Infiltrações, alagamentos, vazamentos e danos em escolas públicas municipais e estaduais do ABC afetam a rotina de estudantes e profissionais da educação após os recentes períodos de chuva. A água que invade salas, corredores e quadras não representa apenas um problema de infraestrutura, mas também interfere nas atividades escolares, com reflexos na frequência e motivação dos alunos.
Com exclusividade ao RD, uma aluna da Escola Estadual Jorge Rahme, em São Bernardo, que pediu para não ser identificada, compartilhou um vídeo que mostra estudantes secando a quadra coberta da unidade após a chuva de segunda-feira (21/9). “Quando chove, a quadra fica molhada e os alunos precisam ajudar a secar para que o espaço possa ser utilizado”, afirma.

A estudante afirma que os problemas interferem diretamente na frequência dos alunos. Em dias de chuva, uma sala que costuma ter cerca de 30 estudantes chega a registrar aproximadamente metade da turma. “É desmotivador vir para a escola nessas condições”, afirma.
O trajeto até a escola também se torna um obstáculo, principalmente para quem vai a pé. “Diversas vezes já cheguei muito molhada na escola e estragava meus materiais. Ultimamente tenho pedido carona nos dias de chuva para os pais de uma colega de classe que mora perto e vai de carro”, relata.
A situação também gera transtornos dentro da própria unidade. “Os corredores ficam molhados e, em alguns pontos, é preciso tomar cuidado para não escorregar. Todo esse cenário afeta diretamente a rotina dos alunos e dos professores”, lamenta.
Estrutura pode afastar alunos das salas de aula
Para a professora e coordenadora da Apeoesp (Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo) Santo André, Maíra Machado, os problemas estruturais enfrentados pelas escolas podem desestimular a permanência dos estudantes e contribuir para a evasão escolar. “Temos percebido uma ausência significativa de estudantes na escola. Alguns alunos questionam: ‘Como é que a gente estuda num lugar assim?’. E somos obrigados a concordar”, afirma.
A professora afirma ainda que alguns responsáveis optam por não levar os filhos às escolas em dias de chuva por entenderem que as unidades não apresentam condições adequadas para recebê-los, o que afeta a rotina da família. “Os pais tomam essa decisão porque sabem que a escola não tem condição de receber os alunos. É um impacto bem grande na vida escolar”, destaca.
Na avaliação da coordenadora da Apeoesp, os investimentos públicos também precisam contemplar a manutenção das estruturas escolares. “Os investimentos do governo do Estado para a educação estão voltados para esse processo de plataformização da educação pública, e essas questões estruturais são totalmente relegadas”, alerta.

Alagamentos e danos em escolas
Em Diadema, a Creche Comunidade Inamar teve o muro lateral derrubado em razão das fortes chuvas registradas em 10 de setembro. De acordo a Prefeitura, o local foi vistoriado pela Defesa Civil e as aulas foram suspensas por três dias para parte dos alunos. As atividades foram restabelecidas e o reparo do muro deve ser realizado em breve.
A Prefeitura de Santo André informou que registrou ocorrências relacionadas à manutenção escolar em aproximadamente 40 unidades da rede municipal de educação. De acordo com a administração, não houve necessidade de suspensão de aulas, alteração da rotina escolar ou transferência de estudantes e profissionais em razão de problemas estruturais provocados pelas chuvas.
Na rede estadual, escolas em Santo André também apresentam problemas. Entre as unidades afetadas estão a Professor Waldomiro Guimarães, onde a quadra foi prejudicada; a Clothilde Martins Zanei, que apresenta vazamentos, bolor e outros problemas estruturais; a Clotilde Peluso, com registro de alagamento; e a Miquelina Pedroso Magnani, que enfrenta problemas relacionados a vazamentos de água.

