Em ‘UnB – Utopia Distopia’, Jorge Bodanzky vê o País nos anos 60

Nos anos 1960, o jovem Jorge Bodanzky era calouro na UnB. A Universidade de Brasília nascera do sonho de visionários – educadores como Darcy Ribeiro, que foi seu primeiro reitor, Anísio Teixeira, o arquiteto Oscar Niemeyer e o urbanista Lúcio Costa. O futuro do Brasil parecia possível naqueles anos de transformação, quando uma cidade se ergueu no Planalto Central e a bossa nova embalava o ritmo de toda uma geração. Bodanzky viveu aqueles anos, a utopia e a distopia. Logo após o golpe de 1964, a UnB foi invadida por tropas do Exército – era considerada um foco de subversão esquerdista.

“Vivi intensamente tudo aquilo e, há pelo menos 15 anos, vinha colhendo depoimentos de antigos colegas e professores. Muitos já se foram e era importante colher testemunhos, porque o que houve ali foi um embate entre civilização e barbárie. O que não podia imaginar é que esse filme nasceria em outro momento de exceção, quando o Brasil vive outro processo de barbárie”, diz Bodanzky. Aos 78 anos – nasceu em São Paulo, em 1942 -, ele ostenta a reputação de ser um dos mais importantes autores do cinema brasileiro (além de ser pai da também cineasta Laís Bodanzky).

Iracema – Uma Transa Amazônica, que correalizou com Orlando Senna nos anos 1970, é um clássico. Um filme nas bordas, uma ficção documentada, um documentário ficcionalizado. “Entre factualidade e ficcionalidade”, como o situa Piero Sbragia em seu livro Novas Fronteiras do Documentário, da Chiado Books.

Em março, quando Amir Labaki anunciou a seleção do 25º Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade, UnB – Utopia Distopia ainda não estava pronto. A pandemia fechou os cinemas, lançou o País no isolamento. O festival foi adiado, para quando setembro chegasse. Havia a expectativa de que, seis meses depois, a situação já estivesse normalizada. O É Tudo Verdade de 2020 começa na quarta, 23. A sessão de abertura será presencial, mas com todos os protocolos de segurança, no Drive-in Belas Artes do Memorial da América Latina.

O filme inaugural, para convidados, será A Cordilheira dos Sonhos, do chileno Patricio Guzmán. Depois, e até 4 de outubro, o festival continuará remotamente, em São Paulo e no Rio. Todas as informações estão em www.etudoverdade.com.br
O adiamento ocasionou algumas mudanças na programação. Toni Venturi não esperou e lançou em streaming seu documentário Dentro da Minha Pele, que tem tudo a ver com a questão racial e os protestos do movimento Black Lives Matter, deflagrado nos EUA pela morte brutal de George Floyd. Jorge Bodanzky finalizou UnB – Utopia Distopia e Amir Labaki, tão logo viu o filme, não hesitou em acolhê-lo na programação. “Bodanzky faz parte da nossa história no É Tudo Verdade. Já foi premiado, homenageado, já foi jurado, está jurado novamente este ano (na competição internacional). Pelo tema, pelo momento, pelo teor confessional, tudo tornava necessário apresentar esse filme. Um filme especial, para um ano especial.”

E Bodanzky: “Estou feliz porque o UnB – Utopia Distopia não apenas será apresentado no dia 26, sábado, às 11 horas, como será seguido de um debate, às 16h. O que ocorreu com a Universidade de Brasília nos anos 1960 servirá para que a gente discuta a educação e a crise sanitária no Brasil atual”. O filme tornou-se possível graças a uma conjunção de fatores. Muito importante: “Meu acervo fotográfico foi entregue ao Instituto Moreira Salles, que digitalizou todo aquele material analógico. Tinha muita coisa em Super-8, em boas condições, e resgatar esse material de arquivo com as entrevistas que vinha fazendo me ajudou a definir o formato. Estou no filme no passado e no presente, filmando com meu iPhone, percorrendo os lugares da minha juventude, entrevistando os jovens de hoje. Esse filme foi tornado possível com as facilidades que as novas tecnologias nos oferecem”.

Há 20 anos, Jorge Bodanzky está casado com Márcia Neves Bodanzky. Há mais de 50 anos, cursavam a UnB, integrando a primeira turma de alunos da universidade. Ela aparece jovem e linda, cheia de sonhos como boa parte daquela geração que sonhava mudar o Brasil. Madura, dá seu testemunho. Bodanzky e ela se reencontraram décadas mais tarde. Uma história de amor e companheirismo.

Ao colocar a universidade no Plano Diretor da Capital Federal, Lúcio Costa já antecipava a UnB como centro de saber integrado à vida da cidade. Em muitas capitais brasileiras, os câmpus são dispersos, os prédios separados. A UnB tem hoje outros câmpus, mas Oscar Niemeyer projetou o câmpus original com prédios integrados. A universidade como um lugar de troca. Os estudantes eram estimulados a sair a campo, para pesquisar – e conhecer – o Brasil. Bodanzky fez uma viagem ao Nordeste com o pintor e escultor Athos Bulcão. Resultou num carnê de viagem sobre um Brasil que os brasileiros não estavam acostumados a ver e que o Cinema Novo colocaria nas telas. A estética da fome já impregnava as imagens de Bodanzky e Bulcão.

O resto é história. A universidade invadida, a repressão. A diáspora – muitos daqueles jovens, e seus mestres, seriam lançados ao mundo. Bodanzky foi para a Alemanha, estudou cinema em Ulm. De volta ao Brasil, trabalhou como câmera e estreou na direção em dupla com Orlando Senna. Pesquisaram a Transamazônica, estrada criada pela ditadura, no governo Médici, para integrar Norte e Sul, mas criticada por ambientalistas, desde o seu começo, pelo modelo de ocupação caótica. A Transamazônica virou Transa Amazônica e o filme, Iracema, foi proibido. Teve – ainda tem – direito a exibição especial, como “clássico”, no festival Ecofalante, que se encerra no sábado, 19. O filme continua mais atual do que nunca. Bodanzky sabe disso – ele é sempre chamado para debater.

A Amazônia, o Pantanal, o desmatamento, os incêndios – e as nuvens tóxicas que estão contaminando o ar e lançando uma chuva negra sobre capitais. Bodanzky tem colocado a questão ambiental no centro de seu cinema. “Agora mesmo, estou fazendo um filme sobre a contaminação dos rios com mercúrio, Amazônia: A Nova Minamata?”, define, referindo-se à cidade japonesa que sofreu grave contaminação por mercúrio. Centenas de pessoas morreram e milhares tiveram anomalias que passaram para as gerações seguintes. “A principal fonte de contaminação é a mineração de ouro artesanal, porque o mercúrio é utilizado na purificação do minério. Além disso, viaja muito, sedimentando-se no leito dos rios e contaminando o bioma. Hoje em dia, cada vez mais, o mercúrio é encontrado nos peixes da região e nas populações ribeirinhas, principalmente indígenas. É um crime que vem sendo denunciado por organizações ambientais.” Com Bodanzky, o cinema não está para brincadeira.

Receba diariamente o RD em seu Whatsapp
Envie um WhatsApp para 11 99927-5496 para receber notícias do ABC diariamente em seu celular.

Comentários