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Deslizamento ameaça cerca de 60 mil pessoas na região


quinta-feira, 6 de outubro de 2011 23:30 [Nenhum Comentário]
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Da Redação
Foto: Marciel Peres

As chuvas de verão ainda estão longe de começar, mas a preocupação das quase 60 mil pessoas que vivem em encostas espelhadas por seis das sete cidades da região (o relevo de São Caetano é completamente plano) é constante. O solo irregular, as construções desordenadas e a umidade da terra – resultado do esgoto jogado constantemente nas proximidades das residências – colocam milhares de famílias em risco o ano todo, principalmente nos meses entre dezembro e março.

Para evitar mais mortes – só neste ano foram cinco –, as prefeituras e a defesa civil da região já começaram a se movimentar. Além de começar as ações de prevenção com um mês de antecedência, algumas administrações seguem na busca de investimento para tentar evitar mais óbitos.

Apesar da Prefeitura de Mauá afirmar que um estudo está sendo feito para levantar o número de famílias que vivem nestes locais, o prefeito Oswaldo Dias disse no início deste ano acreditar que cerca de 40 mil pessoas vivem em áreas de risco de deslizamento, ou seja, o equivalente a metade da população que vive do Jardim Zaíra.

A administração ressalta ainda ter concluído no primeiro semestre deste ano uma série de obras de drenagem e contenção. Somente no Jardim Zaíra foram construídos muros de arrimo na rua Antônio Calegari e entre a rua Aristides Lopez e avenida Saturnino João da Silva. Na esquina da avenida Adilson Dias de Souza e da rua Remo Luiz Corradini foi feito o redimensionamento da galeria pluvial, auxiliando no escoamento da água. Em outros pontos da cidade, como nas ruas Vitória e Bernardino José Soares, nos jardins Paranavaí e Luzitano, respectivamente, também foram construídos muros de arrimo.

São Bernardo

São Bernardo contabiliza 44 áreas que sofrem com o risco de deslizamento, o que somam pouco mais de 1,6 mil unidades habitacionais, ou seja, 6,5 mil pessoas vivem em encostas. As regiões que agrupam o maior número de unidades habitacionais são vila São Pedro/Grotão (352), Parque São Bernardo (235), Jardim Silvina (206) e Parque Imigrantes (161).

A Prefeitura destaca que nem em todos locais onde há RE3 (risco alto de escorregamento) e RE2 (risco médio de escorregamento) é necessária a remoção de moradores, uma vez que as áreas são monitorados de forma permanente por técnicos da Defesa Civil. Além disso, as 1,5 mil unidades habitacionais que eram consideradas R4 (risco muito alto de escorregamento) já foram removidas dos morros.

O Semasa (Serviço Municipal de Saneamento Ambiental de Santo André) informa que a Defesa Civil tem cadastrado e monitorado 23 áreas de risco geológico em todo o município. As áreas da cidade que apresentam maior risco na questão dos deslizamentos são os bairros Jardim Irene, Jardim Santo André e Recreio da Borda do Campo. No total, 9,4 mil moradores vivem nestas áreas.

Apesar de não revelar o número de pessoas que vivem em encostas, a Prefeitura de Ribeirão Pires garante acompanhar constantemente caso a caso de cada situação de risco. Os principais locais com riscos estão nos bairros Jardim Caçula, Jardim Mirante, Ouro Fino e Parque Aliança.

Entre os projetos voltados ao setor de habitação, a Prefeitura de Diadema mantém um Plano de Manutenção, principalmente em núcleos instalados em área de alta declividade, sujeitos a eventuais deslizamentos. A execução do Plano de Manutenção e das medidas preventivas de acompanhamento social e de obras de infraestrutura permitiu e tem contribuído para que o município não registre vítimas fatais nestes últimos anos, principalmente nos períodos de chuvas intensas.

