ABC - sábado , 18 de julho de 2026

Sistema anti-incêndio e modelo de gestão levaram ao fechamento da Casa Ronald

Prédio da Casa de Apoio à Criança Com Câncer do ABC, que era licenciada pelo Instituto Ronald McDonald. Local agora está fechado. (Foto: Divulgação)

Problemas com sistema de combate a incêndio “sprinklers” e mudança de modelo de gestão foram alguns dos motivos que levaram ao fechamento da Casa Ronald McDonald do ABC no ano passado, após 18 anos de funcionamento e mais de 2 mil crianças e suas famílias atendidas. Agora a Casa de Apoio às Crianças com Câncer do ABC que é dona do prédio, pode reabrir a casa com outros tipos de atendimento, como cardiopatia, doenças raras e autismo. Outro fator colocado para o fechamento foi o deslocamento das crianças hospedadas na Casa para hospitais na Capital e outras regiões distantes.

Segundo Nelson Tadeu Pasotti Pereira, que foi presidente da Casa Ronald McDonald do ABC até novembro, a maior dificuldade de operação da casa sempre foi a logística de levar os pacientes até hospitais de tratamento contra o câncer, como o Graacc (Grupo de Apoio ao Adolescente e à Criança com Câncer) na Capital. “A Casa foi concebida para que as crianças da região tivessem um atendimento especializado na própria FMABC (Faculdade de Medicina do ABC), atravessando o campus à pé, tivemos atendimento lá, mas aos poucos ele foi diminuindo. No HEMC (Hospital Estadual Mário Covas) também. Por isso a nossa luta sempre foi pela criação de um hospital regional para tratamento de crianças com câncer. Todos os anos nos eventos como o McDia Feliz e na Câmara de Santo André eu sempre busquei sensibilizar os políticos da região por um hospital de referência. Como isso não aconteceu passamos a receber pacientes do Nordeste, Norte e Sul do país, que ficavam hospedados aqui e a gente levava e trazia para os tratamentos”, explica.

Pereira conta que as dificuldades eram grandes para essa logística de levar e buscar pacientes. Em uma ocasião a van da Casa Ronald foi roubada em Itaquera (bairro da Capital) e os pacientes passaram a ser transportados e Uber até que uma nova fosse comprada. “Era preciso ter muito cuidado, com infecções que os pacientes depois de operados pudessem ter”, relata.

O presidente Nelson Tadeu Pereira em um dos eventos de aniversário da Casa Ronald McDonald do ABC. (Foto: Divulgação)

A Casa Ronald McDonald do ABC era gerida pelo Rotary Club Santo André e o Instituto Ronald McDonald, que dá a licença para casas de apoio usarem a marca mundial, quis mudar esse modelo com gestores escolhidos e treinados pelo próprio instituto, além disso questões técnicas como os sprinklers que não estavam funcionando pesaram para o fechamento da casa em meados de julho de 2025. “O prédio é espetacular, tínhamos de tudo, sala de cinema, salão de jogos, salas de aula para que as crianças não perdessem o ano letivo, atendimento com nutricionista, psicóloga, ou seja, a gente oferecia muito mais, tanto que as famílias gostavam muito. Essa questão dos sprinklers não estarem funcionando era uma coisa técnica que precisava de recurso e de tempo para resolver, porém a Casa está dentro da lei brasileira e inclusive conta com alvará do Corpo de Bombeiros para funcionar, mas eles (do Instituto) consideram o não funcionamento do equipamento um cláusula pétria e determinaram o fim do licenciamento da marca e tivemos que fechar, mas as famílias continuaram amparadas durante o tratamento”, diz Pereira. “Essa transição poderia ter sido de forma mais amena”, continua o ex-presidente da Casa Ronald.

Depoimentos

Nelson Tadeu Pasotti Pereira não esconde a sua tristeza pelo fechamento da casa, relembra os pacientes que passaram por lá e demonstra preocupação, porque muitas das famílias são hipossuficientes, com muitas dificuldades para manter o tratamento. “Eu vendi camiseta na porta das lojas (do McDonalds) durante os McDia Feliz, como também minha esposa, meus filhos e netos. Dói bastante ver a casa fechada, mas estou otimista que a nova gestão vai dar uma boa destinação à casa. Eu lembro de um menino que me chamava de vovô Nelson, e também de um casamento que celebramos na Casa de uma menina que se tratou lá que tinha o sonho de se casar na casa. Assim eram muitos casos porque os pacientes chegavam lá crianças e saiam adolescentes ou adultos”, conclui.

O advogado de São Caetano, Aldo Simionato Filho, também participou de várias campanhas, literalmente vestindo a camisa do McDia Feliz para garantir a continuidade do trabalho da casa do ABC. “Tentou-se muito trazer um hospital de referência para tratamento do câncer infantil para o ABC, mas como isso não aconteceu a Casa acabou ficando inviável. Eu fico muito triste porque, como integrante do Rotary, eu participei muito como voluntário e era até um orgulho estar envolvido com isso, que é um princípio rotariano de ajudar quem precisa mesmo que não fosse da nossa região, era um sentimento solidário muito forte”, disse o advogado.

