
Moradores do bairro Utinga e arredores, em Santo André, voltaram a relatar a presença frequente de cavalos circulando sozinhos pelas ruas. A situação, que se intensificou nos últimos meses, levanta preocupações sobre riscos de acidentes, saúde pública e bem-estar animal.
Em março deste ano, o RD noticiou duas ocorrências semelhantes envolvendo os bairros Utinga, Vila Metalúrgica e Camilópolis. Segundo relatos da comunidade, os animais não estão abandonados, mas são deixados soltos por seus proprietários, gerando problemas que vão desde o risco de atropelamentos até fezes nas calçadas. Na época, a Prefeitura informou não ter sido oficialmente notificada sobre os casos.
Um morador da região, que preferiu não se identificar, afirma que a criação de cavalos – e até vacas – é comum na Vila Industrial, bairro vizinho da Utinga. “É comum ver pessoas montadas nos animais pelas ruas. Os carros simplesmente precisam parar e esperar. É perigoso para os motoristas e para os próprios animais”, alerta.
Segundo ele, o risco aumenta quando os cavalos estão soltos. “As ruas não têm semáforos nem radares, e muitos motoristas abusam da velocidade. Pode acontecer um acidente grave a qualquer momento”, denuncia. Ele também aponta problemas recorrentes como calçadas sujas de fezes e lixo espalhado.
Em 26 de março, uma ação da Prefeitura de Santo André, por meio do Semasa, flagrou um abatedouro e criadouro ilegal de animais na região da Utinga, após denúncia da Polícia Militar sobre circulação de bovinos nas ruas. A operação também identificou maus-tratos. Os animais foram encaminhados a ONGs e os responsáveis, conduzidos à Delegacia de Crimes Ambientais (Dicma), que conduz as investigações.
O veterinário e professor Gustavo Nogueira destaca os principais riscos da presença desses animais em vias urbanas. “A maior ameaça é o atropelamento. Cavalos não estão acostumados ao tráfego urbano e podem se assustar facilmente, o que resulta em colisões graves, fraturas, lesões internas e, muitas vezes, morte”, explica.
Além disso, o contato com lixo pode agravar a situação. “Eles podem ingerir plásticos, metais ou restos de alimentos, o que leva a intoxicações, obstruções intestinais e até perfurações”, diz. A estudante de medicina veterinária Elisângela Borges complementa: “A alimentação inadequada causa cólicas graves, que podem levar o animal à morte. Cavalos são extremamente sensíveis a esse tipo de problema”.
Outro ponto de alerta é o risco sanitário. “A maioria desses animais não é vacinada nem vermifugada, o que os torna vulneráveis a doenças infecciosas e parasitárias. Alguns desses agentes podem ser transmitidos a outros animais ou até aos humanos, como é o caso das zoonoses”, reforça Nogueira.
O acúmulo de fezes nas calçadas também é um problema. “Um cavalo pode produzir entre 15 e 25 quilos de fezes por dia. Em vias públicas, isso contribui para a contaminação do solo e da água, especialmente em dias de chuva, além de atrair vetores como moscas e ratos”, acrescenta o veterinário. “A gestão desses animais, desde o recolhimento até o tratamento veterinário, gera custos consideráveis ao município, desviando recursos de outras áreas prioritárias”.
Em nota, a Secretaria de Saúde, por meio do Departamento de Bem-Estar e Proteção Animal, informou que não recebeu ocorrências recentes envolvendo cavalos soltos. Sempre que há denúncia, uma equipe é enviada para verificar, mas muitas vezes os animais já não estão mais no local. As denúncias podem ser feitas pelo telefone 0800-019-1944, pelo aplicativo Colab ou diretamente com o departamento, pelo número 4433-1958.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
