
Uma pesquisa conduzida pelo Centro Universitário Faculdade de Medicina do ABC (FMABC), em Santo André, em parceria com a Proteimax Biotecnologia, avançou na investigação do potencial do PEP19, um peptídeo estudado por sua atuação sobre o metabolismo do tecido adiposo. Os resultados de um estudo clínico de 90 dias foram publicados nesta semana na revista científica iScience e apontam redistribuição favorável da gordura corporal e melhoria de indicadores de resistência à insulina e controle glicêmico.
O estudo foi randomizado, duplo-cego e controlado por placebo. Ao todo, 60 pessoas foram avaliadas para participação na pesquisa e distribuídas em três grupos: placebo, PEP19 na dose de 5 mg e PEP19 na dose de 10 mg. Após 90 dias, 56 participantes concluíram o protocolo e foram incluídos na análise final.
O grupo que recebeu a maior dosagem do peptídeo apresentou redução significativa da relação entre a gordura localizada na região abdominal e a gordura localizada na região dos quadris e coxas, medida pelo índice androide-ginoide (A/G), utilizado para avaliar a distribuição da gordura corporal.
Também houve redução significativa da espessura da dobra cutânea abdominal e da soma das dobras cutâneas. O resultado chama atenção porque essas alterações ocorreram sem redução significativa do peso corporal, do índice de massa corporal, da massa total de gordura ou da massa magra. Ou seja, os dados sugerem que os efeitos metabólicos observados podem estar relacionados à mudança na distribuição da gordura.
Os pesquisadores também identificaram melhora em indicadores relacionados ao metabolismo da glicose. Na dose de 10 mg, houve redução significativa da hemoglobina glicada (HbA1c), marcador utilizado para avaliar o controle da glicose ao longo do tempo. O índice HOMA-IR, utilizado para estimar a resistência à insulina, apresentou redução significativa tanto entre os participantes que receberam 5 mg quanto entre os que receberam 10 mg. Na dose maior, a melhora já era observada a partir do 60º dia e foi mantida até o final do acompanhamento.
Segundo os autores, os resultados reforçam a hipótese de que a modulação da distribuição do tecido adiposo pode produzir benefícios metabólicos mesmo sem uma perda significativa de peso. A gordura localizada na região central do corpo, especialmente a gordura visceral, está associada a maior risco de resistência à insulina e outras alterações metabólicas. Por isso, investigar não apenas a quantidade de gordura, mas também onde ela está localizada, pode ampliar a compreensão sobre novas estratégias para o tratamento da obesidade.
De acordo com o pesquisador da FMABC Davi Vantini, os resultados representam uma etapa importante da investigação sobre o PEP19. A pesquisa também contribui para aprofundar o conhecimento sobre os mecanismos pelos quais o peptídeo pode atuar sobre o tecido adiposo e sobre o metabolismo.
“Começamos com um estudo menor e, com os resultados obtidos, houve interesse em avançar para uma pesquisa maior. Agora teremos mais participantes e um acompanhamento mais longo, o que deve permitir uma avaliação muito mais robusta”, destaca.
O PEP19 é um peptídeo intracelular que foi caracterizado experimentalmente como modulador do receptor canabinoide tipo 1 (CB1R). Estudos anteriores apontaram efeitos sobre vias de sinalização relacionadas ao tecido adiposo e à sensibilidade à insulina. A proposta do trabalho clínico foi justamente verificar se essas alterações poderiam ser observadas em seres humanos, com acompanhamento da composição corporal e de parâmetros metabólicos.
A pesquisa também avaliou parâmetros de segurança. Durante os 90 dias de acompanhamento, não foram observados sinais de toxicidade relacionados ao tratamento nem alterações laboratoriais clinicamente relevantes. Os dados ainda serão confirmados em pesquisas maiores e com acompanhamento mais prolongado.
A participação da FMABC ocorre em diferentes frentes da investigação, com pesquisadores vinculados às áreas de Análises Clínicas, Endocrinologia, Pediatria e Bioquímica Clínica entre os autores do trabalho. A instituição participa, assim, da produção de evidências clínicas sobre uma abordagem experimental que busca atuar sobre alterações metabólicas associadas à obesidade.
Os resultados publicados são considerados iniciais, mas indicam direções para novas pesquisas, com maior número de voluntários e acompanhamento mais longo, o que permite que se confirmem os resultados e uma compreensão melhor dos mecanismos de ação e do potencial terapêutico do peptídeo.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