Já em São Bernardo, entre as unidades afetadas estão as EMEBs Professora Neusa Macellaro Callado Moraes, Edson Danilo Dotto, Bosko Preradovic e Professor Pedro Augusto Gomes Cardim, além da Escola Estadual Dr. Fausto Cardoso Figueira de Mello. Segundo a Prefeitura, nenhuma precisou suspender as aulas.
Na EMEB Professor Pedro Augusto Gomes Cardim, no bairro Assunção, salas e corredores ficaram alagados após as chuvas. Duas turmas precisaram ser transferidas para espaços adaptados. Uma foi encaminhada à biblioteca e outra à sala Maker. Segundo relatos, os ambientes não possuem quantidade suficiente de carteiras e cadeiras adequadas para receber as turmas. Os ruídos do refeitório também prejudicam a concentração dos estudantes.
Escolas municipais de São Caetano também apresentam problemas de infraestrutura. Uma delas é a Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMEF) Professor Rosalvito Cobra, que apresenta infiltrações na quadra, no auditório e nas salas de aula. Outra é a EMEF Dom Benedito Paulo Alves de Souza, onde a água entra nas salas e escorre pelas paredes e lousas. As infiltrações fazem com que os professores precisem reorganizar as carteiras para evitar que a água alcance os estudantes e os materiais utilizados nas aulas.

Estado prevê reparos
Em resposta ao RD sobre a situação da Escola Estadual Dr. Fausto Cardoso Figueira de Mello, a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (Seduc-SP), por meio da Unidade Regional de Ensino (URE) São Bernardo, informa que a equipe de limpeza atuou imediatamente para conter a água da chuva e realizar a limpeza dos ambientes de convivência afetados.
A URE afirma ainda que, no início de setembro, foi publicada no Diário Oficial do Estado (DOE) autorização para o prosseguimento do processo licitatório de uma obra de reparos estruturais na unidade. “O prazo médio para execução é de até seis meses após a contratação”, informa.
Em comunicado divulgado à imprensa em julho, a Seduc-SP informa ter investido R$ 261,6 milhões em obras e manutenções em 222 escolas estaduais do ABC entre janeiro de 2023 e junho deste ano. Questionada pelo RD sobre quais escolas receberam obras nos últimos três anos e meio e quais intervenções foram realizadas em cada unidade, a pasta informou os investimentos de forma geral por tipo de intervenção.
De acordo com a Secretaria, foram realizadas 332 obras gerais nas escolas do ABC, com R$ 128,7 milhões investidos. Também foram executadas 41 obras de acessibilidade, com investimento de R$ 112,1 milhões, e 18 intervenções em coberturas de quadras, que somaram R$ 11,7 milhões.
A Unidade Regional de Ensino de Mauá recebeu uma nova instalação, com investimento de R$ 6,9 milhões. Outras quatro escolas foram ampliadas, com a criação de seis novas salas de aula, ao custo de R$ 2,1 milhões.
Novas reformas
Em Diadema, a Prefeitura informa que 12 escolas municipais serão revitalizadas até o fim do ano por meio do programa Transforma Diadema. As intervenções incluem reforma geral, adequação dos espaços, pintura, jardinagem e manutenção.
Já Santo André, está em andamento o processo de licitação para a cobertura de quadras de 10 escolas. A Secretaria de Educação também informa que conduz o planejamento para ampliar as intervenções e reformas estruturais nos anos de 2027 e 2028. A administração prevê aproximadamente R$ 42 milhões para manutenção, reforma e revitalização das escolas municipais em 2026.
Em São Bernardo, a Prefeitura informa, que iniciou a manutenção na EMEB Professor Pedro Augusto Gomes Cardim. A administração informa ainda que reforça os serviços de manutenção em 17 escolas da rede municipal e em outros equipamentos públicos.
As prefeituras de Mauá, Ribeirão Pires, São Caetano e Rio Grande da Serra foram procuradas para informar o cronograma de obras previstas, mas não responderam até o fechamento desta matéria.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
