos. Já setores como o comércio, condomínios, restaurantes ou supermercados, que exigem serviços contínuos, existe um custo de adaptação que pode ser maior porque a atividade precisa funcionar em escala ininterrupta, e pode haver uma pressão por novas contratações, por banco de horas ou mesmo por aumento de preços e levando até modelos de terceirização”, analisa Alves.

Segundo o conselheiro do CoreconSP, não é apenas a produtividade medida por horas trabalhadas que deve ser considerada nesse debate de mudança de escala de trabalho. Alves diz que a OCDE (Organização do Comércio e Desenvolvimento Europeu) mede a produtividade como produção por hora trabalhada, frequentemente esses países têm uma produtividade maior porque combinam tecnologia, qualificação de mão de obra, melhor gestão e o capital por esse trabalhador.
“A média da OCDE, em produtividade – dados de 2022 e 2023 – é de média de 67 dólares por hora, demonstrando que esse debate não pode ser reduzido a simplesmente trabalhar mais para produzir mais. No caso brasileiro há um problema estrutural, onde a produtividade cresce pouco porque o desempenho em determinados setores da indústria ainda é tímido, enquanto o agronegócio, que tem se qualificado e investido em tecnologia, é melhor. Não é à toa que nós temos batido o recorde do PIB puxado pelo agronegócio”, diz Alves.
O economista cita os dados divulgados pelo Ministério do Trabalho, Economia e Emprego de que mais de 60% dos vínculos formais de emprego já são de jornada 5×2, para justificar que essa adequação já vem sendo feita. “Essa redução vai ter um impacto, porém ela vai trazer o debate de aumento de bem estar para os trabalhadores, eleva a qualidade de vida e impacta menos os serviços de saúde e a própria empresa, com menos afastamentos. Um ritmo de trabalho extenuante prejudica a mão de obra, mas, óbvio que para os empresários aparece como custo e existe tensão política na relação capital e trabalho que sempre houve na economia brasileira”, diz Antonio Fernando Gomes Alves.
No ABC, segundo o economista, o debate sobre a jornada de trabalho vai exigir uma negociação por setor, uma política de apoio à produtividade e também traz de volta a importância da atuação dos sindicatos de trabalhadores. “Os sindicatos perderam representação profissional das categorias há algum tempo e esse debate retoma o papel do sindicato não só no sentido grevista ou de obstaculizar o trabalho nas fábricas, mas de trabalhar essas discussões mais qualificadas. Esse conflito está posto, mas não está de forma que não possa ser atenuado, melhorado, trazendo benefícios para os trabalhadores como qualidade de vida, bem estar e até melhor ganho. Do lado dos empresários, trazendo melhor competividade melhor posicionamento de mercado, competitividade internacional. A escala 5×2 exige uma empresa indústria e um comércio realmente no século 21, mas estamos com estrutura do século 20 e isso muda como olhamos a economia atualmente”, completa.

Acisbec prevê desemprego no setor de serviços
Valter Moura Júnior, presidente da Acisbec (Associação Comercial e Industrial de São Bernardo), é mais pessimista. Aposta que a redução da escala resulte em desemprego, principalmente no setor de serviços. “Entendemos que a discussão sobre a escala 6×1 é legítima e importante, mas uma mudança dessa magnitude deveria ter sido amplamente debatida com a classe produtiva antes de avançar. Vai diminuir pelo menos em 15% de postos de trabalho no setor de serviços, que tem forte presença no ABC. Muitas empresas precisarão rever horários de funcionamento, operações e custos, o que pode resultar em redução de postos de trabalho e aceleração da adoção de tecnologias de autoatendimento. Alguns estabelecimentos devem fechar nos fins de semana”, prevê.
Moura Júnior diz que o tema deve avançar, mas com avaliação dos impactos e sem interferência do governo. “Não somos contra o debate, mas o Estado não pode se intrometer nas relações de trabalho da forma como faz. Defendemos que o debate ocorra de forma equilibrada, ouvir trabalhadores e empregadores para que se encontrem soluções que preservem empregos e garantam a sobrevivência dos negócios”, completa.

Hotéis, bares e restaurantes podem fechar em dias de pouco movimento, prevê Sehal
Para o presidente do Sehal (Sindicato das Empresas de Hospedagem e Alimentação do ABC), Beto Moreira, para se adequarem ao cumprimento de nova jornada de trabalho empresas do ramo hoteleiro e do ramo de alimentação podem simplesmente fechar as portas nos dias de menor movimento, reduzindo a atividade econômica.
Moreira afirma que o setor de hospedagem e alimentação acompanha o tema com preocupação. As pequenas empresas, que representam a maior parte da categoria, podem ser as mais afetadas, pois precisarão contratar mais funcionários para manter os mesmos dias e horários de funcionamento. “Isso significa aumento de custos em um momento em que os empresários já enfrentam alta carga tributária, mais burocracia e novas exigências regulatórias. Em alguns casos, a conta pode levar estabelecimentos a reduzir horários de atendimento ou até fechar em dias de menor movimento para equilibrar as despesas”, aponta.
O presidente do Sehal também defende um debate mais amplo antes de votação da redução da jornada no Congresso. “Defendemos que qualquer mudança nas relações de trabalho seja amplamente debatida, para que seus efeitos sobre o emprego, a competitividade das empresas e a sustentabilidade dos negócios sejam cuidadosamente avaliados”, afirma Beto Moreira.
Tema é motivo de tensão entre trabalhadores e empresários
O pleito pelo fim da escala 6×1 em discussão no Congresso e já aprovado na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, abriu um abismo maior entre trabalhadores e empregadores, que vai além da discussão anual de reajuste salarial e benefícios. Para o diretor do Ciesp de Diadema, já há um tensionamento nas indústrias entre trabalhadores que desejam o fim da escala 6×1 para ter mais tempo com a família, e os patrões que temem alta dos custos.

“Nas indústrias de médio e pequeno porte, onde o proprietário geralmente está no chão de fábrica com os trabalhadores fica o desconforto, muito pela falta de informação. Eu não diria uma tensão entre patrão e empregado, mas uma expectativa e ansiedade que divide os dois”, diz José Adolfo Gazabin Simões.
Aroaldo Silva, da Agência de Desenvolvimento do ABC não é apenas a discussão de jornada de trabalho que fica contaminada no ano de eleição. Silva também avalia que é necessário discutir tudo entre trabalhadores e empresários.
“Nesse período eleitoral, todos os temas passam a ser contaminados, tudo fica politizado, mas dentro da escala 6×1 a gente tem de discutir o futuro do mundo do trabalho, para onde caminha o trabalho, porque alguns setores não despertam interesse do trabalhador; essa proliferação da plataformização, a gente precisa pensar alguns setores econômicos tradicionais, indústria, comércio e serviços, mas diversos outros que surgem através da alavanca do empreendedorismo. A reforma trabalhista de 2017 já flexibilizou parte das relações, a gente precisa discutir e esse debate tem de ser feito de forma igual entre trabalhadores e empregadores”, completa Silva.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
