Indústria está com o sinal amarelo ligado, alerta diretor do Ciesp São Bernardo

Com cinco montadoras instaladas em seu território, a economia de São Bernardo segue apoiada no setor automotivo. Apesar de ter representantes de outros segmentos, como químico e alimentício, a cadeia que envolve automóveis representa 80% de toda a receita gerada pela indústria na cidade, que representa 40% de todo o orçamento.

Segundo o diretor titular do Ciesp (Centro das Indústria do Estado de São Paulo) São Bernardo, Hitoshi Hyodo, as montadoras passam por um bom momento, mas tal sentimento não chega até os setores de autopeças e ferramentaria, que demitem funcionários. E revela a sensação de que o sinal amarelo foi ligado para o setor.

A explicação para o cenário contraditório é a concorrência desleal com importados. “Conseguimos reduzir os estoques das montadoras quase pela metade nos últimos meses, o que é uma notícia positiva. Por mais que a montadoras estejam num momento confortável, os pedidos de peças não chegam aqui, pois as montadoras estão trazendo tudo de fora”, explica o diretor do Ciesp São Bernardo.

Para amenizar esta situação, o Ciesp aposta, entre outras coisas, no regime automotivo que deverá vigorar entre 2013 e 2017. “Este regime consiste em uma série de dispositivos legais para beneficiar a indústria nacional, como exigência mínima de conteúdo local”, destaca o diretor.

Outro ponto abordado por Hitoshi Hyodo durante participação no RDtv é a importância de ações práticas com relação ao setor de petróleo e gás. “Precisamos começar a receber cotações. Capacidade nós temos de nos tornarmos fornecedores, mas agora falta algo prático”, diz.

Confira a entrevista com o diretor do Ciesp:

RD: Como está a indústria em São Bernardo?

Hitoshi: Está como sinal amarelo. A situação não está boa, mas também não está um caos. Estamos vendo a atividade como um todo com atenção, São Bernardo é fortemente ancorado no setor automotivo. Percebemos que as montadoras de veículos leves estão retomando a produção por conta da redução do IPI para carro popular, mas este benefício não está chegando na cadeia produtiva. O setor de autopeças não está recebendo pedidos das montadoras.

RD: O novo regime automotivo é importante para o desenvolvimento da indústria?

Hitoshi: Muito importante, tanto quanto a questão de reduzir o IPI, na qual o ministro Guido Mantega tem dito que não vai prorrogar. A redução do IPI não pode ser favor do governo, isso mostra que a partir do momento que você reduz impostos, consegue vender mais produtos. Isso não é só para a cadeia automotiva, temos o setor de panificação também. A questão do regime automotivo é de fundamental importância porque gera estímulo para que indústria nacional trabalhe.

RD: Mas isso já está caminhando ou ainda está embrionário?

Hitoshi: A discussão do novo regime ainda está acontecendo e valerá entre 2013 e 2017. Há uma discussão entre todos os envolvidos do setor e o governo federal para lançar este regime de forma que seja benéfico para a cadeia produtiva como um todo.

RD: Qual o peso da atividade industrial no orçamento de São Bernardo?

Hitoshi: 40% do orçamento vem da indústria. Destes 40%, quase 80% vem exclusivamente do setor automotivo, mas isso não quer dizer que São Bernardo seja apenas automotiva, pois temos outras cadeias importantes, como setor químico , de borracha e alimentos . A atividade industrial de São Bernardo felizmente é diversificada.

RD: São Bernardo então não está refém da cadeia produtiva?

Hitoshi: De certa maneira acaba estando. Se uma montadora desligar as operações em São Bernardo, vai afetar não só São Bernardo, mas a região como um todo, seja na questão dos empregos, na questão dos impostos e da renda dos trabalhadores. Isso também acaba afetando outros setores como o bar, o restaurante, a agência de viagem, reflete como um todo.

RD: O governo federal lançou um plano de logística para o Brasil. Qual a importância deste plano para a indústria e qual o reflexo para a região?

Hitoshi: Todo tipo de anúncio na área de infraestrutura é positivo. Se R$ 133 bilhões é muito ou pouco? Qualquer iniciativa é válida. Ter investimento no que diz respeita à logística que envolve transporte rodoviário, ferroviário e hidroviário é importante para o ABC e para o País. Precisamos ver quanto deste plano virá para o ABC.

RD: Por falar em logística, o Consórcio chegou debater a restrição dos caminhões. Como o Ciesp encara este assunto e qual a solução para a logística regional?

