Agência de Desenvolvimento do ABC, que completou 28 anos, está trabalhando na estruturação de políticas para atrair novas cadeias produtivas na indústria e também incentivar MEIs com criação de portal para amparar esses trabalhadores que fazem a economia girar. Para o presidente da Agência, Aroaldo Silva, que participou do RDCast desta quinta-feira (29/10), são necessários diagnósticos de cada setor para definir o que casa um precisa em termos de crédito, de qualificação profissional e mentoria.
Silva falou sobre as pautas que devem avançar com o Governo Federal, no quarto mandado do presidente Lula. “A gente vem trabalhando há um tempo principalmente no NIB (Nova Indústria Brasil) que organizou e vem debatendo novas cadeias produtivas. Além da NIB tem duas transformações importantes uma é o PTE (Plano de Transformação Ecológica) e tem a outra grande política importante que é o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento). Já o ano passado conseguimos fazer o evento aqui na Agência, junto com o secretário nacional de política industrial Ualace Moreira e começamos as conversas da conexão da NIB com a região e quais são as cadeias que a gente tem mais oportunidade, lembrando que o ABC é uma região industrial que poucas regiões do mundo e do Brasil têm. No ABC, 27,5% da economia vem da indústria, em algumas cidades, como Diadema, passa do 40% do PIB (Produto Interno Bruto)”.
“Estamos olhando as novas oportunidades mas também a malha industrial para a gente não perder como já perdemos na história recente. Estamos atentos à cadeias na área de saúde, da transformação digital pensando em projetos como o que temos com a UFABC (Universidade Federal do ABC) de reconversão industrial, pensando, por exemplo, no setor automotivo; pensamos na transição energética, então a gente pensou com a visita do Ualace e mais recentemente com a visita do ministro Marcio Elias, da indústria falamos de novas cadeias para a nossa região e outras já consolidadas como o setor automotivo entregamos a pauta. Nela, em especial, tratamos das auto peças aqui da região e do setor de borracha, que vimos o quando sofreram com o tarifaço do Trump”, descreve Aroaldo Silva sobre as tratativas em andamento com o Governo Federal.
Cadeia produtiva da Saúde
A Agência de Desenvolvimento do ABC quer mostrar o potencial já instalado e as oportunidades com novas tecnologias e cadeias que podem surgir uma delas é a da saúde. “A primeira coisa é apresentar o ABC como um território fértil para a possibilidade de receber investimentos, de estar na rota do Governo Federal para ser estratégico na hora que se discute essas novas cadeias. A da saúde tem debate forte do reconhecimento, além dos grandes investimentos como fábricas de vacinas, de novos medicamentos, tem uma gama enorme de investimentos, equipamentos médico-hospitalares, tem esse debate o governo vem fazendo e a gente tentando colocar o ABC nessa rota”.
Com o anúncio, pelo Governo Federal, dos hospitais inteligentes no país, um deles no Estado de São Paulo, Aroaldo Silva avalia que fica a oportunidade do ABC ter crescimento da cadeia da saúde. “O Ministério da Saúde anuncio o instituto de hospitais inteligentes no país, um deles no Estad, que é o de Clínicas, e já estamos dialogando para ver como usar essa oportunidade para a região. Além do público tem investimento privado na região, em clínicas e laboratórios. Com o programa Agora Tem Especialistas, para cirurgias, tem mais um potencial para organizar essa cadeia”, analisa.
Automotivo
Mas para Aroaldo Silva o ABC não pode deixar de continuar a atenção com o setor automobilístico ainda muito presente e forte, bem como o ramo químico. “Temos cinco montadoras na região, contando a Eletra, temos um polo de autopeças muito importante, o segundo do Brasil, então é importante preservar o setor, como também o da indústria petroquímica e química, reforçando que o primeiro polo petroquímico do Brasil está no ABC e que não é reconhecido, diferente dos demais. Temos a refinaria da Petrobras aqui, a Recap, então a gente tem que preservar essa malha industrial madura e bem estruturadas e pensar oportunidades para elas.
A Agência do ABC tem promovido uma aproximação e escuta com os empresários que definiram algumas demandas. “A gente tem demandas diferentes no ABC, além das grandes empresas, tem a presença importante do médio, pequeno e micro fornecedores. Esses pequenos e micros ainda avaliam como entrar na quinta revolução industrial e aplicar tecnologias. Esse suporte tem que ser diferente, o olhar tem que ser diferenciado, um cuidado especial. A gente está apresentando ao ministério as formas de crédito para esse micro e pequeno”, disse o presidente da Agência.

Portal para os MEIs
Os cerca de 200 mil MEIs (Microempreendedores Individuais) do ABC, precisam também de um tratamento especial, muitos estão endividados. O recém-lançado Prospera MEI, do governo federal vem com perdão de dívidas de tributos e recursos para investimento na sobrevivência dessas empresas que muitas vezes são de apenas uma pessoa. Para Aroaldo Silva é preciso fazer um diagnóstico melhor para saber o perfil desses CNPJs, quais os setores mais importantes em que atual e onde é preciso ajuda.
