A Universidade Federal do ABC (UFABC) alcançou em setembro a marca histórica de duas décadas desde o ingresso de sua primeira turma no Campus Santo André. Nascida de uma intensa mobilização popular, sindical e política das sete cidades por ensino superior público, gratuito e de excelência, a instituição superou a fase inicial de implantação e hoje conta com dois campi consolidados. Em entrevista ao programa RDCast, a reitora da universidade, Paula Homem de Mello, apresentou um balanço detalhado dessa trajetória, analisou os desafios orçamentários e de infraestrutura e respondeu às críticas recorrentes sobre o grau de integração e contrapartida da universidade para com a região.
Cobrança por contrapartidas
A doação da extensa área pública pela Prefeitura de Santo André foi cercada de debates acalorados à época da fundação da universidade. Setores da oposição e segmentos locais frequentemente questionam se a contrapartida da instituição compensou o investimento do município, apontando um suposto distanciamento entre a produção acadêmica e os problemas cotidianos das sete cidades.
Questionada sobre essas cobranças, a reitora afirmou categoricamente que a UFABC “se pagou” ao longo desses 20 anos, embora tenha reconhecido a dificuldade intrínseca de mensurar em números imediatos o impacto de um projeto educacional de longo prazo. “A gente recebe esse tipo de crítica, sim. Há essa dificuldade de trazer para a sociedade uma forma quantitativa de mostrar que isso se pagou. A educação é um investimento de longo prazo, quase intangível no curto prazo. Mas ela se paga: formamos milhares de profissionais para a região, geramos inovação para a indústria local e transformamos a realidade de famílias inteiras”, rebateu a reitora.
Paula destacou que levantamentos socioeconômicos mostram que grande parte dos egressos da universidade — muitos deles os primeiros de suas famílias a conquistar um diploma de nível superior — ascendeu socialmente, retirando seus núcleos familiares de programas assistenciais e gerando um ciclo virtuoso que eleva a renda média, o consumo e a arrecadação tributária no próprio ABC.

Formação profissional inovadora
Para a reitora, a maturidade institucional alcançada aos 20 anos desloca o foco da consolidação estrutural para a capacidade de antecipar as profundas transformações do mundo do trabalho. A UFABC moldou sua identidade pedagógica na interdisciplinaridade e no pioneirismo de graduações inéditas no país, como Engenharia Aeroespacial, Engenharia de Energia e, mais recentemente, Ciência de Dados.
Segundo Paula, a missão contínua da universidade é preparar profissionais com flexibilidade intelectual para solucionar problemas complexos que extrapolam as fronteiras de uma única disciplina. Isso exige revisões curriculares permanentes, investimento em novas fronteiras tecnológicas — com destaque para a Inteligência Artificial e a transição energética — e uma sintonia constante com as mudanças no perfil produtivo do ABC.
Combate ao apagão docente
Outra resposta direta às demandas regionais tem sido a atuação da UFABC no enfrentamento ao risco de apagão de professores na Educação Básica. Para suprir a carência de profissionais qualificados nas salas de aula das redes municipal e estadual, a universidade estruturou licenciaturas interdisciplinares em Ciências Naturais e Exatas, que abrem caminho para habilitações em Pedagogia, Química, Física, Filosofia e, em breve, Educação Física.
O modelo pedagógico permite que os futuros docentes realizem estágios supervisionados nas escolas da região desde o início da graduação, construindo uma ponte sólida entre o ambiente acadêmico e os desafios da sala de aula real. Além da formação inicial, a instituição atende centenas de professores que já lecionam no ABC por meio de cursos de pós-graduação e especializações lato sensu voltadas a metodologias ativas e tecnologias de ensino.
Cota regional e a barreira da evasão
Pioneira nacional ao destinar 50% de suas vagas para estudantes vindos de escolas públicas antes mesmo da aprovação da Lei de Cotas federal, a UFABC tem um corpo discente formado majoritariamente pela população metropolitana: cerca de 70% dos estudantes residem na Grande São Paulo, sendo ao menos 30% moradores dos municípios do ABC. Para estimular e garantir a presença da comunidade local, a instituição mantém no Sisu uma reserva específica de vagas voltada a moradores das sete cidades.
Por outro lado, assegurar que esses estudantes concluam a graduação segue como um dos maiores gargalos da gestão. A reitora pontuou que a evasão e a retenção prolongada estão diretamente associadas à vulnerabilidade socioeconômica. Muitos jovens precisam trabalhar durante o dia para garantir o sustento familiar e enfrentam rotinas extenuantes para assistir às aulas no período noturno, que se encerram às 23h. Paula observou que o ensino superior noturno massivo é uma particularidade da realidade brasileira, decorrente da falta de condições financeiras para que os jovens possam se dedicar com exclusividade aos estudos.
Assistência estudantil
Para conter o abandono e acolher os estudantes em situação de vulnerabilidade, a universidade mobiliza recursos do Programa Nacional de Assistência Estudantil (Pnaes), garantindo bolsas de moradia, permanência e alimentação com refeições subsidiadas nos Restaurantes Universitários (RU). No suporte à diversidade e acessibilidade, a Pró-Reitoria de Assuntos Comunitários (Proap) atua com equipes de assistentes sociais, psicólogos e pedagogos, além de gerenciar um programa de monitoria inclusiva, no qual estudantes bolsistas auxiliam colegas com deficiência e neuroatípicos em suas rotinas acadêmicas.
