
Depois de um 2024 considerado um dos melhores anos recentes para a indústria regional, o ABC encerrou 2025 praticamente no zero a zero, com sinal de estagnação no setor que moldou sua identidade econômica. De acordo com dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), a indústria fechou o ano com saldo negativo de 124 vagas formais, resultado que contrasta em 6.242 novas vagas abertas em 2024.
O número absoluto pode parecer baixo diante do estoque de 186.129 trabalhadores industriais na região, mas a comparação anual revela uma mudança de ritmo. Em entrevista ao RDtv, o economista Sandro Maskio, responsável pela análise e docente da Strong Business School, avalia o cenário econômico na região e, sem surpresas no ano passado, destaca que o desempenho precisa ser interpretado dentro de um ciclo.
“Quando você sai de um ano muito favorável e compara com um ano mais estagnado, a sensação é de queda brusca. Mas, na média, 2025 foi um ano morno para a indústria. Não foi nada fora da curva, mas foi abaixo do esperado”, afirma. Ainda de acordo com o economista, o resultado não representa um colapso do setor, mas desaceleração após período de recuperação mais forte.
“Normalmente saímos de períodos mais aquecidos e entramos em fases de acomodação. O problema é que, quando a base de comparação é muito alta, qualquer estabilidade passa a parecer retração”, avalia.
Indústria soma mais de 54 mil desligamentos no ano
Ao longo de 2025, a indústria regional registrou 54.680 admissões e 54.804 desligamentos, mantendo praticamente estável o contingente de trabalhadores formais. No conjunto da economia do ABC, porém, o saldo foi positivo: foram 488.003 admissões e 471.458 desligamentos, o que resultou na criação de 16.545 vagas e em um estoque total de 836.280 empregos formais.
O setor de serviços foi o principal responsável pela geração de postos de trabalho, com 13.170 novas vagas: 304.228 admissões contra 291.058 desligamentos e estoque de 435.445 trabalhadores. O comércio também teve desempenho positivo, com saldo de 3.324 vagas e 166.705 empregos ativos. A construção civil apresentou leve alta, com 174 postos criados e estoque de 47.850 trabalhadores, enquanto a agropecuária, menor segmento da região, fechou o ano praticamente estável, com saldo de uma vaga.
Desempenho varia conforme perfil produtivo
A desaceleração industrial refletiu o desenho produtivo de cada município, com resultados distintos dentro da própria região.
Em Santo André, foram 7.588 admissões e 7.263 desligamentos, com saldo positivo de 325 vagas e estoque de 23.786 trabalhadores industriais. Diadema também encerrou o ano no azul, com 133 vagas (15.007 admissões e 14.874 desligamentos) e estoque de 43.246 empregos. Mauá contabilizou saldo positivo de 217 vagas, com 22.905 trabalhadores na indústria. Ribeirão Pires registrou 52 vagas a mais no ano e estoque de 8.347 empregos industriais.
Por outro lado, São Bernardo apresentou saldo negativo de 201 vagas: 16.748 admissões contra 16.949 desligamentos, com estoque de 72.705 trabalhadores. O resultado mais expressivo foi o de São Caetano, que fechou 2025 com 570 vagas a menos (3.781 admissões e 4.351 desligamentos) e estoque de 14.001 empregos industriais. Já Rio Grande da Serra encerrou o período com saldo negativo de 80 vagas e estoque de 1.139 trabalhadores no setor.
Peso industrial permanece relevante
Apesar do saldo negativo em parte das cidades, Maskio considera que a indústria segue como um dos principais pilares da economia regional. Atualmente, cerca de 24% dos empregos formais do ABC estão no setor industrial, que responde por aproximadamente 22% do PIB regional.
“O peso industrial do ABC ainda é muito forte. A indústria nunca deixou de ser importante para nós, muito menos para o Brasil”, destaca. O economista reconhece, porém, que houve perda de densidade industrial e tecnológica nas últimas três décadas, especialmente em municípios tradicionalmente associados ao polo industrial da região.
Automotivo influencia desempenho
O impacto também esteve ligado à estrutura setorial de cada cidade. São Caetano, por exemplo, teve desempenho diretamente afetado pela cadeia automotiva. A queda de 12% nas vendas da General Motors, segundo dados divulgados pela Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores), repercutiu sobre o emprego industrial local, especialmente nos segmentos de fabricação de veículos, reboques e carrocerias.
“Quando você tem uma dependência maior de um setor específico, como o automotivo, qualquer oscilação de vendas tem reflexo imediato no emprego”, explica Maskio.
Em São Bernardo, tradicional polo metalúrgico e automotivo, o efeito se repetiu. Já Santo André apresentou resultado distinto, sustentado pelo peso do polo petroquímico, da metalurgia do cobre e do setor da borracha. Mauá também registrou saldo positivo distribuído entre diferentes segmentos industriais.
Em Rio Grande da Serra, o saldo negativo de 80 vagas foi fortemente influenciado pela indústria alimentícia, responsável por 99 postos a menos no ano, além do setor de produtos de metal.
“Quando olhamos de forma setorial, percebemos que o impacto é muito localizado. Não é uma crise generalizada da indústria, mas movimentos específicos dentro de segmentos”, afirma.
Juros altos freiam investimentos
No cenário macroeconômico, dois fatores ajudam a explicar a estagnação: a taxa de juros ainda elevada e a incerteza cambial. “A taxa de juros alta dificulta o investimento produtivo e também afeta o consumo, principalmente de bens duráveis. Isso atinge diretamente o setor automobilístico”, analisa.
Mesmo com expectativa de início de redução da taxa básica, o efeito tende a ser gradual. “A política monetária não opera com impacto imediato. Mesmo que o Banco Central comece a reduzir juros, o reflexo na economia real é lento. A retração e a recuperação nunca são abruptas”, diz Maskio.
Além disso, a volatilidade cambial adiciona um componente de imprevisibilidade. “A taxa de câmbio é invenção do demônio para acabar com os economistas”, brinca Maskio. “Tentar prever o comportamento do câmbio é sempre um exercício de alto risco”, afirma o economista.
Transição econômica ou acomodação?
Diante da expansão do setor de serviços e da estagnação industrial, surge a discussão sobre uma possível transição econômica no ABC. Maskio, porém, descarta a ideia de que a região deixa de ser industrial. “Tem países desenvolvidos tentando trazer a indústria de volta para perto. A indústria continua sendo estratégica. O que ocorre é uma mudança de composição, não necessariamente uma perda de relevância”, diz.
Para 2026, o economista projeta um ano de incertezas econômicas, em razão do período eleitoral, mas sem indicar ruptura estrutural. “O que vemos é uma indústria menos dinâmica em 2025 do que em 2024, mas ainda com peso significativo. Agora, o desafio é recuperar capacidade de investimento e ampliar a densidade tecnológica para ganhar competitividade”, completa.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