Hitoshi: Quando falamos em restrição de caminhões, fomos contra a forma que veio isso. Falaram que iriam implementar em 30 dias. Depois houve debate até com outros atores para conversar melhor esta situação. Por conta destas conversas e de estudos técnicos realizados pelo Ciesp é que o Consórcio acabou optando pela não implementação da restrição dos caminhões. Não adianta dizer que o caminhão é o vilão do trânsito, porque ele não é. O caminhão é importante na atividade econômica como um todo, principalmente para o ABC, que é fortemente industrial, precisamos dos caminhões para conseguirmos transportar as cargas e para que cheguem os insumos. Se isto não estiver funcionando, vai afetar os empregos. Tem de haver um capítulo especial para tratar transporte de cargas quando há debate de mobilidade. Tem que haver investimento em todos os setores, não só no rodoviário. Há discussões técnicas no CIESP sobre a questão do transporte de cargas por meio de teleférico até Santos. Engenharia nós temos para isso.

RD: Fala-se muito nas oportunidades de São Bernardo com relação ao setor do petróleo e gás. Como o senhor avalia isso? Já temos algo na prática?

Hitoshi: Se fala muito mesmo, as pessoas falam muito nos investimentos. Houve iniciativas para sensibilizar os empresários, mas agora precisamos partir para ação, precisa entrar cotação, entrar pedido. Temos uma base industrial que tem condições de fornecer para cadeia de petróleo e gás, pois este é um setor importante. Temos oportunidade de entrar, mas precisamos de algo mais prático.

RD: O empresário precisa estar mais capacitado para isso?

Hitoshi: Em parte sim, em parte não. A indústria local, principalmente a de São Bernardo, tem linha de produção, logística de transporte de produto, engenharia de materiais, temos esta tecnologia toda. Pode faltar alguma determinada qualificação ou estudo técnico, mas isto é fácil de investir.

RD: A indústria do ABC é competitiva? O tão falado ‘custo ABC’ realmente existe?

Hitoshi: Houve uma evolução muito grande na relação capital-trabalho, em especial em São Bernardo. É evidente que cada setor vai defender seus interesses. O salário médio do trabalhador do ABC é maior, mas a qualificação dele também é superior com relação ao restante do País. Isso melhora a produtividade e cabo tendo ganho no meu produto final. O problema que temos é na hora de emitir a nota fiscal, por conta dos impostos e dos encargos. O custo da mão de obra acaba ficando caro porque o salário está acima da média. Precisa haver uma desoneração real.

RD: Entre as propostas apresentadas pela atual gestão da Agência de Desenvolvimento Econômico do ABC estão a construção de um aeroporto na região, a criação de um centro de convenções e a instalação do Polo Tecnológico. Concorda com estes pontos?

Hitoshi: O prefeito Luiz Marinho tem falado muito na instalação de um aeroporto, a princípio um de cargas e viação executiva. O Polo Tecnológico, que eu saiba, está no âmbito de cada cidade. Poderia haver uma discussão macro pela Agência, mas não vejo isso. Poderia haver uma conversa conjunta. Não vejo na Agência uma discussão forte que envolva as sete cidades, mas sei que em São Bernardo este assunto é recorrente.

RD: A queda de juros tem impactado na produtividade da indústria?

Hitoshi: A taxa de juros é tão importante quanto o câmbio. A Selic vem numa redução moderada. O problema que tínhamos era que a redução da Selic não estava chegando na ponta. Estamos vendo com bons olhos ações da presidente Dilma com relação a dar alguns comandos para reduzir a taxa na ponta, no consumidor final e em quem quer investir na produção. A indústria já está sentindo os efeitos, mas poderia ser mais.

RD: O que o Ciesp faz para encontrar algumas saídas com relação às importações?

Hotoshi: Não somos contra, não devemos ficar colocando barreiras para não deixar vir o produto importado. Para resolver problemas emergenciais, que é o que temos agora, o protecionismo é importante. A solução do ponto de vista de longo prazo não é onerar o produto importado. A competição é saudável, o que não pode haver é uma competição desleal. Por conta da taxa de câmbio e por meio de ações de governos externos, como na China, a competição fica desleal. Isso não gera emprego, não gera renda, não gera emprego, não gera tecnologia para nosso País.

RD: Na indústria, como está este processo de importação e qual o impacto que isso gera na produção?
Hitoshi:
Neste momento estamos vendo que o setor automotivo, no que tange os veículos leves, está indo muito bem. Os pedidos não estão chegando às autopeças nacionais, ou seja, as montadoras estão trazendo peças de fora para produzir seus produtos. Precisamos trabalhar de forma rápida para resolver isso.  

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