O envelhecimento da população e o aumento da obesidade estão entre os principais fatores que explicam o crescimento dos casos de diabetes no Brasil e no mundo. A doença, que pode evoluir por anos sem sintomas, exige atenção aos fatores de risco, exames periódicos e diagnóstico precoce para evitar complicações. Esse último fator é o principal alerta do endocrinologista Fadlo Fraige Filho, presidente da ANAD (Associação Nacional de Atenção ao Diabetes) e professor do FMABC (Centro Universitário FMABC), que reforça a necessidade do cuidado com a qualidade de vida em virtude do Dia Mundial do Diabetes, celebrado em 14 de novembro.
De acordo com o especialista, estudos brasileiros apontam que entre 23% e 24% das pessoas com 65 anos ou mais têm diabetes, o equivalente a aproximadamente um em cada quatro idosos. “A obesidade também tem papel importante nesse avanço, sobretudo nos casos de diabetes tipo 2, responsável por cerca de 90% dos diagnósticos”, afirma em entrevista ao RDtv. Histórico familiar, hipertensão, sedentarismo, alimentação inadequada e diabetes gestacional também elevam o risco.

Fraige Filho explica que a doença pode ter diferentes origens. O tipo 1, mais comum na infância e na adolescência, tem causa autoimune e ocorre pela destruição das células do pâncreas responsáveis pela produção de insulina. Já o tipo 2 costuma surgir na vida adulta e está associado à resistência à ação da insulina, além de fatores genéticos e metabólicos. Há ainda o diabetes gestacional, que se manifesta durante a gravidez.
Um dos principais obstáculos para o diagnóstico é justamente a ausência de sinais claros. Segundo o endocrinologista, o diabetes pode evoluir por quatro a sete anos antes de atingir níveis de glicemia que permitam identificar a doença nos exames. “A maioria das pessoas com diabetes cursa sem sinais e sintomas”, alerta. Sede excessiva, aumento do volume de urina, necessidade de levantar à noite para urinar, perda de peso sem causa aparente e infecções recorrentes aparecem em fases mais avançadas.
O especialista também chama a atenção para a diferença na procura por cuidados preventivos entre homens e mulheres. Como muitas mulheres fazem exames periódicos de rotina, o diabetes pode ser identificado com maior frequência nesse grupo. Já parte dos homens, segundo ele, costuma adiar consultas e avaliações de saúde, e nesse sentido, a proposta do Dia Mundial do Diabetes deste ano reforça a importância de identificar a doença antes do surgimento de complicações.
Tratamento e novas tecnologias
Embora o diagnóstico de diabetes seja permanente, o controle adequado permite uma vida longa e sem complicações. Em alguns casos de diabetes tipo 2, especialmente entre pessoas com obesidade, a perda de peso pode normalizar os resultados dos exames. Isso, porém, não significa a cura da doença, já que o ganho de peso pode provocar o retorno das alterações glicêmicas. “Se cuidar, se fizer tratamento adequado, vai ter uma vida longa, sem dúvidas, sem complicação”, afirma Fraige Filho. O tratamento envolve alimentação equilibrada, atividade física, uso correto dos medicamentos e controle da hemoglobina glicada, exame que indica a média da glicose no sangue nos últimos três meses.
A tecnologia também trouxe novas alternativas para o controle da doença. Os sensores de monitorização contínua da glicose permitem acompanhar os níveis de açúcar no sangue em intervalos de poucos minutos, com transmissão dos dados para aplicativos de celular. O recurso reduz a necessidade de picadas no dedo e permite observar as oscilações da glicemia ao longo do dia.
Fraige Filho destaca que a evolução dos sensores representa um avanço importante, sobretudo para crianças que precisam medir a glicose várias vezes ao dia. O especialista defende a ampliação do acesso a essa tecnologia pelo SUS (Sistema Único de Saúde) e cita iniciativas em São Paulo para garantir o equipamento a crianças de até 12 anos. As insulinas também passaram por avanços, com versões de ação prolongada, que simulam a produção basal do pâncreas, e outras de ação ultrarrápida, indicadas especialmente antes das refeições. O especialista cita ainda a perspectiva de uma insulina basal de aplicação semanal.
Outro recurso que ganhou espaço são os medicamentos injetáveis conhecidos popularmente como canetas emagrecedoras. Segundo Fraige Filho, essas substâncias foram desenvolvidas para o tratamento do diabetes tipo 2 e ajudam a controlar a glicemia, além de favorecer a perda de peso e reduzir o apetite. A maior concorrência entre fabricantes e novos acordos comerciais também pode contribuir para a redução dos preços.
Atividade física e alimentação
A prática de exercícios físicos é parte importante do tratamento, pois os músculos utilizam a glicose como fonte de energia. O endocrinologista ressalta, porém, que a atividade precisa respeitar as condições de saúde, a idade e as limitações de cada pessoa. Exercícios excessivos ou inadequados podem provocar lesões, sobretudo entre pacientes com outras doenças associadas.
Fraige Filho estima que a combinação de atividade física e alimentação adequada responda por 40% a 50% do controle do diabetes tipo 2. A orientação também vale para quem consome produtos dietéticos ou suplementos proteicos. Alimentos sem açúcar podem fazer parte da dieta, mas não devem ser consumidos sem critério. No caso dos chocolates diet, por exemplo, é preciso considerar o teor de gordura e a quantidade ingerida.
O especialista recomenda ainda que a proteína venha, preferencialmente, de alimentos como carnes e frango, sem necessidade de recorrer a suplementos como o whey protein de forma indiscriminada. A avaliação individual e o acompanhamento médico são fundamentais para definir a alimentação e o tipo de exercício mais adequado.
Apesar dos avanços no tratamento, Fraige Filho alerta que muitos brasileiros com diabetes ainda não mantêm a doença sob controle. “Por isso, a recomendação é não esperar pelo aparecimento de sintomas para procurar atendimento. Exames periódicos, diagnóstico precoce e adesão ao tratamento são medidas essenciais para reduzir o risco de complicações”, completa.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