Dentro do Plano, a construção de muros de arrimo e de galerias, bem como a manutenção dos núcleos urbanizados, com infraestrutura deteriorada, se destacam como as ações mais efetivas para eliminar os riscos de enchentes e deslizamentos. A expectativa é que cerca de 2,2 mil famílias sejam beneficiadas com unidades habitacionais até o fim de 2012. Este número é praticamente metade da demanda prioritária da cidade, que hoje é de 4.400 moradias.

Defesa Civil aposta na agilidade

Depois das cinco mortes ocorridas no ABC no último verão, o comando regional da Defesa Civil já iniciou a ofensiva para agilizar o acesso dos técnicos às informações que ajudam a antever as catástrofes e, consequentemente, evitar mortes. A Operação Verão, com início previsto para novembro, terá um diferencial neste ano. Fruto de uma parceria com o DAEE (Departamento de Águas e Energia Elétrica), a Defesa Civil de cada município terá acesso direto à Central de Informações do Estado que capta, por meio de radares e satélites, dados meteorológicos.

Deste modo, cada unidade terá uma senha eletrônica para acessar o sistema a qualquer momento. Até então, o ABC não tinha acesso direto e dependia de informações solicitadas ao departamento em São Paulo. “Isso vai nos permitir prevermos fortes chuvas com mais horas de antecedência e, assim, evitar tragédias”, diz o coordenador regional da Defesa Civil, Eduardo Drigo da Silva.

Além de iniciar a preparação para as ‘grandes chuvas’ com um mês de antecedência em relação ao último verão – em 2010 as ações tiveram início em dezembro –, o comando da defesa civil conseguiu o aporte de R$ 700 mil para aquisição de duas viaturas para cada município. Um veículo leve e um furgão auxiliarão no atendimento e no treinamento das pessoas que vivem em áreas de risco.

Parceria

Ainda na seara de ações para agilizar e combater deslizamentos, Drigo cita o estudo de uma parceria com a UFABC (Universidade Federal do ABC) para a realização de pesquisas que possam apontar soluções para as encostas da região. Mesmo com o esforço concentrado, o coordenador afirma que não vislumbra acabar com as áreas de risco num curto espaço de tempo. “Não é fácil evitar áreas de risco. Isso passa pelo déficit habitacional. Tem a necessidade de terreno, de investimento e de construção de moradias”, diz. “Eu quero crer que existem medidas para evitar óbitos, mas danos materiais vão continuar existindo”, completa.

Especialista cobra ação dos governos

O déficit habitacional, a falta de investimentos e de controle para evitar a construção de moradias em locais indevidos tornam o verão sinônimo de deslizamentos nas encostas do ABC. Para especialistas no assunto, faltam medidas públicas para orientar e reprimir a instalação de casas em morros.

Segundo José Mariano, doutor em geografia pela USP e professor da Fundação Santo André, nem todos os municípios consideram as questões das encostas e a possibilidade de deslizamento na hora de autorizar a construção de empreendimentos. “Muitas vezes o que vale mais é o retorno financeiro”, critica.

Kurt Amann, coordenador do curso de Engenharia Civil da FEI (Fundação Educacional Inaciana) também acredita que falta ação das três esferas do governo para solucionar ou ao menos amenizar o problema. “Mesmo assim, dificilmente qualquer administração daria conta de construir moradia para toda a parcela da população que está nas encostas”, ressalta.

Mariano ainda defende que a conscientização da população e ações preventivas podem minimizar futuras tragédias. “Evitar a ocupação de áreas de risco e orientar quem vive neste locais a alertar um ao outro durante as chuvas sobre possível deslizamentos é fundamental para evitar mortes”, completa. Para Amann, se o período de chuva for longo e intenso, novas mortes serão registradas na região. “O risco de deslizamento não pode cair no esquecimento durante o ano”, lembra.

