Por Rafael Cervone
Acabamos de vivenciar o Carnaval, primeira folga prolongada de 2026, que terá 10 feriados nacionais, nove deles em dias úteis e sete caindo em segundas ou sextas-feiras. É um roteiro a contento para o descanso. Para a economia, porém, o custo é conhecido e mensurado. A Confederação Nacional do Comércio (CNC) estima que cada feriado reduz, em média, 1,29% da rentabilidade anual do varejo.
Segundo a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), a questão ganha escala mais grave no setor. Em determinados anos, a soma de feriados e pontos facultativos gerou prejuízos superiores a R$ 50 bilhões apenas na indústria de transformação. Máquinas paradas, quebra de ritmo das linhas produtivas contínuas, custos de religamento, perdas de eficiência energética e reprogramações logísticas entram nessa conta.
Por isso, o calendário deste ano assusta quem se preocupa com o caixa das empresas, a produtividade e a necessidade de o Brasil ascender ao patamar das nações de renda alta. Além de datas clássicas, como o Dia do Trabalho, numa sexta-feira, e a Independência, numa segunda, há feriados que suscitam emendas, como o de Tiradentes, numa terça. Até nove feriados nacionais podem acabar emendados em 2026. Somam-se a isso os pontos facultativos, como Carnaval e Corpus Christi. Estados e municípios ainda acrescentam suas próprias datas, como aniversários de cidades e celebrações religiosas.
É verdade que o Brasil não figura entre os campeões mundiais de feriados. Ainda assim, estamos acima da média da OCDE, cujos membros são países que, em sua maioria, já alcançaram níveis mais altos de renda, produtividade e organização do trabalho. Lá fora, o debate sobre descanso costuma ser acompanhado de ganhos claros de eficiência. Aqui, ocorre o inverso: mais interrupções convivendo com produtividade estagnada e baixa, o equivalente a um quarto do índice dos Estados Unidos, por exemplo.
Nada disso significa negar a importância do descanso. O problema está no desequilíbrio. Em um país que luta para crescer de modo sustentado, gerar empregos e incrementar a competitividade, tratar o calendário como se fosse neutro na agenda do desenvolvimento é um luxo que não cabe mais. Não temos produtividade que nos permita exageros em feriados e emendas de dias sem trabalho. Afinal, até o tempo parado tem custo alto em nosso país.

*Rafael Cervone é presidente do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) e primeiro vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
