
Neste Dia do Professor, 15 de outubro, a carreira de docente não é mais tão atrativa para os jovens. Há desafios na formação e, principalmente, na valorização dos profissionais. Especialistas em educação e quem vive o dia a dia de dar aulas admitem que a profissão tem passado por mudanças, dificuldades, o jovem tem procurado mais áreas de tecnologia e o interesse pela pedagogia ou licenciatura caiu. Muito disso tem a ver com carga horária, com baixos salários e com o desgaste físico e mental se comparados com outras áreas.
Para cumprir as metas do metas do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável de número 4 (Educação de Qualidade para Todos) o MEC (Ministério da Educação) criou o Grupo de Trabalho da Educação. Segundo publicação do GT o mundo enfrenta uma séria escassez de profissionais da educação.
“O déficit global de professores está estimado em 44 milhões. A procura e o interesse pela carreira situam-se abaixo do necessário na maior parte dos países. De outro lado, o pico mundial do número de crianças entre 6 e 11 anos foi alcançado em 2023. Até 2029, a maior coluna da pirâmide populacional global estará na faixa etária entre 12 e 16 anos. Esses dados tornam-se ainda mais preocupantes quando as evidências confirmam o papel insubstituível que tem os professores e as escolas para o efetivo alcance do objetivo global de universalizar a educação de qualidade até 2030. O mundo precisa atrair e reter mais talentos na carreira docente”, diz o documento.
Para a professora Andreia Menarbini, coordenadora do curso de Pedagogia da FSA (Fundação Santo André), é real a redução do interesse pela carreira. “Vemos que muito do interesse pela profissão caiu, não só no Brasil, na América Latina e ouso dizer que no mundo todo, dados científicos mostram isso”, analisa.

Apesar da constatação Andreia diz que instituições devem inovar e uma das alternativas é modernizar os cursos e facilitar a formação com horários mais flexíveis. “A tradição de 60 anos faz com que nos procurem, então sempre tivemos procura, e com a formação semipresencial houve boa aceitação. Em 2022, durante a pandemia, tivemos uma turma com 30 alunos apenas, hoje estamos com 11 turmas”, diz a professora que destacou que a inovação e o uso de novas tecnologias são necessárias. “Ouviu-se dizer que o professor seria cada vez menos necessário, mas ao contrário, quanto mais tecnologia mais o professor é necessário”, completa.
Para o professor Roberto Guido, secretário de Finanças da Apeoesp (Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo), o professor da rede pública é desvalorizado e, na comparação com outras carreiras, o jovem acaba optando mais por carreira em que terá melhor remuneração.
“O pilar é a valorização do trabalhador, no plano nacional há pontos positivos como o Fundeb (Fundo Nacional para o Desenvolvimento da Educação) e o piso nacional do magistério, o problema é que nos estados e municípios esse esforço é sabotado com pagamento baseado em gratificações e produtividade como se fosse uma indústria, isso afugenta os jovens. Enquanto que no Oriente o educador é valorizado, no Ocidente isso não acontece; enquanto o jovem busca na carreira as condições de sobrevivência temos um déficit brutal de profissionais, porque profissões na área de tecnologia são mais atrativas”, analisa Guido.
A constante luta dos professores por melhores condições de trabalho, pela realização de concursos públicos e contra a privatização e plataformização da educação no Estado, são situações que pesam na hora da escolha da carreira. “Isso causa uma demanda menor nos cursos de pedagogia e as instituições acabam fechando cursos e vira uma bola de neve. O que o governo de São Paulo quer é criar alguns centros de excelência, e o restante fica com uma educação de baixa qualidade, com um currículo empobrecido, pasteurizado e plataformizado. A nossa luta é por concursos públicos, para que o jovem seja atraído para ser professor, mas o Estado precariza com professores temporários”, completa.
A presidente do Sinpro ABC (Sindicato dos Professores de Santo André, São Bernardo e São Caetano), Edilene Arjoni, em recente entrevista ao RD, também considerou que a categoria enfrenta desafios relacionados à sobrecarga de trabalho, à falta de autonomia em sala de aula, à ausência de suporte das instituições de ensino e à desvalorização profissional. “Esse cenário dificulta a atração de novos profissionais para a carreira docente, o que contribui para o chamado apagão de professores”.

