
A Polícia Federal (PF) divide em duas frentes as investigações sobre o incêndio que destruiu o prédio da antiga Diretoria de Inovação e Empreendedorismo (Dine) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), no Recife, na noite de quarta-feira (07/10). Segundo o delegado regional executivo e substituto da Superintendência da PF em Pernambuco, Rodrigo Bastos, a investigação concentra-se na identificação da origem do fogo, por meio de perícia no prédio, e na apuração da dinâmica dos fatos que antecederam o incêndio.
“Nesta quinta-feira (8), houve a instauração imediata de inquérito policial, e equipes de perícia e investigação vieram à universidade para iniciar os trabalhos”, afirmou em entrevista coletiva no local do incidente.
O delegado explicou que a perícia depende de melhorias no escoramento e no reforço estrutural, sob responsabilidade da universidade, para que os peritos possam entrar no local com segurança. A operação conta com o reforço de equipes especializadas do Instituto Nacional de Criminalística (INC). Um levantamento inicial no interior da estrutura ocorreu na manhã de quinta-feira (8) com o auxílio de um robô.
O incêndio começou na noite de quarta-feira (7), no edifício localizado no campus da UFPE, na zona oeste do Recife, onde funcionavam laboratórios estratégicos das áreas de fármacos, informática e genética, além do Núcleo de Pesquisas em Inovação Terapêutica (Nupit). O combate ao fogo mobilizou oito viaturas do Corpo de Bombeiros Militar de Pernambuco (CBMPE) ao longo da madrugada, das 19h30 de quarta-feira (7) às 5h de quinta-feira (8). Não houve registro de vítimas.
O reitor da UFPE, Alfredo Gomes, afirmou ter acionado a PF após o recebimento de ameaças de ataques à universidade nas redes sociais. “Há muitos boatos em torno dessa questão. Nós achamos um absurdo uma instituição pública, com a tradição que é a Universidade Federal, ser objeto, portanto, de ataques nas redes sociais. Repudiamos profundamente essa atitude. Então, pedimos à Polícia Federal a abertura de processos em relação às causas do incêndio e também à circulação de ameaças à nossa comunidade estudantil”, afirmou Alfredo Gomes.
O delegado Rodrigo Bastos confirmou que suspeitos foram ouvidos pela PF nesta quinta-feira (8) e que outros devem prestar depoimento nesta sexta-feira (9). Circulam nas redes sociais capturas de tela de conversas em grupos de aplicativos de mensagens e comentários em publicações com ameaças de explosão de departamentos e alertas para que estudantes “fiquem espertos com a bomba”.
Nos últimos oito dias, esse foi o terceiro incêndio registrado em prédios da instituição. O reitor afirmou que os outros dois casos foram solucionados. O primeiro ocorreu no Departamento de Física, devido a um experimento de laboratório, e o segundo, no Centro de Biociências, por causa de um curto-circuito em um aparelho de ar-condicionado, segundo o gestor da UFPE.
O reitor também tranquilizou a comunidade do entorno sobre o risco de vazamento de substâncias perigosas. Segundo ele, todo o material presente no prédio foi consumido pelas chamas, sem risco de contaminação química ou biológica.
O prédio da antiga Dine fica ao lado da Casa dos Estudantes. Os primeiros sinais do incêndio foram vistos em uma das janelas do último andar do edifício de três pavimentos, onde funcionaria um laboratório. Segundo os estudantes, o vigilante da guarda patrimonial responsável pela área tentou chegar ao laboratório para impedir o avanço do fogo, mas a porta estaria trancada por uma trava de segurança.
Emmanoel Bezerra, de 24 anos, morador da Casa dos Estudantes, foi um dos primeiros a observar as chamas. “A gente chegou logo no começo do incêndio dentro do laboratório, no último andar. A gente viu que o fogo já estava fora do laboratório e atingia o ar-condicionado do andar de baixo”, relatou o estudante de Física. Os estudantes registraram vídeos que mostram as chamas no pavimento superior do prédio e na estrutura externa de um ar-condicionado no andar inferior.
“(O fogo) iniciou no laboratório e um pouco da fuligem acabou atingindo o ar-condicionado do andar de baixo. Quando o Corpo de Bombeiros chegou, ainda estava contido no quarto e, então, acabou se espalhando até atingir todo o departamento”, contou Emmanoel. Em frente ao prédio, há um Posto Estático de Vigilância da UFPE, com diversas câmeras de segurança. O reitor não informou se os equipamentos funcionavam no momento do incêndio nem se serão usados na investigação.
“A gente ficou ali um tempo até começar as explosões. As janelas acabavam por estourar, a fumaça aumentava e a gente pensava: ‘Vamos afastar porque está ficando perigoso.’ Quando a gente se afastava, o incêndio avançava mais e mais e consumia tudo. Chegou uma hora que já estava descontrolado e todos os moradores aqui embaixo estavam assustados. Muitos saíram, não ficaram aqui. Mais tarde, a fumaça acabou por entrar, e todos ficaram com um cheiro insuportável”, completou o morador da Casa. O estudante relatou que não houve acionamento do alarme de incêndio e que um estudante que passava pelo local percebeu o fogo.
Willyberg Gonçalves, de 22 anos, foi quem notou a fumaça e acionou a segurança interna do campus. “Eu vinha da academia e avistei o laboratório como se estivesse com a luz acesa, com muita luz. Senti um cheiro de fumaça e percebi que era fogo. Inicialmente, era um fogo explosivo. Depois, ele desceu pela parede e começou a atingir a área de um motor que estava ligado. Nesse momento, o incêndio não era só um fogo: além de se espalhar, causava explosões e liberava gases tóxicos para quem estava por ali”, afirmou o estudante de Fisioterapia.
Alfredo Gomes estimou o prejuízo em aproximadamente R$ 100 milhões e ressaltou a perda de equipamentos de alta tecnologia, bancos de dados e amostras científicas relacionadas a cerca de 200 dissertações de mestrado e teses de doutorado em andamento. Apesar dos estragos concentrados no prédio isolado, as atividades acadêmicas do campus foram mantidas nesta quinta-feira (8), incluindo a Expo UFPE 2026, feira de profissões voltada a estudantes do ensino médio.
Durante visita às instalações atingidas, o ministro da Educação, Leonardo Barchini, anunciou a liberação de cerca de R$ 28 milhões para a construção de um novo edifício. A obra utilizará um projeto executivo já existente, adotado no campus de Sertânia, e tem previsão de início em até 30 dias. Segundo o ministro, o Ministério da Educação (MEC) fará a reposição dos equipamentos destruídos e manterá o pagamento das bolsas de estudo, além dos prazos previstos, pelo tempo necessário.
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