O Sindicato dos Bancários do ABC divulgou no Jornal do Cliente Bradesco uma denúncia contra a prática dos bancos de impedir clientes de efetuarem movimentações financeiras no caixa, com atendimento dos bancários. Segundo o diretor do Sindicato, Gheorge Vitti, um funcionário é escalado para receber os clientes e perguntar qual o valor que será movimentado. Se for abaixo do que o banco estipular, o cliente é encaminhado para o caixa eletrônico ou um correspondente bancário. A Resolução 3964, de 26 de março de 2009, do Banco Central estabelece que tal prática é ilegal.
O termo apartheid social é utilizado pelo Jornal dos Clientes Bradesco e pelo diretor do Sindicato para definir essa determinação dos bancos. “Os menos favorecidos são vítimas desse sistema que os direciona para onde os bancos querem. Ao responder em voz alta o valor da sua movimentação, eles ficam expostos aos perigos de assaltos”, diz Gheorge Vitti, que não apenas ocupa cargo na diretoria do Sindicato como é também funcionário do Bradesco. “O melhor benefício do atendimento no caixa é a segurança que o autoatendimento e os correspondentes bancários não podem prover. No caixa eletrônico, as pessoas ficam mais sujeitas a fraudes, clonagens, quebra de sigilo bancário e violência”.
Gheorge Vitti informa que a Pesquisa Nacional de Mortes em Assaltos Envolvendo Bancos, realizada pela Contraf-CUT e a Confederação Nacional dos Vigilantes (CNTV), revela que os homicídios envolvendo “saidinhas de bancos”, momentos em que o cidadão vai ao banco e volta com quantias em dinheiro, representa 62,5% de todos os crimes em agências bancárias. “Nem todas as agências seguem a Lei do Biombo, sancionada em 2011, que prevê a proteção dos consumidores que estão nas filas ou nos caixas com o uso biombos”, explica o diretor.
O alto investimento em tecnologia por parte dos bancos também dificulta o acesso das pessoas de menor nível socioeconômico, de acordo com Vitti. “Os caixas eletrônicos estão mais pulverizados, não vão direto ao ponto. Tecnologias como biometria são complicadas para alguns clientes. O funcionário que fica ali, à disposição para ajuda-los, precisa atender uma demanda muito alta, sem ter sequer um banquinho para descansar, segundo as normas de segurança no trabalho.”
Os funcionários que ficam nas portas fazendo a triagem de quem será ou não atendido no caixa ainda sofrem pressão psicológica. “Quando o cliente se sente incomodado, ele não vai reclamar com o banqueiro, vai brigar com o funcionário. Temos colegas que precisaram ser afastados por não suportarem as constantes ofensas”, diz Vitti.
O diretor esclarece que esse é um problema geral, que não se limita ao Bradesco. De acordo com o sindicalista, o objetivo dos bancos é afastar pessoas que não geram grandes volumes de negócios, além de reduzir gastos com operações. “Movimentações feitas pelo caixa eletrônico custam menos que as feitas pelo caixa convencional. Os números de guichês têm se reduzido, e isso diminui também os postos de trabalho”.
A assessoria do Banco Bradesco nega a ocorrência da prática.
Procon
Marco Aurélio Ferreira dos Anjos, diretor do Procon de Santo André, alertou que, de fato, os consumidores têm o direito de escolher a forma que serão atendidos, o que está estabelecido na citada Resolução 3964. “Verificando que há o problema, o cliente deve recorrer à gerência e tentar resolver imediatamente. Se não der certo, pode-se procurar as ouvidorias dos bancos e registrar reclamação. O Procon poderá ser também acionado, assim como o próprio Banco Central, caso a questão não se resolva, e em último caso, entrar com ação judicial”. Os clientes podem utilizar o site http://www.bcb.gov.br/?RECLAMACAO para registrar suas reclamações no Banco Central e verificar o ranking dos bancos que mais geram transtornos.
Marco Aurélio esclarece, contudo, que apesar de haver conhecimento de recorrência de tal ilegalidade, os impasses são resolvidos antes dos clientes acionarem o Procon. Portanto, o órgão não tem registros de reclamações desse tipo. Os bancos que realizarem tal segregação entre os clientes poderão ser multados ou condenados a pagar indenização aos consumidores prejudicados.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