Uma das novidades estruturais anunciadas para o próximo ano é a inauguração da Cuidoteca. Contemplado em edital do governo federal, o espaço funcionará durante a noite com monitores e atividades pedagógicas para acolher crianças de até 12 anos, filhas de alunos, docentes e servidores, impedindo que a paternidade ou a maternidade se tornem obstáculos à continuidade dos estudos.
Infraestrutura urbana
No âmbito da infraestrutura e da integração física com o tecido urbano, a UFABC mantém diálogo com as prefeituras e com o Consórcio Intermunicipal Grande ABC para destravar intervenções prioritárias. Com a recente entrega do Bloco Tamanduatehy, em Santo André, a universidade avança nos trâmites para erguer uma passarela de pedestres sobre a Avenida dos Estados e a linha férrea da CPTM, proporcionando uma ligação rápida, direta e segura entre o campus e a estação de trem, servindo também a toda a vizinhança.
Já para o Campus São Bernardo, situado no bairro Anchieta, a reitoria reivindica a implantação de linhas circulares municipais que conectem o campus diretamente aos terminais de transporte do ABC e à estação Sacomã do Metrô, na capital. A medida traria agilidade aos deslocamentos da comunidade acadêmica e permitiria à instituição enxugar gastos significativos atualmente direcionados à contratação de ônibus fretados intercampi.
Segurança no entorno
A segurança pública no perímetro universitário permanece como uma das preocupações centrais relatadas por estudantes e funcionários, intensificada pelo término tardio das aulas às 23h e pela iluminação deficitária em algumas vias de acesso. Em Santo André, os trajetos a pé pelas ruas dos fundos e a travessia rumo às paradas de transporte público concentram queixas; em São Bernardo, as paradas de ônibus distantes geram apreensão semelhante.
Buscando soluções integradas, a reitoria tem sediado reuniões do Conselho Comunitário de Segurança (Conseg) Norte nas dependências do Campus Santo André e mantém contato frequente com as secretarias municipais de segurança, com as Guardas Civis Municipais e com as Polícias Civil e Militar, cobrando patrulhamento preventivo e reforço de rondas ostensivas nos horários de pico de entrada e saída.
Pesquisa e parceria com o setor industrial
A universidade se posiciona com frequência entre as dez instituições mais inovadoras do Brasil nos principais rankings acadêmicos, mantendo forte conexão com a vocação industrial histórica do ABC. A UFABC sedia uma unidade Embrapii dedicada ao codesenvolvimento de Novos Materiais em parceria direta com o setor fabril.
Outro marco tecnológico é o Centro Cirue, viabilizado pela Fapesp em parceria com o Parque Tecnológico de Santo André, voltado ao emprego de Inteligência Artificial em mobilidade urbana e redes elétricas inteligentes. A instituição também fortaleceu os programas de Mestrado e Doutorado Acadêmico para Inovação, nos quais pesquisadores de pós-graduação atuam imersos diretamente no ecossistema das empresas ou na formulação de soluções para a gestão pública.
Extensão comunitária
O retorno social da produção científica da UFABC também se reflete em projetos voltados à cidadania e sustentabilidade. Um exemplo de grande repercussão foi a pesquisa desenvolvida pelo laboratório Ce-Favela, que mapeou as ilhas de calor urbanas e identificou variações de até 15 °C entre favelas densamente povoadas e bairros nobres arborizados da Grande São Paulo — diagnóstico fundamental para a formulação de planos de adaptação às mudanças climáticas.
A atuação extensionista engloba ainda iniciativas como a Universidade das Crianças, que estimula o interesse científico na infância; o cursinho comunitário Colmeia; programas de capacitação tecnológica para jovens trabalhadores em parceria com o Ministério do Trabalho; e projetos educacionais para a terceira idade. Na frente de combate à desinformação, a universidade mantém veículos de divulgação como o blog Guia dos Entusiastas da Ciência.
Articulação política em busca de orçamento
Garantir o funcionamento contínuo e a excelência dessa estrutura demanda permanente empenho político e financeiro. Diante de sucessivos anos de orçamentos federais contingenciados e pressões fiscais, a reitoria tem intensificado conversas com deputados federais e estaduais da bancada paulista para assegurar emendas parlamentares voltadas à compra de equipamentos e manutenção predial, além de articular demandas conjuntas com as reitorias da Unifesp e da UFSCar junto ao Ministério da Educação (MEC).
Questionada sobre antigas reivindicações de lideranças regionais para a criação de novos campi da UFABC em cidades como Mauá ou Diadema, a reitora explicou que qualquer expansão depende de planejamento estrutural rigoroso e de dotação orçamentária prévia, de modo a preservar a qualidade acadêmica já consolidada. Aos 20 anos, a UFABC reafirma seu papel estratégico: a área concedida pelo município transformou-se em um dos principais polos de produção de conhecimento, ascensão social e inovação tecnológica do país.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
