
O abandono de cães e gatos no ABC segue como um problema persistente, com respostas ainda fragmentadas entre poder público, Legislativo e sociedade civil. Apesar de campanhas, programas de castração e canais de denúncia, a ausência de dados específicos em parte dos municípios e a sobrecarga de protetores independentes indicam que a rede de proteção não acompanha a demanda crescente.
As prefeituras da região apostam em estratégias semelhantes, com foco na castração gratuita como principal ferramenta de controle populacional de cães e gatos. A medida aparece associada a campanhas de conscientização sobre guarda responsável, feiras de adoção e canais para denúncias.
Em Santo André, o município mantém estrutura mais ampla, com hospital veterinário, centro de adoção e atuação conjunta com a Polícia Civil em casos de maus-tratos. Também há incentivo direto à castração e orientação durante feiras de adoção.
Já Mauá apresenta um dos cenários mais robustos, com mais de 30 mil castrações realizadas, cerca de 540 adoções desde 2021 e mais de 3.800 atendimentos entre 2025 e 2026 relacionados a abandono e maus-tratos. A cidade realiza busca ativa em bairros, mutirões descentralizados e ações educativas que já alcançaram milhares de moradores.
Outros municípios operam com limitações ou formatos distintos. Em São Bernardo, o Centro de Controle de Zoonoses mantém animais para adoção, promove campanhas educativas e realiza feiras em espaços públicos, mas não centraliza a apuração de maus-tratos, que segue para órgãos policiais.
Em São Caetano, o monitoramento por câmeras e o atendimento em tempo real permitem resposta rápida a denúncias, além do recolhimento de animais em risco e campanhas digitais sobre bem-estar, vacinação e posse responsável.
Já Diadema apresenta lacunas importantes. O município não possui sistema de contabilização específico para abandono, não mantém campanhas em andamento no momento e não realiza resgate direto de animais. A atuação se concentra em fiscalização de pontos críticos e em uma feira virtual de adoção. A falta de padronização nos dados aparece como um dos principais entraves. Parte das cidades não separa abandono de outras formas de maus-tratos, enquanto outras não possuem levantamento estruturado. Sem esse diagnóstico, o planejamento de políticas públicas perde precisão.
A Prefeitura de Ribeirão Pires não respondeu aos RD até o fechamento da reportagem.
Casos recentes na região

Casos registrados na região reforçam a dimensão do problema e evidenciam como o abandono ainda ocorre de forma recorrente. Em São Caetano, um casal foi flagrado ao abandonar um cachorro em frente a uma clínica veterinária no dia 17 de abril. Imagens mostram o momento em que o animal é deixado preso ao portão do estabelecimento. Antes de sair, uma das pessoas joga um bilhete para dentro do local. Segundo os responsáveis pela clínica, a mensagem informava que o cão havia sido deixado anteriormente na casa do casal. Os envolvidos foram identificados e podem responderão por maus-tratos. O animal recebeu atendimento, passa bem e já foi adotado.
Outro caso ocorreu em São Bernardo, no 13 de abril. Câmeras de segurança registraram o momento em que uma pessoa abandona um filhote de gato dentro de uma sacola, em frente a uma residência no bairro dos Casas. Horas depois, o animal foi encontrado por uma moradora que ouviu os miados. Um boletim de ocorrência foi registrado e a Polícia Civil instaurou inquérito. O filhote segue sob cuidados após o resgate e deve ser encaminhado para adoção.
Leis em debate
No Legislativo, propostas recentes indicam tentativa de avanço na prevenção e punição. Em Santo André, a vereadora Ana Veterinária propôs multa para quem utilizar veículo no abandono de animais. O texto detalha critérios de identificação, como uso de imagens de câmeras públicas e privadas, prevê penalidades maiores em caso de reincidência ou morte e destina os valores ao Fundo Municipal de Proteção Animal.
No mesmo município, o vereador Denis Gamba apresentou proposta que proíbe o acorrentamento permanente de cães e gatos, com definição de parâmetros mínimos de bem-estar e possibilidade de apreensão em situações de risco.
Em Diadema, um projeto em tramitação em 2026 voltado à proteção animal reforça ações de castração, vacinação e controle populacional como estratégia para reduzir o abandono. A proposta segue uma linha preventiva, embora não haja ampla divulgação da autoria nos registros disponíveis.
Já em São Caetano, a moção apresentada pelo vereador Luís Galarraga cobra maior rigor na punição de maus-tratos. Durante a discussão, o parlamentar defendeu o reforço da fiscalização e a ampliação de ações de conscientização diante de casos recorrentes no município.
Quem segura a ponta
Na prática, a linha de frente recai sobre protetores independentes. A fundadora da União de Proteção Animal do ABC, Gabriele Mingorance, relata que a demanda cresce em ritmo constante e supera a capacidade de resposta. “A demanda não para de crescer. Sempre aparece mais um caso, mais um animal que precisa de ajuda”, afirma. Além dos resgates, o trabalho envolve atendimento veterinário, alimentação e busca por adoção. O custo pesa e muitas vezes sai do próprio bolso. “Tem ração, vacina, tratamento. Tudo isso se acumula”, diz.
A diretora administrativa do Clube dos Vira-Lata, Silvia Dias, aponta que a atividade exige dedicação contínua e impacta diretamente o orçamento. O cuidado com os animais se soma às despesas pessoais, o que dificulta a manutenção do trabalho. “Existe um peso financeiro muito grande. Nem sempre há apoio suficiente para dar conta”, relata. Sem a atuação de voluntários, o número de animais abandonados seria ainda maior. O cenário revela uma dependência indireta do poder público em relação a iniciativas independentes.
Crime e penalidades
De acordo com a lei federal nº 9.605/98 (Lei de Crimes Ambientais), o abandono de animais é considerado crime ambiental. Quando envolve cães e gatos, a punição é agravada pela lei nº 14.064/2020. As penas podem incluir reclusão, detenção, multa e restrição de direitos. Para animais em geral, a detenção varia de 3 meses a 1 ano, além de multa. Em casos de maus-tratos contra cães e gatos, a pena é de 2 a 5 anos de reclusão, multa e proibição da guarda.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
