ABC - sábado , 20 de julho de 2024

Qualidade da água piora em trechos da Billings onde margens são mais habitadas

Braço Grota Funda da Billings foi quase completamente assoreado e fica em uma das margens da represa com maior adensamento populacional. (Foto: Reprodução)

Em plena Semana do Meio Ambiente (de 31/05 a 05/06) o ABC não tem dados precisos de quanto da sua área de mananciais foi desmatada. Dados do SAD (Sistema de Alertas de Desmatamento) da Mata Atlântica mostram que o desmatamento no Estado diminuiu entre 2022 e 2023, passando de 345 alertas para 147, e de 536 hectares desmatados para 233, porém o número não reflete, na prática o que ocorre nas áreas de proteção aos mananciais do ABC que compreendem 56% do território da região, no entorno da Represa Billings. Não há um estudo específico sobre o quanto já se perdeu de vegetação nestas áreas de produção de água, mas é fato que onde há mais aglomeração de pessoas a qualidade da água do reservatório é muito pior, resultado do desmatamento, do assoreamento, deposição de lixo nas margens e lançamento de esgotos.

A bióloga, ambientalista e professora da USCS (Universidade Municipal de São Caetano do Sul), Marta Marcondes, que coordena o IPH (Índice de Poluentes Hídricos) realizado pela universidade, diz que em 10 anos de estudo observou que a ocupação irregular nas áreas de mananciais parou de avançar, porém nas áreas já ocupadas, houve um adensamento da população. “Em dez anos percebemos cerca de 10% da capacidade de armazenamento e isso é muito para um reservatório do tamanho da Billings. Tivemos áreas perdidas como o Braço Grota Funda, que fica na divisa de Diadema com São Paulo, que é alvo da Frente Viva Billings que visa desassorea-lo e isso é perfeitamente possível”, diz a ambientalista.

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A frente tem como atores além da USCS, a prefeitura de Diadema e a Sabesp. Se esse projeto piloto der resultado, a proposta e seguir com a iniciativa mirando outros braços da represa que estão secando, tais como o Braço Rio Grande, de onde é captada a água que abastece a maior parte do ABC, e os braços Taquacetuba e Bororé. “A represa só se mantém por essa recarga que vem dos braços que são abastecidos pelas áreas de mata. Se temos uma área desmatada a água arrasta toda essa terra e outras coisas para o fundo da represa e vem o assoreamento”, explica a professora.

A pesquisa do IPH que percorre três vezes por ano pontos pré-determinados da Billings para a coleta de amostras que são analisadas no laboratório da USCS, mostrou que na última década a qualidade da água melhorou em vários pontos , mas isso não serve para toda a represa. “Em alguns pontos a qualidade melhorou, em outros piorou. Vemos que na divisa de Diadema com São Paulo temos a pior qualidade de água e na região do pós-balsa, em São Bernardo é muito melhor. Isso está diretamente ligado às áreas mais ou menos adensadas, quanto mais gente vivendo naquela margem, pior é a qualidade da água”.

Na segunda-feira (03/06) o Subcomitê Billings – Tamanduateí realizou reunião, onde estiveram presentes representantes de universidades como a USCS, a USP (Universidade de São Paulo), UFABC (Universidade Federal do ABC) e Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). Nesta reunião foi debatida a necessidade de uma análise mais precisa do que a região já perdeu de mata. Segundo Marta Marcondes, as imagens de satélite não conseguem mostrar com nitidez os micro desmatamentos que ocorrem na região. “Precisamos de imagens com uma precisão melhor, por isso não sabemos o quanto já perdemos, mas eu acredito, pela percepção de quem visita toda essa região, que dos 56% ainda temos 50% preservados. Mas a gente tem também um problema social, que é a necessidade de moradias, de muitas famílias que fugiram do aluguel e foram viver nesses locais”, analisa.

A oportunidade de moradia fora da área de proteção ambiental é uma necessidade do ABC e que deve ser inserida nos planos diretores que estão sendo discutidos. “A população precisa saber quando ocorrem as audiências públicas e participar. O poder público precisa fazer esses encontros mais acessíveis, de preferência à noite quando mais gente pode participar. A região tem muitas áreas em abandono mais perto dos centros, áreas que eram industriais e que podem ser convertidas para moradia, seria melhor para elas, pois estariam mais próximas do trabalho e seria melhor para o meio ambiente. Enquanto não se pensar seriamente nisso essa população mais vulnerável vai continuar seguindo para ocupar terrenos também vulneráveis”, completa.

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