Biografia revela erudito e popular em Ernesto Nazareth

Corria o ano de 1930. De repente, no meio de um recital da pianista Guiomar Novaes no Teatro Municipal do Rio, um homem de cabelos brancos desgrenhados sai transtornado da platéia, em prantos: “Por que eu não fui estudar na Europa? Eu queria ser como Guiomar Novaes”. O protagonista da dolorosa cena, relatada por sua filha Eulina, foi o compositor Ernesto Nazareth (1863-1934). Ele estava com 67 anos, quase surdo e com o juízo mental fragilizado pela sífilis.

Foi o primeiro de uma série de sintomas de demência em seus últimos anos de vida. Internado em 1933 na Colônia Juliano Moreira, fugia e ia ao centro do Rio tocar piano compulsivamente em alguma casa de partituras. O episódio é revelado por Cacá Machado em seu magnífico O Enigma do Homem Célebre – Ambição e Vocação de Ernesto Nazareth, que o Instituto Moreira Salles lançará no próximo sábado, às 16 horas, em seu centro cultural paulistano (Rua Piauí, 844). O instituto preserva o acervo Nazareth, daí o excepcional portfólio iconográfico ao final do livro, que também oferece um CD em que a pianista Sonia Rubinsky interpreta as peças analisadas pelo pesquisador.

A trajetória de vida criativa de Nazareth é parecida com a do personagem Pestana do conto Um Homem Célebre, de Machado de Assis. E, como em Machado em geral não há coincidências nem acaso, pode-se dizer que Nazareth foi o modelo do afamado compositor que tentava sem sucesso criar uma obra de grande música – mas seu gênio só se manifestava e lhe proporcionava enorme sucesso por meio das “buliçosas polcas”.

Machado restitui aquela que deveria ser a imagem correta de Ernesto Nazareth, autor de 98 tangos, 40 valsas e um tanto de polcas e peças variadas, totalizando uma produção de 212 obras. “Formulei o enigma do homem célebre a partir das seguintes questões: qual a especificidade da música criada por Nazareth?; como se desenvolve a linguagem dessa obra musical?; como se resolvem, ou não, as relações entre o erudito e o popular internas à obra?; de que maneira interpretar a obra do compositor no contexto cultural brasileiro e na sua singularidade biográfica?”, escreve Cacá.

Ele analisa quatro peças – Cruz, Perigo, de 1879, Rayon D?Or, de 1892, Batuque, de 1913, e Floraux, de 1909. Parte da história da “febre das polcas” na segunda metade do século 19 no Rio; engata uma análise do conto de Machado de Assis, em que o drama da ambição versus vocação aflora de modo genial; e disseca o que Nazareth chamava de “tango brasileiro” para mostrar a “misturada geral dos gêneros lundu, polca, tango, choro e maxixe”. Cacá combina com rara felicidade a análise musical técnica propriamente dita com a preocupação fundamental de inserir a música em seu tempo e dali tentar extrair o seu significado. “Simbolicamente, os universos da chamada música erudita e popular se cindem para Nazareth”, escreve o autor.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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