
No dia 11 de novembro, a morte de Fred, um Spitz Alemão de um ano e quatro meses, poucas horas após ser castrado na clínica veterinária Cia do Bicho, em São Bernardo, levou os responsáveis Mayara Cunha Alves e Wander Soares Silva a denunciarem o estabelecimento. O caso foi registrado em boletim de ocorrência na quinta-feira (13/11).
Segundo o casal, Fred demorou mais do que o esperado para despertar da anestesia e, ao acordar, apresentava sinais de extremo desconforto e desorientação. “O meu cachorro não estava bem. Ele latia sem consciência, chorava e não se mantinha em pé”, relata Mayara, tutora do cachorro. Segundo ela, o estado do animal na alta não condizia com as justificativas da equipe médica.
A família diz ainda que a clínica publicou informações nas redes sociais que não correspondem ao que ocorreu durante a internação. Em nota divulgada pela Cia do Bicho, a empresa afirma que os responsáveis recusaram exames pré-operatórios, como hemograma e eletrocardiograma – versão negada por Silva. “A funcionária perguntou se o Fred tinha problema cardíaco ou outra doença. Respondemos que não, e ela disse que não precisava de exame nenhum”, afirma. Ele reforça que jamais recusaria exames que garantissem a segurança do animal.
Após perceberem que Fred não evoluía bem, os responsáveis afirmam ter sido orientados pela própria clínica a buscar atendimento em outro hospital. Eles seguiram para a unidade do Dr. Hato, também em São Bernardo, onde o cão chegou em estado mais grave do que o descrito na alta. “O Fred foi entregue em cima de uma fralda, com sangue e urina. Disseram que era efeito de medicação, mas no outro hospital ouvimos que aquilo não era normal”, afirma Silva.
Ao chegarem à nova clínica, a família foi informada de que Fred apresentava pneumotórax e enfisema subcutâneo – quadros considerados incompatíveis com uma castração simples. “Ouvi do doutor dizer que um cão só chega assim após algum tipo de trauma, e deixou claro que aquele estado não era consequência comum de uma castração”, conta Mayara.
Os responsáveis dizem que pediram o laudo do procedimento realizado na Cia do Bicho, mas não obtiveram retorno. Silva afirma não ter conseguido contato com o veterinário responsável. “Pedi o laudo e nada. Fui bloqueado, minha esposa também. Comentários nas redes sociais foram apagados. Em vez de esclarecer, eles se esconderam”, diz. Fred permaneceu internado no segundo hospital, sofreu uma parada cardiorrespiratória e morreu. O casal agora busca contestar a versão da clínica na Justiça.
O que diz a Cia do Bicho
Em posicionamento publicado no Instagram, a clínica afirma que recomendou exames pré-operatórios e que os responsáveis optaram por não realizá-los, assinando termo autorizando a castração mesmo assim. A empresa diz que Fred despertou da anestesia horas depois e que, no momento da alta, não apresentava sinais de comprometimento respiratório. Segundo Ricardo Castro, veterinário e fundador da Cia do Bicho, o encaminhamento ao outro hospital ocorreu apenas para “acompanhamento noturno em regime de semi-intensiva”.
A clínica afirma realizar cerca de 100 cirurgias por dia e diz não ter registrado complicações semelhantes nos últimos meses. O veterinário também declara que não é possível estabelecer relação direta entre o procedimento e os problemas identificados no segundo hospital.
A equipe do RD tentou contato telefônico e através das redes sociais com a Cia do Bicho, mas sem sucesso. O espaço segue aberto.
Do ponto de vista clínico
O caso chegou ao conhecimento de Gustavo Nogueira, professor de Cirurgia e Fisiologia da Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS). O médico veterinário acompanhou a repercussão nas redes sociais, vídeos e depoimentos dos responsáveis. Segundo o docente, apesar de ser um procedimento comum, a castração exige os mesmos cuidados de qualquer outra cirurgia.
“A castração não deve ser vista como uma operação de baixa complexidade. É uma intervenção moderadamente complexa, que só deve ocorrer quando o paciente apresenta condições clínicas seguras. Exames pré-operatórios fazem parte desse processo, e sem exames não existe cirurgia responsável”, afirma o professor.
Nogueira explica que exames pré-operatórios evitam riscos ocultos. “Caso o responsável recuse os exames, não deve ser autorizada a ida ao centro cirúrgico. O cirurgião assume o risco técnico. Sem avaliação completa, a cirurgia se torna imprudente. Muitas doenças silenciosas só aparecem nos exames, e a anestesia pode agravar esses problemas de forma fatal”, diz.
O professor compara o cuidado necessário ao da medicina humana. “Ninguém passa por cirurgia sem exames, e a mesma lógica deveria valer para animais. Exames pré-operatórios não são opcionais”, afirma.
Para Nogueira, a responsabilidade é compartilhada. “O responsável deve buscar profissionais que respeitem protocolos. O veterinário deve recusar qualquer cirurgia eletiva sem exames prévios. Essa é a única forma segura de trabalhar”, completa.
Caso anterior
Em 12 de setembro, a Cia do Bicho também foi alvo de críticas após a morte de Mia, cadela que era paciente da unidade há nove anos. Segundo os responsáveis, ela recebeu alta debilitada após uma cirurgia de piometra, voltou a ser internada dias depois com anemia severa e piorou mesmo após transfusões. Eles afirmam que solicitaram uma endoscopia por suspeita de hemorragia, mas que o exame foi recusado.
Na ocasião, a clínica apresentou versão contrária, afirmando ter seguido todos os protocolos, realizado exames e informado a família em todas as etapas. A empresa também disse que a endoscopia não era recomendada devido ao risco anestésico e que registros em vídeo mostrariam tentativa de impedimento físico da equipe durante a reanimação da cadela.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
