
A rotina de quem leciona envolve muito mais do que preparar aulas e transmitir conhecimento. Longos períodos em pé, deslocamentos pela sala, horas diante do computador e o uso contínuo da voz fazem parte do dia a dia dos professores.
Com o tempo, esse comportamento pode contribuir para dores musculoesqueléticas e alterações vocais. Esses impactos sobre a saúde ganham atenção especial no Dia do Professor, celebrado em 15 de outubro.
Um estudo nacional publicado na Revista Brasileira de Saúde Ocupacional, em 2023, com professores da educação básica identificou os problemas relacionados à voz como um dos motivos mais frequente de afastamento do trabalho por questões de saúde, presentes em 15,8% dos casos, seguidos pelos distúrbios musculoesqueléticos, com 14,7%.
Segundo o otorrinolaringologista Thiago Brunelli, do hospital Santa Casa de Mauá, a voz é uma das principais ferramentas utilizadas pelo professor e muitas vezes falar durante várias horas e em ambientes ruidosos exige esforço adicional. “A intensidade e o tempo de uso da voz devem ser considerados já que o professor também precisa projetar a voz para que seja compreendido por uma turma inteira, muitas vezes competindo com conversas, ruídos externos e a acústica da sala. Esse esforço pode levar à fadiga vocal e a alterações nas pregas vocais”, afirma.
Entre alguns sinais de que algo não vai bem estão rouquidão persistente, fadiga vocal, falhas na voz, pigarro, desconforto na garganta, dor ou dificuldade para projetar a voz.
O otorrino ressalta que não é preciso esperar a perda da voz para procurar ajuda. “Quando uma alteração vocal se torna frequente ou permanece por um período prolongado, o ideal é investigar. A avaliação identifica se existe apenas uma sobrecarga funcional ou alguma alteração que precise de tratamento específico”, orienta.
Se a voz é uma das principais ferramentas utilizadas pelo professor, o sistema musculoesquelético faz parte da rotina física. De acordo com o ortopedista Marcelo Ruck, também da Santa Casa de Mauá, ela pode favorecer sobrecargas, nos joelhos, coluna e ombros. “É comum que o professor passe boa parte do dia em pé, caminhe pela sala e, em outros momentos, permaneça sentado para corrigir atividades ou preparar aulas. O problema não está em uma dessas posições isoladamente, mas na repetição e na falta de variação ao longo da jornada”, explica Ruck.
As queixas podem aparecer na região cervical, dorsal e lombar, além de ombros e outras articulações. Os joelhos também podem sofrer com a permanência prolongada em pé, os deslocamentos frequentes e a repetição de movimentos durante as aulas. Já nos ombros, atividades como escrever na lousa, trabalhar diante do computador, organizar materiais e manter os braços elevados repetidamente podem contribuir para o desconforto e a sobrecarga.
Para o especialista, pequenas mudanças na rotina podem ajudar a reduzir a sobrecarga. Alternar posições, fazer pausas curtas durante períodos prolongados diante do computador, ajustar a altura de mesa e cadeira e evitar carregar materiais de maneira inadequada são medidas simples, mas que fazem a diferença. Também é importante evitar permanecer muito tempo na mesma postura e distribuir adequadamente o peso dos materiais utilizados em sala de aula.
“Dor recorrente não deve ser considerada apenas uma consequência natural da profissão. Quando o desconforto persiste ou interfere nas atividades, é importante buscar avaliação médica para identificar a causa”, explica o ortopedista Marcelo Ruck.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
