
Com a proximidade do início do ano letivo, a compra do material escolar volta a pressionar o orçamento das famílias. Diante da alta nos preços, especialistas apontam que o planejamento financeiro e a pesquisa são ainda os principais aliados do consumidor. Além disso, a reutilização de itens e o questionamento das listas exigidas pelas escolas aparecem como estratégias cada vez mais adotadas por pais e responsáveis.
Ao RD, o economista Everton Oliveira explica que o primeiro passo para evitar desequilíbrio financeiro é se antecipar. O ideal é planejar os gastos com base no que foi consumido no ano anterior, acrescido do índice de inflação do período. “Todos os anos há reajustes nos produtos e serviços, e com o material escolar não é diferente. Quem consegue reservar parte do 13º salário para essa despesa evita comprometer o orçamento ao longo do ano”, orienta.
A comparação de preços continua essencial, mas não deve se limitar às marcas mais conhecidas. Oliveira conta que optar por produtos substitutos, com a mesma função e qualidade semelhante, pode ajudar. “Uma caneta de marca famosa pode ser substituída por outra mais barata que cumpra a mesma finalidade. O consumidor precisa avaliar custo e benefício”, afirma.
Do ponto de vista econômico, Oliveira avalia que comprar tudo de uma vez pode sair mais vantajoso, principalmente para reduzir gastos indiretos, como transporte, alimentação e tempo. A compra pela internet também aparece como alternativa, já que muitas lojas oferecem preços melhores e frete gratuito. Sobre descontos à vista, a dica é negociar. “Um desconto de 5% ou 10% representa um retorno que nenhum investimento mensal oferece”, destaca.
Mesmo assim, Oliveira alerta para os riscos do parcelamento. Segundo o economista, comprometer o limite do cartão pode gerar dificuldades ao longo do ano, especialmente diante de imprevistos. “Se for possível, o ideal é comprar à vista. O material escolar não pode se transformar em uma dívida prolongada”, avalia.
Para famílias de baixa renda, o especialista reforça a importância da reutilização, doações entre pais e a criação de redes de apoio para reduzir custos, além do impacto positivo para o meio ambiente.
Pesquisa reduz gastos
Maria Alves, mãe de uma estudante de 12 anos, da rede estadual em São Bernardo, estima um gasto de cerca de R$ 400 com material escolar neste ano. O valor pesa no orçamento da família e exige cortes em outras despesas. “Temos de cortar alguma outra coisa para conseguir comprar tudo”, relata.
A mãe afirma que percebeu aumento nos preços em relação ao ano passado e que a reutilização nem sempre é possível. “Algumas coisas não sobram. Mochila e estojo rasgam com o passar do tempo”, conta. Entre os itens mais caros, Maria destaca justamente a mochila, que pode custar até R$ 200 nas lojas da região. A solução encontrada foi comprar pela internet. “Consegui pagar R$ 60 e economizar bastante”, diz.
Antes de finalizar as compras, Maria pesquisa preços em pelo menos quatro lojas físicas e recorre ao comércio online quando encontra valores mais baixos. A compra costuma ser parcelada, estratégia que, segundo a mãe, compensa pelo tempo de uso do material ao longo do ano letivo. “Tudo é necessário. A escola não fornece o material no início do ano e o aluno não pode começar sem ele”, justifica.
Pais contestam exigências da lista escolar
Já Ana Paula Santos, mãe de dois filhos da rede privada em Mauá, de 16 e 9 anos, reduziu significativamente os gastos neste ano. O desembolso foi de R$ 375 para os dois filhos, bem abaixo dos R$ 589 gastos no ano passado, quando ainda faltaram itens da lista.
Para Ana Paula, o principal problema sempre foi o excesso de materiais exigidos pelas escolas, especialmente a quantidade de papel sulfite. “Cada aluno precisa levar 500 folhas. Em uma sala com 30 crianças, são cerca de 15 mil folhas. Sempre achei isso um absurdo, ainda mais porque a escola usa livros para a maioria das atividades”, critica.
Diante disso, Ana Paula passou a questionar a lista por conta própria e deixou de comprar itens que considera de uso administrativo, não do aluno. “A escola nunca reclamou e nunca me cobrou. Os pais podem e devem questionar”, reforça. A mobilização dos responsáveis no ano passado levou, segundo a mãe, a uma redução significativa da lista neste ano, o que ajudou na economia.
Direitos do consumidor
O Procon de Santo André alerta que a lista de material escolar deve conter apenas itens de uso individual do aluno. A exigência de materiais de uso coletivo é considerada prática abusiva. Entre os exemplos estão produtos de limpeza, papéis para uso administrativo, copos descartáveis e itens destinados à manutenção da escola.
“O consumidor tem liberdade para adquirir o material onde desejar, não podendo a escola impor marca, loja específica ou fornecedor exclusivo, salvo quando houver justificativa técnica devidamente fundamentada”, afirma a diretora do Procon Santo André, Aline Romanholli.
O órgão orienta que pais e responsáveis questionem listas excessivas e procurem o Procon em caso de irregularidades. A recomendação é sempre guardar a lista, notas fiscais e qualquer comunicação da escola, que podem servir como prova em eventuais reclamações.
“Além disso, a escola não pode condicionar a compra do material escolar à aquisição em fornecedores indicados pela própria instituição, nem impor marcas ou lojas específicas sem justificativa técnica. O consumidor tem liberdade para escolher onde comprar, o que garante concorrência e evita práticas abusivas”, orienta Aline.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
