
No ABC, somente o Consórcio ABC e a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), subseção de Santo André, promovem ações voltadas à reeducação de homens autores de violência e à desconstrução de comportamentos abusivos. A necessidade de prevenir a violência contra a mulher voltou a ser evidenciada na noite desta quinta-feira (8/10), quando um homem de 28 anos tentou matar a ex-companheira na rua São Sebastião – Vila Linda, em Santo André.
De acordo com a Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP-SP), o boletim de ocorrência aponta que o homem chegou de moto no local e efetuou diversos disparos de arma de fogo em direção à vítima, que não ficou ferida. Após os tiros, o indivíduo fugiu.
O caso foi registrado como tentativa de feminicídio no 6º Distrito Policial de Santo André, que realiza diligências para localizar o suspeito.
Dados da SSP-SP apontam que a região do Departamento de Polícia Judiciária da Macro São Paulo (Demacro) registra 25 feminicídios entre janeiro e agosto de 2026. O departamento da Polícia Civil abrange 38 municípios da Região Metropolitana de São Paulo, entre eles, os sete municípios do ABC. No entanto, a secretaria não disponibiliza um recorte específico dos dados para a região.
Impacto do trauma na vida da mulher
Desconstruir a ideia de que o homem tem direitos sobre o corpo da companheira é um dos desafios no combate à violência contra a mulher. O consentimento é necessário em todas as relações sexuais, independentemente do tempo de namoro ou casamento.
Em entrevista ao RD, uma moradora de São Bernardo que preferiu não se identificar relata a violência sexual sofrida durante um relacionamento de cinco anos. Além do trauma, a jovem de 22 anos descreveu os impactos emocionais de ter a confiança abalada por alguém com quem mantinha uma relação de quatro anos. “Saí para uma festa com meu namorado e lá nós bebemos. Ele foi dormir na minha casa depois disso. Quando eu acordei, ele já estava tendo relações comigo”, conta.
O episódio abalou a confiança que a jovem tinha no companheiro e provocou impactos emocionais. “No outro dia, terminei com ele. Me senti muito mal. Liguei para uma amiga e perguntei se o que tinha acontecido era o que eu estava pensando. A mente fica a milhão”, relata.
Ao falar sobre as consequências da violência, a moradora de São Bernardo afirma que a experiência afetou sua disposição para se relacionar novamente. “Meu trauma foi grande. No momento, não tenho mais vontade de me relacionar com ninguém. Sempre relembro o episódio”, declara.
Prevenção
As ações de reeducação de homens autores de violência devem promover a reflexão sobre comportamentos abusivos, relações de poder e desigualdade de gênero. Além disso, estimular a responsabilização dos autores e desconstruir padrões culturais que contribuem para a violência contra a mulher.
O trabalho envolve a discussão de atitudes naturalizadas socialmente, como o ciúme excessivo, o controle sobre as escolhas da companheira, a imposição de vontades e a dificuldade de aceitar o fim de um relacionamento. A ideia é levar os autores a reconhecer comportamentos que podem configurar violência física, psicológica, moral, sexual ou patrimonial, além de compreender os impactos dessas atitudes na vida das vítimas.
A Prefeitura de Santo André estuda a implantação de um projeto de reeducação de homens autores de violência. Já a Prefeitura de Diadema afirmou não possuir uma iniciativa do tipo e não informou se há previsão de implementação. As administrações municipais de Mauá, Ribeirão Pires, Rio Grande da Serra, São Bernardo e São Caetano não responderam aos questionamentos sobre a existência de programas voltados a esse público.
A reeducação pode contribuir para a prevenção da reincidência, ao trabalhar a responsabilização dos autores e a compreensão das consequências de suas ações. Diante da necessidade de prevenir a violência de gênero, a ampliação dessas iniciativas é fundamental para alcançar mais homens e fortalecer as políticas de prevenção na região.
Desconstrução
A OAB Santo André realizou, em março, encontro voltado a homens para discutir comportamentos abusivos e formas de violência contra a mulher. Durante a iniciativa, a advogada e vice-presidente da OAB Santo André, Mirian Bazote, participou da elaboração de uma cartilha direcionada principalmente ao público masculino.
