
O painel sobre mortalidade materna do Ministério da Saúde aponta que o ABC teve uma sensível queda no número de mortes maternas entre 2024 e 2025, de 0,75% passando de 799 casos para 785. Apesar da queda quatro cidades da região tiveram aumento das mortes de mulheres que se preparavam para a chegados seus bebês, sendo que a maior alta na mortalidade materna é vista em São Caetano, de 27,7%. Na quarta-feira (01/07) a prefeitura confirmou a morte de Vanessa Félix da Silva, de 31 anos, que foi até o hospital sancaetanense, Márcia Braido, para ter sua filha. Após o parto ela teve complicações e morte cerebral atestada.
Segundo o ministério São Caetano atingiu em 2024 o menor número mortes maternas, 36, mas no ano passado o número voltou a subir chegando a 46, resultando na alta de 27,7%. Bem próximo de São Caetano em percentual de crescimento, mas com números absolutos bem menores vem Ribeirão Pires, com alta de 27,3%, resultado das mortes de 22 mulheres em 2024 e 28 no ano passado. Em Santo André a mortalidade materna subiu 3,8%; foram 211 óbitos em 2024 e 219 no ano passado. A mortalidade materna em Mauá subiu 1,5% (de 135 para 137 mortes).
Na outra ponta, onde a mortalidade materna caiu, está São Bernardo, com queda de 1,7%, passando de 233 para 229 casos entre 2024 e 2025, segundo o Ministério da Saúde. Em seguida vem Rio Grande da Serra com queda de 5%, com a redução de um caso, de 20 para 19.
Se na maior parte do ABC a mortalidade materna aumentou, Diadema fez a diferença e conseguiu manter a redução do índice regional. Com 35 casos a menos no ano passado, a cidade teve a maior queda na mortalidade materna no último ano na região, de 24,6%. Em 2025 o município teve o menor número de óbitos deste tipo dos últimos quatro anos; mas ainda assim foram 107 mulheres que perderam a vida perto de terem seus filhos, no parto ou logo após dele. No ano passado tinham sido 142 mortes.
Procurada para comentar sobre a alta na mortalidade materna, a prefeitura de São Caetano não respondeu.
Caso Vanessa
Teve grande repercussão o caso da maquiadora Vanessa Félix da Silva, de 31 anos, que se internou no hospital Márcia Braido, em São Caetano no dia 25/06 em trabalho de parto. Ela estava realizando o sonho de ser mãe de uma menina e já tinha um filho de 10 anos.
Após ter a bebê a mãe teve complicações, foi submetida a três cirurgias para conter uma hemorragia e sua morte foi atestada seis dias depois. A família acusa o hospital de erro médico. Familiares ouvidos pelo RD contaram que ela teria tido uma perfuração no útero que teria causado a hemorragia. Também acusaram o hospital de informações desencontradas, em momento falaram da morte clínica sendo que outros funcionários falavam que ela estava viva. Com isso a família praticamente acampou na porta do hospital em vigília.

A prefeitura negou erro médico, disse que tudo foi feito para salvar a paciente. “Após o parto, a paciente apresentou sangramento interno, sendo encaminhada para nova intervenção cirúrgica. Com registro de hemostasia (parada do sangramento), foi encaminhada para UTI. Com surgimento de novo sangramento, a equipe médica realizou nova intervenção cirúrgica para realização de histerectomia total (retirada do útero). Antes da realização da histerectomia, a paciente teve uma parada cardíaca em decorrência da perda excessiva de sangue. Todo esse atendimento aconteceu no período de 12 horas”.
Sobre o desencontro de informações que alongaram a angústia dos familiares a prefeitura atribuiu a culpa a uma funcionária que foi demitida. “Em nenhum momento se omitiu da família o quadro da paciente. Inclusive, foi liberado acesso total dos familiares à UTI – na última sexta-feira (26/6), 27 familiares foram autorizados a visitar a paciente. A Secretaria esclarece, ainda, que informações inverídicas sobre o estado de saúde da paciente foram repassadas, de forma indevida, por um porteira terceirizada, sem qualquer participação da equipe médica ou autorização da instituição. Essa prestadora foi demitida”.
Advogado da família aguarda laudo do IML
Diante da suspeita levantada pela família de erro médico, o advogado José Santana Júnior, especialista em Direito da Saúde, e que representa a família de Vanessa, disse que ainda é cedo para conclusões e que vai esperar o laudo do IML (Instituto Médico Legal) para definir os próximos passos.

A atuação de Júnior tem sido de amparar a família, de acompanhamento para a realização do boletim de ocorrência. “O atestado de óbito não traz elementos que possam apontar morte suspeita, por isso precisamos esperar o laudo do IML. A alegação de que Vanessa tinha uma gravidez de risco – histórico de eclâmpsia – não foi confirmada pela família que sustenta que a gravidez foi normal, inclusive com rotina de consultas de pré-natal e exames. Eu orientei a família, na delegacia, a falar sobre a suspeita do erro médico, diante das três cirurgias. Eu acredito na polícia e o legista fará essa averiguação. Com o laudo, mais o prontuário médico, pode-se iniciar a apuração e só depois pensar em responsabilização”, diz o advogado.
Mesmo com a conclusão do IML, o advogado não descarta a possibilidade da solicitação de um novo exame pericial. Santana Júnior também disse que a família não tem intenção indenização pecuniária. “Não se trata de uma questão financeira, mas de apuração de possíveis falhas do hospital”, completa.
Vice-prefeita e ex-secretária de saúde de S.Caetano fala de falha de comunicação e do secretário
Em entrevista ao RDCast nesta quinta-feira (02/07) a vice-prefeita de São Caetano, a médica Regina Maura Zetone, que por mais de 20 anos foi secretária de saúde da cidade, contou que esteve no hospital, conversou com a família e que foi averiguar os procedimentos a que Vanessa Félix da Silva foi submetida. Para ela não houve erro médico, mas uma falha de gestão em relação às informações passadas à família. Ela também diz que mortes maternas são casos raros.

Afastada do governo, Regina Maura disse que houve falha da gestão hospitalar em acolher a família e passar as informações corretas. “O que houve foi um déficit de comunicação e de acolhimento da família, isso houve com certeza, porque naquele momento onde havia um desespero, que não sabiam o que estava acontecendo o diretor ou o médico deveriam ter chegado à família para explicar aquilo que fui explicar depois. Faltou acolhimento e a comunicação da pessoa correta, isso não se comunica por nota, muito menos por segurança. Quem orientou essa segurança? A diretoria do Hospital tem obrigação de estar presente nestes momentos de crise porque um dos papéis do diretor, e do secretário, é mediar crises”, observa.
Diferente dos números do Ministério da Saúde, a vice-prefeita de São Caetano diz que os casos de mortalidade materna são raros. Ela diz lembrar-se de um em sua gestão na pasta de saúde. “A lição que se tira desse episódio é que o secretário tem que estar presente, sempre. Secretário tem que estar na linha de frente, é um cargo extremamente árduo. Caso de óbito materno é gravíssimo, a mortalidade materna é o que é mais visada na gestão pública, nos índices de efetividade do serviço de saúde. Casos de morte de mãe são raros, eu lembro de um em 20 anos que eu estive lá como secretária, que foi trombose e embolia pulmonar, que não tinha muito que fazer”, recorda. No caso de Vanessa a vice-prefeita apoia a investigação. “Neste caso a família tem direito a buscar a apuração”, conclui.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
