
Poucos temas ganharam tanto espaço nos consultórios, nas redes sociais e nas conversas do dia a dia nos últimos anos quanto as chamadas “canetas” para emagrecimento. Desenvolvidos para o tratamento de doenças crônicas, como obesidade e diabetes tipo 2, os medicamentos injetáveis representam avanços importantes para a medicina, mas também despertam dúvidas sobre indicações, resultados, segurança e, sobretudo, sobre o papel da alimentação e dos hábitos de vida nesse novo cenário terapêutico.
É nesse encontro entre ciência, tratamento e escolhas cotidianas que se insere o livro “A Natureza Ensina a Tratar a Obesidade – O avanço terapêutico e a prudência clínica”, da médica endocrinologista e professora universitária Maria Angela Zaccarelli Marino. A obra foi lançada em 26 de agosto, durante noite de autógrafos na Livraria da Vila do Shopping Pátio Higienópolis, em São Paulo.
A motivação para escrever o livro surgiu da experiência da autora ao longo de décadas de atuação como endocrinologista e do contato direto com pacientes. Na introdução, ela chama a atenção para o crescimento da obesidade, que define como uma das mais importantes desordens nutricionais da atualidade, e para as dúvidas que passaram a surgir com a popularização dos medicamentos injetáveis.
A partir dessas inquietações, Maria Angela realizou uma ampla revisão da literatura científica para discutir não apenas as novas possibilidades terapêuticas, mas também aquilo que considera fundamental para a construção de uma vida saudável: a alimentação e os nutrientes oferecidos pela natureza.
A obra parte de uma questão contemporânea: de um lado, a medicina dispõe de ferramentas que transformaram o tratamento da obesidade e de doenças metabólicas; de outro, a velocidade com que medicamentos e informações circulam trouxe novos desafios para médicos e pacientes.
“Em meio à enorme exposição das terapias injetáveis, muitas vezes tratadas quase como soluções isoladas para a perda de peso, o livro propõe ampliar o olhar e recolocar o cuidado dentro de um contexto mais abrangente, reforçando a necessidade de decisões baseadas em evidências, sem perder de vista a individualização do cuidado”, explica a autora.
A escolha do subtítulo – “O avanço terapêutico e a prudência clínica” – sintetiza essa proposta. Em vez de estabelecer uma oposição entre medicamentos e alimentação, a autora defende uma abordagem integrada. O conhecimento científico e as novas terapias fazem parte do tratamento, assim como a educação alimentar, a avaliação individualizada, o acompanhamento médico e a compreensão dos diferentes fatores envolvidos no desenvolvimento da obesidade.
Ao longo da obra, a discussão aborda o funcionamento do cérebro e os processos cognitivos, metabolismo, obesidade, carboidratos, proteínas, gorduras, vitaminas, minerais e líquidos, além de diferentes alimentos e seus nutrientes. O livro também trata de questões relacionadas às diversas fases da vida, da gestação à infância e ao envelhecimento, e aborda temas como genética, epigenética e inteligência artificial.
A natureza aparece como fio condutor dessa reflexão. A autora recupera, inclusive, ensinamentos atribuídos a Hipócrates para destacar o papel histórico da alimentação na manutenção da saúde. A proposta, porém, não é negar os avanços da medicina moderna, mas colocá-los em perspectiva, ressaltando que medicamentos, tecnologia e inovação não eliminam a importância de fatores fundamentais para a saúde, como alimentação equilibrada, conhecimento, prevenção e acompanhamento adequado.
Destaque acadêmico
O lançamento do livro acrescenta um novo capítulo à trajetória acadêmica e científica de Maria Angela Zaccarelli Marino. Ex-aluna da segunda turma de Medicina da então Faculdade de Medicina do ABC, atual Centro Universitário FMABC, formou-se em 1975 e ingressou na carreira docente da instituição em 1982. Desde então, acumula mais de quatro décadas dedicadas ao ensino, à pesquisa e à formação de profissionais da saúde.
Sua formação inclui residência em Clínica Médica pela FMABC, aperfeiçoamento em Neuroendocrinologia no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), além de estágio em Endocrinologia, mestrado e doutorado pela mesma universidade.
Ao longo da carreira, participou de projetos de ensino e pesquisa em temas relacionados à endocrinologia, saúde ambiental, neurodesenvolvimento infantil e saúde pública. Também exerceu funções de destaque em instituições voltadas às neurociências, como diretora acadêmica e coordenadora de cursos de especialização e aperfeiçoamento.
Sua trajetória acadêmica e contribuição científica foram ampliadas neste ano com a eleição e posse na cadeira nº 1 da Academia Cristã de Letras (ACL).
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
