
A morte confirmada esta semana de uma mulher de 43 anos, por febre maculosa, doença causada por bactéria e transmitida pelo carrapato tipo estrela, foi um alerta para as prefeituras do ABC que mobilizam duas equipes de zoonoses e controle de endemias para informar a população. Não há outros casos até o momento de doentes, mas casos suspeitos estão em investigação. Infectologistas ouvidos pelo RD, explicam como a doença se instala, o tratamento e como se prevenir.
Segundo a Secretaria Estadual de Saúde, o Estado registrou 19 casos confirmados e 18 óbitos por febre maculosa este ano. Entre os casos confirmados, os locais prováveis de infecção foram identificados nas regiões dos GVE (Grupo de Vigilância Epidemiológica) de Piracicaba, com três ocorrências; Campinas, com cinco; Sorocaba, com três; Santo André (São Bernardo pertence a esse GVE), com um; e São José dos Campos, com um. Considerando os óbitos, além do registrado na região, Sorocaba teve três, Campinas, quatro, e mais um em São José dos Campos. Em 2025, foram registrados 61 casos confirmados e 44 óbitos pela doença no Estado.
O médico infectologista Marcelo Otsuka, da SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia) explica que os casos são mais frequentes por conta do período de férias. Locais de mata e onde há rios, costumam ser locais onde o carrapato é mais encontrado. “Grandes veículos para a doença são as capivaras, então perto de rios, onde elas ficam é mais comum a infecção, mas cavalos e outros animais do campo e até mesmo animais domésticos, como cães e gatos, são meios que podem trazer o carrapato até nós”, explica.
A infectologista Elaine Matsuda, diz que mesmo em áreas urbanas, nos parques é possível ser picado por um carrapato. Ela lembra que o Parque do Pedroso, é um local conhecido como fonte de febre maculosa. Além de outras áreas da região como as cidades de Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra, com grandes áreas de mata e a região do entorno da Billings em São Bernardo e Diadema.
Além do período de férias, os meses de inverno coincidem com a reprodução dos carrapatos. “A Região Sudeste apresenta o maior volume de casos nesse período, em especial associados ao vetor A.Sculptum, cuja atividade sazonal aumenta durante os meses mais secos e de transição climática, favorecendo o contato humano. Esse intervalo coincide com a maior proliferação das ninfas do carrapato, estágio considerado mais agressivo e menos perceptível ao ser humano que o adulto, o que aumenta o risco de parasitismo e transmissão”, diz Elaine.
Otsuka explica que a infecção pela doença depende de quanto tempo o carrapato ficou em contado com a pele. Ele não apenas pica e se desgruda ele fica aderido sugando o sangue e a contaminação pela bactéria que ele traz consigo depende do tempo de contato. “O risco maior é quando não se percebe e ele fica por mais de oito horas”, explica o médico que orienta como retirar o carrapato quando dele é descoberto. “Jamais se deve arrancar com a mão de qualquer forma muito menos esmagar. Ele deve ser retirado com uma pinça que deve pegar bem na boca do carrapato onde ele está mordendo”. Depois da remoção o local da picada deve ser lavado com água e sabão ou higienizado com álcool.
Se a pessoa for picada não há necessidade de correr para o atendimento médico, a doença se manifesta depois do período de incubação de cinco dias, em média. Os infectologistas ouvidos pelo RD recomendam a observação. Se um dos sintomas como febre, dores pelo corpo surgirem nesse período aí sim se deve procurar o médico.
Otsuka e Elaine dizem que a demora no tratamento é que complica os casos e a febre maculosa pode matar quatro em cada dez infectados não tratados. “O atraso no tratamento pode levar ao óbito”, alerta a médica. “Tratada precocemente a febre maculosa não deixa sequelas, mas a procura tardia em 40% dos casos leva à morte, por isso, em casos suspeitos, quando há a confirmação de ter frequentado áreas suspeitas e a presença dos sintomas sugestivos, o médico vai indicar o início do tratamento, que é feito com antibióticos”, completa.