Desencadeadores

O professor de geografia explica que não é apenas a chuva a responsável pelos deslizamentos. A falta de vegetação (que faz com que a água da chuva não seja absorvida para o lençol freático), a alteração no terreno das encostas para realizar as construções inapropriadas e os esgotos ao ar livre que ficam constantemente no solo também são responsáveis pelo escorregamento de vertentes. “O solo é igual uma esponja, absorve toda a água até ficar encharcado”, exemplifica.

Apesar de ser comum o uso de lonas nas áreas de risco para evitar o contato da água da chuva com o solo, o engenheiro civil afirma que a medida apenas retarda a ruptura do solo. Outro recurso bastante usado é a plantação de bananeiras. Mariano afirma, porém, que a medida é errônea e apenas aumenta os riscos. “Esta planta pode acumular até três mil litros de água e eleva o peso no solo”, alerta.

Moradores têm medo de novas tragédias

Mesmo após o susto e a tristeza das tragédias ocorridas nos últimos verões, alguns locais de risco continuam ocupados por famílias que permanecem na rota do perigo. Depois de um deslizamento matar duas pessoas e deixar cerca de 200 desabrigadas no morro do Macuco, em Mauá, em janeiro deste ano, é possível avistar novas casas sendo construídas no alto da encosta.

A dona de casa Creuza de Souza Vieira perdeu a casa e um filho de 16 anos na tragédia. Depois de se mudar de casa, não tem mais coragem de ir ao local do deslizamento nem para visitar a irmã, que segue vivendo no local. “Comecei a receber o auxílio aluguel de R$ 300 só agora em setembro, até então tive que me virar para achar outro lugar e pagar o aluguel”, reclama Creuza.

A irmã da dona de casa, Neide Souza Silva, ainda mora no morro do Macuco local e explica que nenhum representante da Prefeitura vai até o local verificar a situação. “Agora que as chuvas fortes vão voltar não tem nem como a gente ficar sossegado”, diz, emocionada. Quem permanece próximo às encostas afirma não sair por não ter para onde ir. “É um drama que a gente não deseja pra ninguém. Muita gente ainda vai morrer aqui”, afirma o aposentado Bento Freire da Rocha. Procurada pela reportagem, a Prefeitura de Mauá não se posicionou para explicar o que será feito com essas famílias.

Ribeirão

Quase dois anos após um deslizamento matar mãe e filhas na rua Anchieta, no bairro Santo Bertoldo, em Ribeirão Pires, quatro casas seguem interditadas no local. A dona de casa Josinéia Cordeiro mora no mesmo terreno onde a tragédia aconteceu e explica que na época do deslizamento teve que ficar fora da casa por dois meses, mas que logo em seguida voltou e, por conta própria, limpou o terreno que até agora não recebeu nenhuma ação de contenção da Prefeitura. “Não vejo sentido em sair da minha casa. Moro aqui há 26 anos, é tudo legalizado. Por que vou sair para receber um auxílio-aluguel de R$ 300?”, questiona.

A casa fica próxima a um barranco onde mais três casas estão instaladas. Uma delas é do funcionário público Rafael Paulino. “Ficamos tensos com a chegada verão, não dá nem para dormir tranquilo. A promessa da Prefeitura é que em novembro comece a limpeza do terreno”, fala Paulino.

A Prefeitura de Ribeirão Pires afirmou que a ação na rua Anchieta está inserida dentro de um plano de trabalho para recuperação de morros e encostas aprovado nesta terça-feira (4) pelo Governo Federal.

Em Santo André, um deslizamento atingiu um barraco na viela Sete da rua Lamartine, no Jardim Santo André, e matou Antonio Soares Ribeiro, de 47 anos, em janeiro de 2010. Os barracos localizados no endereço foram removidos e a encosta foi reconstituída. No mesmo bairro, o panfleteiro Tiago Ferreira Farias mora há 17 anos próximo a um morro e afirma não considerar o local área de risco. “Já vi várias famílias sendo retiradas da região. Dizem que eu também terei de sair, mas até agora ninguém deu certeza”, explica Tiago.


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