
* Alerta: a reportagem abaixo trata de temas como suicídio e transtornos mentais. Se você passa por problemas, veja ao final do texto onde buscar ajuda.
Acostumado a audiências massivas, o diretor de televisão Ricardo Waddington, de 65 anos, volta ao teatro com a intenção de se comunicar com amplas plateias. A peça #malditos16, escrita pelo dramaturgo espanhol Nando López, que estreou nesta quinta-feira (16/04), no Teatro Faap, em São Paulo, parte do complexo universo adolescente para atingir todas as faixas etárias.
O tema central é um tabu, o suicídio, que, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), tira anualmente a vida de 700 mil jovens entre 15 e 29 anos, mas a discussão é urgente e rara na arte. A trama envolve quatro jovens que se conheceram aos 16 anos em uma clínica psiquiátrica depois de tentativas de tirar a própria vida e, na casa dos 20, se reencontram como participantes de um programa assistencial a meninos e meninas impactados por dramas semelhantes.
O quarteto é interpretado por Pedro Waddington, Sara Vidal, Benjamín e Julia Maez, cujos personagens enfrentam problemas relacionados à violência doméstica, abuso sexual, homofobia e gordofobia. A atriz Helena Ranaldi vive a psiquiatra Violeta, e o ator Matheus Sousa é seu assistente. “É um tema difícil, duro, que eu mesma falo baixinho, mas isso não pode acontecer”, afirma a atriz, que foi casada com Waddington e é mãe de Pedro. “Precisamos falar bem alto porque tratamos de vida e não de morte.”
Waddington salienta que muito mudou no comportamento dos jovens nas últimas décadas, principalmente após a popularização da internet — e, frequentemente, os pais não se dão conta desses efeitos na rotina dos filhos. A principal diferença é o aumento da solidão. “Na minha adolescência, nos anos 1970, encontrava os amigos na praia ou nos bares para discutir os livros que lia e as músicas que ouvia”, lembra. “O cotidiano dos adolescentes sempre se dividiu entre a casa, a escola e a rua, mas, agora, a rua foi substituída pelo quarto e o computador.”
O diretor é pai de dois filhos de gerações diferentes. A primeira, Isadora, de seu casamento com a ex-atriz e psicóloga Lídia Brondi, tem 41 anos e nasceu em um tempo em que a internet não existia. Pedro, de 28, cresceu junto à febre digital e, mesmo que tenha tido uma infância menos solta que a de Isadora, desfrutou de certa liberdade. “Eu sempre estive presente na criação dos dois e acho que consegui antecipar situações delicadas”, declara.
Helena, de 59 anos, concorda com o pai de seu filho e reconhece a importância de uma rede de apoio para que os jovens se sintam seguros diante de qualquer sinal de dificuldade. “Já passei por momentos em que percebi o Pedro frágil emocionalmente e fiz o que pude para acolhê-lo”, afirma. “Essa peça me toca ainda mais como mãe porque nos mostra que é necessário estar atento a qualquer movimento dos nossos filhos.”
Quem pensa que Waddington, experiente na televisão, só agora testa a versatilidade nos palcos se engana. Ele começou a carreira no teatro infantil. Dirigiu peças como Um Telefonema para o Japão e Alguns Anos Luz Além, entre 1980 e 1982, e, para as plateias adultas, encenou Descalços no Parque, comédia romântica protagonizada por Lídia Brondi e Thales Pan Chacon (1956-1997), em 1990. Por quatro décadas, foi um dos principais nomes da Rede Globo, chegou a cargos executivos, como o de coordenador de teledramaturgia e diretor dos Estúdios Globo, função que ocupava na época de seu desligamento, em 2023. “Foi uma saída tranquila, que eu já havia organizado há três anos, inclusive financeiramente”, garante.
Produções marcantes, como as novelas Laços de Família, A Favorita e Avenida Brasil, a minissérie Presença de Anita e o programa Amor e Sexo, levaram sua assinatura. Mas foi a bagagem adquirida nos dez anos em que esteve à frente da novela adolescente Malhação, durante toda a década de 2000, a que mais contribuiu para o entendimento de #malditos16. Em sua gestão, o programa trouxe polêmicas, como bullying, homossexualidade, HIV e interrupção de gravidez e, segundo ele, nenhuma discussão era proibida. O que mudava era a forma de tratá-la.
“Aprendi a falar com um público gigantesco na TV e preciso ter cuidado ao abordar a saúde mental dos jovens”, reconhece. “Os 50 minutos de um capítulo de novela não são suficientes para certos conteúdos, como o suicídio, mas o teatro proporciona uma experiência estendida que ajuda a pessoa a não ir para casa com a cabeça cheia de demônios.”
Em meio aos ensaios de #malditos16, Waddington desenvolve jornada dupla no projeto que marca seu retorno à Globo, desta vez contratado por obra. Ele será o diretor de Avenida Brasil 2, continuação do fenômeno do novelista João Emanuel Carneiro exibido em 2012, que retoma a trama de vingança e rivalidade entre a chef de cozinha Nina e a madrasta Carminha (interpretadas por Débora Falabella e Adriana Esteves).
As gravações começam em setembro, com estreia prevista para janeiro, e Waddington evita o assunto para não revelar qualquer spoiler. “O João Emanuel está afiadíssimo e vai ser muito bom”, garante. “Volto à TV porque adoro me relacionar com os atores, comandar um set, e isso eu aprendi no teatro.”
Helena, que trabalhou com Waddington em pelo menos dez produções televisivas, afirma que conheceu um novo parceiro nos ensaios de #malditos16. “É outra forma de enxergar o processo e de se colocar diante de nós, atores e atrizes, mais tranquila e focada”, compara.
Sobre trabalhar com Pedro, que estreou nos palcos em O Retorno, peça do norueguês Fredrik Brattberg dirigida por José Roberto Jardim em janeiro deste ano, Waddington dispensa a preocupação em separar os papéis de pai e diretor. “Eu quero justamente ter essa experiência ao lado do meu filho”, afirma. “Se buscasse algo diferente, escalaria outro ator.”
#malditos16
– Onde: Teatro Faap. rua Alagoas, 903 – Higienópolis
– Quando: Quarta e quinta, 20h. De 16/4 a 4/6
– Quanto: R$ 100
Onde buscar ajuda
Se você está passa por sofrimento psíquico ou conhece alguém nessa situação, veja abaixo onde encontrar ajuda:
Centro de Valorização da Vida (CVV)
Se precisar de ajuda imediata, entre em contato com o Centro de Valorização da Vida (CVV), serviço gratuito de apoio emocional que oferece atendimento 24 horas por dia. O contato pode ser feito por e-mail, pelo chat no site ou pelo telefone 188.
Canal Pode Falar
Iniciativa criada pelo Unicef para oferecer escuta a adolescentes e jovens de 13 a 24 anos. O contato pode ser feito pelo WhatsApp, de segunda a sexta-feira, das 8h às 22h.
SUS
Os Centros de Atenção Psicossocial (Caps) são unidades do Sistema Único de Saúde (SUS) voltadas ao atendimento de pacientes com transtornos mentais. Há unidades específicas para crianças e adolescentes. Na cidade de São Paulo, são 33 Caps Infantojuvenis.
Mapa da Saúde Mental
O site traz mapas com unidades de saúde e iniciativas gratuitas de atendimento psicológico presencial e online. Também disponibiliza materiais de orientação sobre transtornos mentais.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