ABC
A prefeitura de Rio Grande da Serra informou que não tem casos confirmados da doença este ano e que houve apenas uma notificação, mas que depois não se confirmou para a febre maculosa. A cidade relatou que no ano passado foram registrados três casos, sem óbitos.
Depois do caso de morte em São Bernardo a prefeitura de Rio Grande da Serra preparou agentes de endemias para informar a população sobre os riscos. Para informar o município sobre ocorrência de carrapatos ou pessoas picadas os canais são os da Ouvidoria ou do departamento de vigilância à saúde (11) 2770-0200 ramal 1079, rua Prefeito Cido Franco, nº 500, Vila Arnoud.
A prefeitura de Ribeirão Pires relatou apenas que não tem casos notificados da doença.
Diadema também informou que não teve registros da doença nos últimos três anos. “As ações de Vigilância Epidemiológica monitoram continuamente toda e qualquer zoonose por meio de uma abordagem integrada de Saúde Única (humana e animal). Dúvidas e denúncias podem ser encaminhadas à Unidade de Vigilância em Zoonoses (UVZ) do município: 11 0800 77 10 963 / 11 4059-5892 e 4055-5812”, diz o paço diademense, em nota.
A prefeitura de Santo André informa que não há casos confirmados este ano, mas há situações aguardando confirmação. “Não houve registro de casos confirmados de febre maculosa e, por consequência, nenhum óbito no município em 2026. Neste ano foram quatro casos suspeitos, sendo dois descartados e dois em investigação. De janeiro a junho de 2025 também não foram registrados casos confirmados de febre maculosa. No período, foram dois casos suspeitos, mas descartados”, diz comunicado do paço andreense.
São Bernardo
A prefeitura de São Bernardo informou que, antes do caso da mulher que veio a óbito não tinha casos registrados nem este ano nem no ano passado. Após a confirmação uma ação de fiscalização foi realizada na casa onde a paciente morava e no entorno.
“A prefeitura esclarece que o óbito foi registrado em março, e tão logo a causa foi confirmada, o Departamento de Vigilância Epidemiológica, em ação conjunta com a Divisão de Veterinária e Controle de Zoonoses (CCZ), realizou nas proximidades do provável local de contaminação a busca de carrapatos contaminados e aplicação de pesticidas para combate, além de orientação e capacitação da rede sobre sinais e sintomas para detecção precoce. A vítima em questão, uma mulher de 43 anos, não procurou atendimento médico e a causa só foi identificada após o óbito”.
A prefeitura recomenda cuidados com os animais de estimação. “A Secretaria de Saúde orienta que os moradores tenham cuidados com a circulação dos animais e pets domésticos, pois a contaminação ocorre quando eles frequentam área de mata e se contaminam com o carrapato selvagem. É importante verificar a presença de carrapatos nos animais, usar repelentes ao entrar em locais de mata fechada, e se alguém for picado por um carrapato, deve observar se aparecem sintomas como febre alta e súbita e dores intensas (de cabeça, musculares). Quem apresentar sintomas deve procurar atendimento médico”, orienta a secretaria de Saúde de São Bernardo.
Como se prevenir
Quando não for possível evitar áreas de risco, a recomendação é adotar medidas para reduzir o contato com carrapatos. O uso de roupas compridas e de cores claras facilita a identificação do parasita e diminui o contato direto com a pele. Também é recomendado utilizar repelentes, respeitando as orientações de reaplicação do fabricante.
Caso um carrapato seja encontrado preso à pele, a remoção deve ser feita corretamente:
– Utilize uma pinça para segurar o carrapato e retire-o com movimentos firmes e delicados, evitando esmagá-lo.
– Após a remoção, higienize o local da picada com água e sabão ou álcool.
– As roupas utilizadas em áreas de risco devem ser lavadas em água quente ou fervente para eliminar possíveis carrapatos.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
