A Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou novas diretrizes para a prevenção e o tratamento da obesidade em crianças e adolescentes, com recomendações que priorizam mudanças no estilo de vida e restringem o uso de medicamentos para emagrecer a situações específicas. Para a pediatra e especialista em nutrologia pediátrica do Centro Universitário FMABC, Fabíola Suano, o cuidado deve começar antes que o excesso de peso se estabeleça, com acompanhamento do crescimento, alimentação equilibrada e estímulo à atividade física. A médica alerta que o uso indiscriminado das chamadas canetas emagrecedoras entre adolescentes preocupa profissionais de saúde, sobretudo pela falta de dados sobre os efeitos desses medicamentos a médio e longo prazos nessa faixa etária.
Em entrevista ao RDtv, Fabíola explica que crianças com menos de 10 anos não devem receber medicamentos para emagrecer nem passar por cirurgia bariátrica como estratégia de combate à obesidade. Para adolescentes, a indicação farmacológica deve considerar a gravidade do quadro, a presença de doenças associadas e a resposta ao tratamento clínico.
A OMS também não recomenda medicamentos, cirurgia bariátrica ou dispositivos para perda de peso em crianças de 0 a 9 anos. “Acima de 10 anos, o uso das canetas emagrecedoras fica reservado para um grupo muito pequeno, com obesidade grave, comorbidades associadas, que já tentou tratamento clínico e não conseguiu, sempre sob acompanhamento médico”, afirma a especialista.

Os dados da OMS mostram a dimensão do desafio. A prevalência de obesidade entre a população de 5 a 19 anos passou de 2% em 1990 para 8% em 2024. Diante do avanço, as diretrizes reforçam a importância de estratégias de prevenção desde a infância, com atenção aos hábitos familiares e à identificação de sinais de ganho excessivo de peso antes do surgimento de complicações.
Medicamentos exigem avaliação criteriosa
As novas recomendações da OMS priorizam intervenções relacionadas à alimentação, à atividade física e à redução do tempo de tela para crianças de até 9 anos. A organização não recomenda medicamentos para emagrecer, cirurgia bariátrica ou dispositivos para perda de peso nessa faixa etária, enquanto, entre adolescentes de 10 a 19 anos, os fármacos podem ser considerados quando outras estratégias não apresentam resultados após seis meses.
Fabíola explica que a indicação depende da gravidade da obesidade e da presença de comorbidades, como colesterol e triglicerídeos elevados, pressão alta, gordura no fígado e sinais de diabetes. Além de avaliar essas condições, o profissional precisa acompanhar a resposta ao tratamento e considerar os possíveis efeitos dos medicamentos a médio e longo prazo, já que ainda faltam dados sobre as repercussões dessas substâncias entre adolescentes.
“É muito importante que a gente fique atento a isso. A gente tem visto na pediatria o uso exagerado dessas canetas para adolescentes, assim como a gente vê aí para adultos”, alerta a especialista.
A médica ressalta que, nos casos de obesidade grave com doenças associadas, o tratamento pode exigir exames, acompanhamento mais próximo e medicamentos, inclusive para controlar a pressão arterial ou o colesterol. Mesmo nessas situações, as mudanças no estilo de vida continuam essenciais para a manutenção dos resultados e a prevenção de complicações futuras.
Diagnóstico precoce evita agravamento
O acompanhamento desde os primeiros anos de vida permite identificar quando o ganho de peso se afasta do esperado para a idade e a estatura. De acordo com Fabíola, os gráficos de crescimento utilizados nas consultas pediátricas ajudam a reconhecer esses sinais antes que o excesso de peso se transforme em obesidade estabelecida, o que abre espaço para orientações precoces sobre alimentação, brincadeiras e atividade física.
“Quando a gente faz o acompanhamento da criança desde pequena, coloca peso e estatura nos gráficos e observa que está ganhando mais do que deveria, já é possível orientar a alimentação, estimular as brincadeiras e a atividade física e reduzir o tempo de tela antes mesmo de se estabelecer o excesso de peso”, explica a pediatra.
A especialista destaca que a intervenção na infância pode ser mais simples, pois a criança ainda está em fase de crescimento. Em alguns casos, manter o peso ou reduzir o ritmo de ganho já permite que a evolução da estatura contribua para a melhora do quadro. Na adolescência, por outro lado, o tempo para intervir é menor, e as doenças associadas podem exigir estratégias mais intensivas.
A recomendação vale também para famílias que não conseguem acesso rápido a nutricionistas pelo SUS (Sistema Único de Saúde). Fabíola orienta que a alimentação cotidiana priorize arroz, feijão, carnes, frutas, verduras e legumes, com menor presença de produtos ultraprocessados e doces. A identificação do risco e o início das mudanças não precisam esperar que a obesidade se agrave.
Família, atividade física e saúde mental
Para Fabíola, a prevenção da obesidade infantil depende de mudanças que envolvam toda a família e não apenas a criança. Os hábitos dos adultos influenciam as escolhas dos mais novos, por isso a orientação é melhorar a alimentação da casa, estimular brincadeiras e reduzir o tempo diante de telas sem atribuir culpa à criança pelo excesso de peso.
“A obesidade não é culpa diretamente da criança. Ela vive no ambiente familiar. Se tem de mudar a alimentação da criança e do adolescente, a família toda tem que entrar nessa história. A criança não melhora sozinha, a família tem que estar junto”, ensina.
Exemplo dos adultos é fundamental
A atividade física também precisa fazer parte da rotina, sem depender exclusivamente de aulas esportivas formais. Para bebês, brincadeiras no chão e movimentos supervisionados já estimulam a atividade; para crianças maiores, passeios ao parque, caminhadas em família, brincadeiras ao ar livre e esportes de que gostem ajudam a reduzir o sedentarismo. A especialista destaca que o exemplo dos adultos é fundamental para que esses hábitos se tornem parte do cotidiano.
A saúde mental também integra o tratamento. Ansiedade, sintomas depressivos, baixa autoestima e dificuldades de adesão podem exigir acompanhamento psicológico, sobretudo quando questões emocionais interferem na alimentação e na rotina de atividade física. A abordagem deve respeitar as necessidades de cada paciente, sem estigmas ou julgamentos.
A predisposição genética pode elevar o risco de obesidade, mas não determina, isoladamente, o desenvolvimento da doença. Segundo Fabíola, o ambiente e os hábitos familiares exercem influência importante, inclusive desde a gestação e o primeiro ano de vida. Por isso, a orientação é procurar um profissional de saúde diante de sinais de ganho excessivo de peso e manter o acompanhamento pediátrico, com atenção à alimentação, ao movimento e ao bem-estar emocional.
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