ABC - domingo , 5 de julho de 2026

Sindserv avalia 2025 e aponta crise no serviço público de Santo André

O ano de 2025 foi marcado por sobrecarga, adoecimento e dificuldades de negociação para os servidores públicos de Santo André. Esse é o balanço apresentado pelo Sindserv (Sindicato dos Servidores Municipais) de Santo André, que aponta a falta de pessoal, a precarização das condições de trabalho e a ausência de avanços em pautas históricas como fatores centrais que impactaram os trabalhadores e a qualidade dos serviços prestados à população que geram crises que serão enfrentadas em 2026.

A avaliação foi apresentada por Daisy Dias, professora e diretora financeira do Sindserv, e por Durval Ludovico, representante legal da entidade, durante entrevista ao RDtv. Segundo a direção sindical, o cenário reflete o primeiro ano da gestão do prefeito Gilvan Ferreira e evidencia a necessidade de mudanças estruturais na política de pessoal do município.

(Foto: Reprodução/RDtv)

De acordo com o Sindserv, 2025 trouxe desafios adicionais por se tratar do primeiro ano de uma nova gestão municipal. Durante a campanha salarial, o sindicato identificou uma articulação entre municípios da região para aplicar um reajuste fixo, proposta que reduziria os ganhos dos servidores. Após negociação, foi possível garantir a recomposição da inflação, mas o resultado final ficou abaixo das expectativas da categoria.

Para a entidade, o discurso recorrente de restrição orçamentária não dialoga com a realidade dos locais de trabalho. A ausência de concursos públicos, a demora na convocação de aprovados e a ampliação da terceirização em diferentes áreas contribuíram para o aumento da pressão sobre os servidores efetivos. “O trabalhador sente o impacto direto dessas escolhas no dia a dia”, afirma Ludovico.

Déficit de pessoal

Segundo os representantes, a falta de servidores atinge praticamente todos os setores da Prefeitura, como saúde, educação, assistência social, áreas administrativas, trânsito, serviços operacionais e segurança pública. Em muitos casos, equipes reduzidas assumem demandas que deveriam ser distribuídas entre mais profissionais, o que compromete o atendimento à população e amplia o desgaste físico e emocional.

Na educação municipal, Daisy diz que o problema assume proporções ainda mais graves, em que escolas funcionam com número insuficiente de funcionários, e agentes de inclusão escolar chegam a atender entre 35 e 40 crianças em uma única unidade. “Não existe condição de garantir atendimento adequado às crianças com deficiência nesse cenário”, avalia.

Na GCM (Guarda Civil Municipal), além da defasagem de efetivo, a estrutura também preocupa. Segundo o sindicato, apenas duas viaturas realizam o patrulhamento noturno em toda a cidade. O Estatuto da GCM, em vigor desde 2019, segue sem revisão, apesar de propostas elaboradas por grupo de trabalho que ainda aguardam encaminhamento pela administração municipal.

Adoecimento dos servidores

Como consequência desse cenário, o adoecimento dos servidores tornou-se um dos principais retratos de 2025. Pesquisa realizada pelo Sindserv, com mais de 500 respostas, a qual integra a campanha “Cuidando de Quem Cuida”, aponta que 88% dos servidores relataram afastamento por cansaço mental, enquanto 84% indicaram exaustão física. Outros 71% associaram o adoecimento às condições de trabalho.

O sindicato contesta a narrativa de absenteísmo e defende a análise humanizada dos dados. “Quando dois servidores assumem tarefas previstas para cinco, o adoecimento se torna inevitável. No nosso levantamento também se destaca o aumento de quadros de ansiedade, estresse, síndrome do pânico e outros transtornos ligados à saúde mental”, afirma a diretora financeira do Sindserv.

Reclassificações, inclusão e pautas sem avanço

Entre os temas que permaneceram sem solução em 2025 está a reclassificação salarial de cerca de 9 mil servidores, processo iniciado na gestão anterior e ainda sem retomada de negociações. Segundo o sindicato, a falta de diálogo levou a entidade a promover atos públicos e mobilizações para cobrar avanços.

Outro ponto crítico é a ausência de regulamentação, em Santo André, da redução de jornada sem corte salarial para pais e responsáveis por crianças com deficiência, direito já previsto em lei federal. Uma minuta elaborada por grupo de trabalho com participação do Executivo, Legislativo e autarquias chegou ao gabinete do prefeito no fim de 2024, mas permanece sem andamento.

Para Daisy, o atraso afeta principalmente as mulheres, que concentram a maior parte das responsabilidades de cuidado. “Essa é uma pauta de inclusão, saúde mental e valorização do servidor, mas ainda não recebeu a atenção necessária”, afirma. Ludovico reforça que Santo André deixou de ocupar posição de referência regional no tema.

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