Wellington Damasceno, trabalhador da Volkswagen Anchieta, em São Bernardo, foi eleito presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC para o triênio 2026-2029. Ele obteve 97,4% dos votos na eleição interna realizada nos dias 14 e 15 de abril e sucederá Moisés Selerges, que deixará o cargo para se lançar pré-candidato a deputado estadual pelo PT (Partido dos Trabalhadores).
Esta será a 24ª diretoria eleita desde a fundação do sindicato, em 1959. A entidade representa cerca de 70 mil trabalhadores nas cidades de São Bernardo, Diadema, Rio Grande da Serra e Ribeirão Pires.

Em entrevista ao RDtv, Damasceno ressaltou o processo democrático de eleição, realizado em dois turnos. “Primeiro elegemos os dirigentes sindicais dentro das empresas. E só a partir da eleição destes dirigentes, é que eles se credenciam para disputar o segundo turno das eleições. Embora tenha sido um processo eleitoral de chapa única, envolveu muito diálogo para fazermos a melhor composição possível, respeitando as divergências de opiniões, as diferenças entre as fábricas e as realidades de cada comitê sindical, para que tivéssemos de fato uma unidade e para que possamos fortalecer este mandato que será iniciado”, destaca.
O dirigente sindical assegurou que se trata de um mandato de continuidade, consolidado com proximidade com a base e aberto ao diálogo com os trabalhadores, com foco em propostas que possam se tornar legislação. “Esta é uma das marcas do nosso sindicato. Queremos uma entidade próxima ao chão de fábrica, com atenção às realidades e dificuldades que os trabalhadores e trabalhadoras têm no dia a dia. Um sindicato conectado para entender e captar as novas demandas do universo trabalhista para os nossos companheiros, sem perder a referência para o sindicalismo regional e nacional”, disse Damasceno.
Sobre os desafios futuros, Damasceno destacou o trabalho contínuo para imprimir propósito sindical às ações e políticas públicas que impactam positivamente a vida dos trabalhadores, com foco na reindustrialização, no fortalecimento da cadeia industrial, na geração de emprego e renda e na qualidade de vida das pessoas.
O presidente eleito do sindicato também falou a respeito da revisão das leis trabalhistas com o fim da escala 6×1 (na qual o trabalhador atua por seis dias e tem direito a uma folga semanal) e a redução da jornada de trabalho. “Essas são pautas muito importantes para nós, a qual já discutimos ao longo de décadas. Eu mesmo trabalho em uma empresa que pratica 40 horas semanais desde o ano 2000 e já temos uma grande parte da categoria com jornadas menores, aqui no ABC, do que as 44 horas previstas na Constituição. É um debate que passou da hora de ser implantado como política pública para que tenha validade em território nacional, de todos os setores econômicos”, argumentou, e destacou que o momento é oportuno porque ganha adesão popular.
Damasceno relembrou que, da última vez que houve redução de jornada, em 1988, quando o limite passou de 48 para 44 horas semanais, ocorreu uma evolução mundial, sobretudo no campo tecnológico. “Vimos a implantação da informática, depois da robotização e, mais recentemente, a digitalização e a Inteligência Artificial (IA). Tudo isso tem permitido que as empresas melhorem sua produtividade e competitividade, ampliem os lucros, mas sem que os trabalhadores pudessem obter ganhos com esses processos. Hoje temos maturidade e acúmulo produtivo para fazer a redução de jornada sem redução de salário”, afirma.
Segundo o dirigente, o sindicato tem acompanhado este debate, dialogado com deputados, senadores, com o presidente da república e outros sindicatos para que esta pauta seja implementada antes do período eleitoral e com a celeridade que o tema merece.
Viagem com Lula
Damasceno esteve recentemente com o presidente Lula (PT), na comitiva brasileira na abertura da Feira de Hannover e na visita à planta da Volkswagen, em Wolfsburg, na Alemanha. Deste convívio, destacou que Lula está muito consciente do desenvolvimento industrial dentro dos potenciais brasileiros. “Falou-se lá em biodiesel, biocombustíveis, mas também falou-se de tecnologias e desenvolvimento no Brasil. Foi abordado como podemos ampliar a nossa capacidade industrial, avançar na reindustrialização, a partir dos potenciais como meio ambiente, agroindústria e soberania energética”, conta.
Para o sindicalista, outro ponto importante é a preocupação do governo com o endividamento das famílias brasileiras. “Há um debate a respeito do quanto o acesso às BETS (plataformas de apostas legalizadas) impactam no orçamento familiar, bem como a tomada de créditos pessoais e a percepção de piora na remuneração e no consumo, porque parte do orçamento das famílias está comprometido com dívidas, e sobre medidas que serão anunciadas para aliviar este endividamento”, pondera Damasceno.
Outra demanda importante tratada diretamente com o presidente Lula foi ampliação da isenção do Imposto de Renda no PLR (participação no lucro dos resultados das empresas). “Hoje o PLR tem se tornado uma fonte de composição de renda importante para os trabalhadores, mas que por não ter correção nas gestões anteriores, hoje você consegue avanços na PLR, mas o Imposto de Renda leva parte destes ganhos”, diz.
Modernização
Damasceno abordou também a necessidade de modernização do sindicato, com ampliação da comunicação com os trabalhadores, para avançar nas questões que melhoram a vida das pessoas. “Temos também o desafio de aproximar o sindicato das empresas e não limitar a nossa atuação da porta pra fora, para que os trabalhadores possam se organizar em seus locais de trabalho e falar das suas dificuldades e necessidades de maneira mais assertiva”, explica.
A negociação coletiva permanente, a inserção do sindicato no local de trabalho e a capacidade de diálogo, de escuta e de devolver para os trabalhadores o resultados de suas demandas são pontos considerados cruciais para melhorar a representação sindical. “O presidente Lula nos chama à reflexão sobre o nosso modelo de atuação. Nós deveríamos ter uma atuação mais nacionalizada, acordos coletivos mais amplos, que envolvessem mais empresas e mais categorias, para que tenhamos melhores resultados nas negociações”, destaca Damasceno.
Wellington Damasceno terá posse no dia 19 de julho, com a cerimônia agendada para o dia 26 de julho. “Apesar de estarmos em período de transição, já temos agendas importantes como o dia 1º de maio, que terá uma importante celebração na esplanada do Paço, em São Bernardo. É o dia do trabalhador, uma data importante, para celebrarmos as nossas conquistas e também as nossas lutas, organizarmos as nossas pautas e trazer a representatividade que classe trabalhadora merece e precisa”, completa.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