“Tentamos lançar um programa, conversamos com as prefeituras e MEIs, mas não conseguimos rodar. Temos debate para retomar isso. 50% dos MEIs estão endividados e a primeira coisa é pensar como pagarão essas dívidas, o MEI Prospera é oportunidade”, aponta Silva.
O presidente da Agência de Desenvolvimento diz que a maioria dos 200 mil MEIs do ABC, na verdade são trabalhadores que não tinham a intenção de ser empreendedores, mas que entraram nesse modelo porque ficaram desempregados e essa foi a forma de subsistência que encontraram. “Identificamos que claramente que, dos mais de 200 mil, boa parte é MEI por alternativa de trabalho e renda; não estão no MEI pelo sonho do empreendedorismo, mas porque ficou desempregada e, para sobreviver, arrumou um caminho. São pessoas que têm uma aptidão, mas não o suporte técnico e financeiro. Aqui temos o Sebrae, que faz trabalho importantíssimo, mas não consegue dar conta de toda a demanda. Vimos que 15% dos MEIs era do setor de beleza, ou seja, barbeiros e cabeleireiros, tem também a dona de casa que começou a fazer bolo e salgado para vender e a gente tem que ajudar essas pessoas, pois a pessoa não quer ser MEI o resto da vida, ela quer crescer. O trabalhador se dedica tanto e, às vezes, não tem o retorno necessário porque não cuidou das outras partes, ele tenta se virar sozinho, mas tem que ter esse suporte”, diz Silva.
Portal
Uma das formas de dar o suporte ao microempreendedor individual é através de uma ferramenta criada só para ele, o Portal do Empreendedorismo do ABC, estudado pela Agência. “A gente quer mapear todos os empreendedores por segmento e as suas necessidades, maximizar o que o Sebrae já faz e conectar com o crédito mais barato. Conversamos com prefeituras e outros setores. Hoje é difícil mensurar com quanto os MEIs participam na economia da região, mas eles fazem a economia girar”.
Para Aroaldo Silva fatores recentes do mercado de trabalho, mudanças nas relações trabalhistas levaram trabalhadores para o empreendedorismo sem uma capacitação, outros para o mercado informal e o resultado foi a queda da renda. A solução, segundo ele, é a revalorização do trabalho, destacando a qualificação profissional e a definição clara do trabalho autônomo e aquele com carteira assinada.
O desmantelamento do trabalho com carteira assinada, segundo Silva, desprivilegiou os empregos formais. “A gente viu a renda e os salários caírem e as pessoas começaram a se virar com Uber ou atuar no e-commerce. Muitos defendem outros criticam, no final a gente tem que ter trabalho e renda senão não vai desenvolver as cidades. Mas a gente tem que entender a longevidade das coisas, estruturar a seguridade social senão a gente colapsa lá na frente; como vai dar uma segurança para a população mais idosa?”, indaga.
“A gente precisa aumentar a oferta de formação profissional com a recessão muita gente não se sentiu estimulado a estudar para atuar em certas profissões”. O fim escala 6 x 1 pode estimular a volta para trabalho CLT, na opinião do presidente da Agência de Desenvolvimento. “Isso pode ser um fator importante, porque os mais jovens valorizam mais o tempo com a família, ou seja, o tempo fora do trabalho, isso pode ser um grande atrativo, ter previsão de folga, dar oportunidade para as pessoas ficarem mais com a família, e ter lazer. Mas não é só isso, a mudança passa pela valorização salarial, pelas condições de trabalho, mudança na relação com o trabalho”, reflete Silva.
Papel da universidades
O presidente da Agência de Desenvolvimento Econômico do ABC considera estratégica a participação das universidades nesse processo de qualificação e de análise dos mercados. “Poucas regiões do país têm a oferta de universidades que temos aqui, hoje temos 100 mil estudantes universitários o que é um potencial enorme em ciência, inovação e pesquisa. A Agência tem dialogado muito com as universidades para olhar como elas usam seus hubs de inovação para pesquisas na região para ajudar a pequena e micro empresa. Temos a experiência com a UFABC, com a Unifesp e até os testes de biocombustíveis o Governo Federal vem fazer aqui na Mauá para se ver a importância tecnológia da região. Então é preciso conectar e ver como isso transborda para outros setores econômicos na agregação de valor na região”, destaca.
ABC para o Mundo
O programa ABC para o Mundo da Agência do ABC já recebeu representantes da Colômbia e Chile e, em novembro vai receber uruguaios para definir o desenvolvimento e troca de informações. “Caminhamos muito bem com a Colômbia, temos dialogado bastante, a gente vê potencial, estamos fazendo a conversa com o Chile e no final de novembro vamos receber uma delegação do Uruguai que está fazendo plano nacional de desenvolvimento econômico. Vamos dialogar como conectar isso com o ABC. Não avançamos com a Argentina no governo Javir Milei, mas vemos outros potenciais. Essa foi uma alternativa para o tarifaço. Temos ainda oportunidades com o recente acordo Mercosul e União Européia”, completa Aroaldo Silva.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