Se a falta de concursos e desvalorização é uma realidade na rede pública, nas escolas particulares o exercício da docência encontra dificuldades parecidas. Edilene conta que os professores enfrentam relações de trabalho marcadas pela pressão hierárquica e restrição da autonomia em sala de aula. De acordo com a dirigente, há instituições que gravam as aulas dos docentes e limitam a abordagem de determinados conteúdos. “Há escola em que o professor não pode dar aula sobre evolução biológica, o que pode comprometer a formação dos estudantes e prejudicar a preparação para exames de ingresso no ensino superior”, relata.
A presidente do Sinpro ABC também afirma que são comuns os episódios de violência entre docentes, alunos e familiares. Com isso, diz, as condições de trabalho têm afetado a saúde mental dos profissionais e levado parte deles a considerar o abandono da carreira. A sobrecarga, os baixos salários e a necessidade de atuar em diferentes instituições para complementar a renda agravam o desgaste físico e emocional. “É comum ver professores saindo de sala de aula chorando”, afirma.
Instituições da região
Diante do tamanho das redes pública e privada na região a formação de professores é pequena nas instituições da região. Na FSA (Fundação Santo André), por exemplo, o curso de Pedagogia tem 459 estudantes matriculados. Esta é a primeira turma, que teve início em 2024, que só deve se formar em 2028.
O vestibular para a FSA, que inclui o curso de Pedagogia estão abertas até 29 de janeiro. Notas do Enem dos últimos 10 anos podem ser utilizadas, a redação é online e as inscrições são gratuitas no site: https://www2.fsa.br/graduacao/. O curso é oferecido na modalidade semipresencial, pois combina atividades presenciais e a distância. São 140 vagas para o curso no próximo vestibular.
A FSA diz que o curso tem bastante procura. “A procura pelos cursos de licenciatura tem passado por transformações nos últimos anos, e a Pedagogia também acompanha esse cenário. Na Fundação Santo André, sendo nota máxima no MEC, observamos grande procura pelo curso. Temos ofertado sempre duas turmas no período noturno na modalidade semipresencial, com atividades presenciais duas vezes por semana. A realização de encontros presenciais, mais do que atender à legislação do MEC, visa proporcionar momentos de encontro, discussão pedagógica e enriquecimento da formação do estudante”, diz a FSA, em nota.
A UFABC (Universidade Federal do ABC) iniciou este ano o curso de Leila (Licenciatura em Educação das Infâncias, Linguagens e Artes). O acesso ao curso de Pedagogia, portanto, não é direto e o aluno tem de passar pela licenciatura. “Esse curso interdisciplinar foi aberto neste ano, com ingresso da primeira turma no segundo quadrimestre por meio do sistema Enem/Sisu. A criação dessa licenciatura atendeu demanda do Consórcio Intermunicipal para incrementar a formação de professores no ABC. Há 54 matriculados na Leila, ministrada no campus Santo André”, diz nota a universidade. Para 2027 há expectativa de abertura de 50 vagas na Leila e a confirmação virá em edital a ser publicado até o fim do ano.
Na USCS (Universidade Municipal de São Caetano do Sul) também há curso de Pedagogia. Em comunicado no início deste ano sobre o tema, a instituição apontou que havia 370 alunos no curso, sendo que 50 devem se formar este ano. As aulas são semipresenciais.
Para quem quiser cursar Pedagogia na USCS as inscrições para o processo de seleção estão abertas até 13 de novembro e a taxa custa R$ 40. Para concorrer às vagas, o candidato pode escolher entre duas formas de ingresso: Redação (a distância) ou nota do ENEM (resultados válidos de 2020 até 2025), não sendo aceito o ENEM como treineiro. A redação, para aqueles que optarem por essa forma de ingresso, acontece no dia 25 de novembro de 2026, online (não presencial). Os procedimentos para cada forma de seleção constam no edital, na área da inscrição, em https://www.uscs.edu.br/vestibular. Os resultados oficiais serão divulgados no dia 2 de dezembro e as matrículas acontecem online, a partir de 3 de dezembro. O início das aulas será em 1º de fevereiro de 2027.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