Mãe de criança em tratamento de câncer se refere ao local como sua segunda casa

Michele Carvalho dos Santos, mãe do Ravi, de dois anos, foi uma das últimas pessoas a deixar a Casa Ronald McDonald do ABC no ano passado. Ela conta que veio de Contagem – MG – em 2023, junto com o filho diagnosticado com retinoblastoma, um tipo de câncer oftalmológico. A criança tinha três meses de vida e a mãe relata que o atendimento era excepcional e se refere ao local como sua segunda casa e que seu filho estabeleceu uma relação quase familiar com todos da casa-apoio.

“Meu filho engatinhou e deu seus primeiros passos na casa Ronald do ABC, a primeira papinha, tudo de importante da vida dele aconteceu lá. Ele chama o diretor de vovô Nelson. Por quase dois anos ali foi nossa segunda casa, os funcionários todos muito carinhosos e tínhamos tudo, o transporte, a alimentação, os produtos de higiene, chuveiro quente e uma cama confortável, o quarto tinha até televisão e ar-condicionado, isso não há em nenhuma outra casa de apoio. Sou muito grata a Deus e à Casa por nos acolher com amor. Tudo aquilo ficou no meu coração e no do meu filho”, conta Michele.

Hoje Michele e Ravi estão em sua própria casa, mas em fevereiro voltam para São Paulo para continuar o tratamento. Eles vão ficar em uma casa na Capital que, segundo ela é boa, mas fica muito aquém da Casa Ronald do ABC. “No ABC eu tive coisas que eu não tinha nem na minha casa. Como foi para mim, ali já foi a segunda casa de muita gente”, comenta. Michele e Ravi deixaram a casa em junho do ano passado, e foram informados que o local seria reformado, só depois ela soube que o local fechou. “Me emociono muito ao falar da casa agora que ela fechou, ali passei momentos de sofrimento pelo tratamento do meu filho, mas ao mesmo tempo encontrei amparo e muito amor”, completa.

O que diz o Instituto Ronald McDonald

Em nota o Instituto Ronald McDonald não deu muitos detalhes sobre o fechamento da Casa do ABC. O instituto mantém outras quatro casas no Estado e diz que pretende manter esse trabalho.

“A decisão de fechamento da Casa Ronald McDonald foi realizada em conjunto entre a Ronald McDonald House Global, organização internacional representada no Brasil pelo Instituto Ronald McDonald, e a Casa de Apoio à Criança com Câncer do ABC. A licença foi rescindida após um processo criterioso de avaliação institucional, alinhado aos critérios globais da rede. Todas as famílias que estavam hospedadas no momento foram realocadas e acolhidas e seguiram o seu tratamento sem nenhuma interrupção. A Casa operava por meio de uma licença concedida à instituição parceira que possuía entre seus associados, membros do Rotary Club e de representantes da sociedade civil em seus conselhos. Nesse modelo, o Instituto Ronald McDonald acompanhava a gestão por meio de relatórios. Contamos com outras 4 unidades em operação no estado de São Paulo e, com base em nosso planejamento estratégico, buscamos ampliar nossa atuação na região e apoiar mais famílias”.

ABC debate nesta 4ª rumo do tratamento do câncer infantil após casa Ronald fechar

O Consórcio Intermunicipal do ABC vai debater, em reunião nesta quarta-feira (13/01), como será feito o tratamento oncológico infantil na região. Demanda antiga, um hospital de referência para esse tipo de atendimento foi muito solicitado, para amparar os pacientes e familiares hospedados na casa Ronald McDonald do ABC, que fechou no ano passado.

Segundo o secretário executivo do Consórcio, Aroaldo Silva, o objetivo é reunir prefeituras, entidades e demais atores da área de saúde para debater a questão. A intenção é implementar um hospital de referência para o câncer infantil e uma casa para pacientes e familiares ou, ainda, um hospital que tenha estrutura para abrigar a criança e um acompanhante sem a necessidade de uma casa de apoio.

“Há a possibilidade de usarmos a Santa Casa de São Bernardo, por isso estamos em contato com eles e também com a prefeitura, mas ainda é só uma possibilidade. Temos um pré-projeto do que seria um hospital oncológico infantil e tudo que ele precisa, o problema é o custeio, que precisamos equacionar, por isso vamos estabelecer diálogo com os governos Estadual e Federal, pois o custo é muito alto”, disse Silva.

O Consórcio pretente fazer uma visita ao Hospital de Barretos, para conhecer a estrutura e o modelo de gestão. Outra situação que pode ser considerada é reabrir a antiga casa, porém a questão hospitalar ainda precisaria ser resolvida.

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