O material busca conscientizar os homens sobre atitudes que podem ser consideradas abusivas, especialmente aquelas relacionadas à violência psicológica e emocional. A cartilha também pretende estimula a autocrítica e o reconhecimento desses comportamentos.
Ao RD, Mirian destaca que um dos objetivos é justamente mostrar que determinadas atitudes podem ser violentas mesmo quando não são percebidas dessa forma por quem as pratica. “É importante para que homens entendam que determinadas atitudes que não consideram violência são violência”, explica.
A cartilha completa, com orientações sobre comportamentos abusivos e violência psicológica, está disponível em: https://mail-attachment.googleusercontent.com/.
Outra cartilha elaborada com participação de Mirian Bazote e da advogada Deuci Soares é “Segurança Privada: Por Elas, Para Elas — Proteger também é cuidar”, produzida dentro do projeto “Elas por Elas”, com participação da Polícia Federal.
A cartilha está disponível em https://arquivos.sesvesp.com.br/ e é direcionada a vigilantes e profissionais de segurança privada que trabalham em locais como condomínios, empresas, hospitais, escolas e shoppings. O objetivo é orientar esses profissionais a reconhecer situações de violência contra mulheres e saber como agir de maneira preventiva, ética e dentro dos limites de suas funções.
Prevenção entre jovens
O presidente da OAB Santo André, Leonardo Dominiqueli Pereira, conta que caminha na subseção uma proposta de criação de um projeto preventivo e educativo voltado a jovens e adolescentes em escolas e espaços comunitários. “Eu sugeri pra gente fazer um trabalho inverso. Eu acho que a gente precisa começar a trabalhar o homem na essência”, declara.
A proposta busca educar os jovens sobre respeito e igualdade, antes que comportamentos abusivos sejam reproduzidos nas relações afetivas. Ainda em fase de planejamento, o projeto prevê atividades e materiais educativos sobre respeito às diferenças, identificação de atitudes tóxicas e desconstrução de padrões de controle nos relacionamentos. Entre os temas previstos estão ciúme, posse, inteligência emocional e autocontrole.
A iniciativa também prevê parcerias entre a OAB Santo André, comissões voltadas aos direitos das mulheres e as redes municipal e estadual de ensino, com o objetivo de levar as ações às escolas de forma contínua.
E agora, José?
O projeto “E Agora, José?” é uma iniciativa da sociedade civil voltada ao trabalho socioeducativo com homens autores de violência doméstica. Em períodos anteriores, a iniciativa manteve articulação com órgãos públicos e com o Poder Judiciário.
Ao RD, a Prefeitura de Santo André esclareceu que já teve participação no projeto, mas que a iniciativa não integra atualmente os programas ou serviços próprios da Secretaria Municipal de Assistência Social. O Consórcio ABC, por sua vez, mantém diálogo com o projeto para fortalecer o trabalho socioeducativo com homens autores de violência, com foco na desconstrução de padrões machistas e na prevenção da reincidência.
A trajetória da iniciativa também se relaciona à atuação do Consórcio Intermunicipal Grande ABC, que implementou, em 2020, o Serviço Regional de Educação e Responsabilização para Homens Autores de Violência contra Mulheres (SerH ABC). O programa atendia homens encaminhados pelo Judiciário, no âmbito da Lei Maria da Penha, nos sete municípios da região.
As atividades do SerH ABC foram interrompidas durante a pandemia da covid-19 e, atualmente, o serviço está suspenso. O espaço anteriormente utilizado pelo programa na sede do Consórcio passou a ser cedido para atividades do “E Agora, José?”.
Denúncias
Mulheres vítimas de violência podem procurar atendimento especializado nas Delegacias de Defesa da Mulher (DDMs), que recebem denúncias e orientam sobre as medidas legais disponíveis. Veja os endereços da região:
Santo André
Endereço: rua Laura, 452, Centro
Telefone: (11) 4432-2379
São Bernardo
Endereço: rua Tasman, 540, Jardim do Mar
Telefone: (11) 4368-2032
São Caetano
Endereço: rua Silvia, 160, Santa Maria
Telefone: (11) 4220-3098
Diadema
Endereço: rua Santa Rita de Cássia, 42, Centro
Telefone: (11) 4044-9224
Mauá
Endereço: rua General Osório, 75, Vila Bocaina
Telefone: (11) 4514-1595
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
