ABC - quinta-feira , 25 de julho de 2024

Pó branco volta a cobrir casas perto do Polo Petroquímico e morador abandona casa

Pó branco invade casas e moradores de Mauá e Santo André relatam preocupação. (Foto: Reprodução)

Os moradores dos bairros de Santo André e Mauá, que ficam próximos ao Polo Petroquímico de Capuava estão mais uma vez preocupados com o pó branco que há duas semanas voltou a cair sobre as casas. Não há informações sobre quais substâncias compõem esse pó e a médica autora de estudos sobre a poluição ambiental do Polo, Maria Ângela Zaccarelli Marino, professora de Endocrinologia e doutora em Endocrinologia pela USP (Universidade de São Paulo) diz que, a exemplo de outros poluentes emitidos, esse pó branco pode sim causar danos à saúde. Desde 2022 pelo menos três vezes houve emissão deste pó branco que é muito fino, invade casas e pode ser inalado, trazendo vários problemas à saúde principalmente à pessoas que já têm doenças crônicas, como asma.

O morador Carlos Alberto Alves Câmara, que tem filha com asma, preferiu não esperar, e deixou a sua casa no Jardim Rosina, em Mauá, e mudou-se para Diadema. Segundo ele a poluição sempre foi um problema no bairro e ele desistiu do lugar. “Fechei a minha casa e me mudei. Lá não dava mais, estava cada dia pior e minha filha tem asma então tive que fechar a minha casa e hoje pago aluguel. Tenho minha casa própria e hoje sou inquilino, lá tem um monte de casas a venda. A minha está fechada, pois não se consegue nem alugar”, explica o morador que deixou o bairro há dois anos.

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Câmara conta que volta periodicamente à sua casa, para ver como estão as coisas e para fazer uma limpeza. Ele conta ter notado tanto pó branco que parecia que seu quintal tinha neve. “O chão estava todo branco e eu me preocupo porque eu vivi muito tempo lá e tenho familiares que ainda moram no bairro. Outro dia fui visitar minha irmã e tive que vir logo embora porque minha filha não se sentia bem com aquele ar”, conta.

O cantor Gabriel Buscarioli, mora em uma casa no bairro Parque São Vicente, em Mauá. Ele conta que desde o dia 23 do mês passado, quando a nuvem de pó branco chegou até o bairro, que passou a se preocupar mais com os problemas de saúde que podem ser trazidos com essa substância. “No início eu me preocupei, até pela minha voz, que é meu instrumento de trabalho”, disse. Buscarioli disse que está mais aliviado depois da divulgação de notas oficiais de que o pó não faz mal à saúde. “A gente acredita no que foi publicado, mas na verdade nunca sabemos né”, disse o morador.

Do lado de Santo André, o morador Genivaldo Araujo Pereira, que vive no Parque Marajoara há 17 anos, conta que o pó branco não apenas voltou a assustar, como alguns resquícios dele ainda preocupam. “A gente lava o quintal de três a quatro vezes por dia. Tinha parado isso, agora voltou de novo e o pior é que ninguém dá um suporte para a gente que é morador, ninguém se preocupou em explicar nada. A gente limpa o que dá para ver, mas essa coisa está no ar, não tem muito o que fazer se não manter as coisas limpas”, conta. O morador tem uma neta com asma e nos últimos dias as crises ficaram mais frequentes. “A gente leva no médico, faz inalação e usa bombinha. Aqui a gente está de mãos atadas”, diz o morador que não sabe a quem recorrer.

A responsabilidade pelo pó branco, segundo a Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo), é da Recap (Refinaria de Capuava) que é uma empresa da Petrobras, que repetiu a mesma justificativa dada em março dizendo que o pó não afeta a saúde nem o meio ambiente. “A Petrobras informa que, ao longo da última semana, durante o processo de partida de suas unidades na Refinaria de Capuava, localizada em Mauá, houve a emissão de material particulado. A unidade está em processo de retorno de uma parada programada de manutenção e as causas da ocorrência estão sendo avaliadas. Neste momento, a Refinaria opera normalmente. A Petrobras destaca ainda que o material particulado é um catalisador utilizado em seu processo, sendo este produto inerte às pessoas e ao meio ambiente”.

A Cetesb confirmou nesta segunda-feira (03/06) a mesma situação de março e que ainda avalia a punição que a Recap vai receber. ” A RECAP – Refinaria de Capuava  da Petrobras emitiu, entre os dias 23 e 24 de maio últimos,  um pó branco identificado como um catalizador, utilizado no processo de craqueamento do petróleo.  No momento, a Cetesb finaliza o relatório de atendimento à ocorrência e a Refinaria poderá ser penalizada, em função de ser reincidente na questão. Além da penalidade, a Cetesb fará exigências técnicas a refinaria,  com o objetivo de evitar que o fato torne a acontecer”.

Enquanto já se passaram onze dias do incidente e ainda não há uma punição definida para a companhia, a médica endocrinologista que há 35 anos pesquisa a poluição emitida pelo Polo Petroquímico de Capuava, diz que as providências são muito lentas e as informações que as empresas passam são vagas. “Como podem dizer que o pó não faz mal à saúde se não se sabe o que ele contém. O pó preto que estudamos desde 1989 sabemos que ele traz vários elementos químicos que fazem mal a saúde, como baixo peso e menor desenvolvimento das crianças, esterilidade, entre outros problemas graves por causa dos metais pesados presentes nele como cádmio e chumbo, por exemplo. Agora dizer simplesmente que o pó branco é um material particulado é uma resposta muito ampla que nem faz sentido; é muito grave afirmar isso porque as pessoas estão inspirando esse material e metabolizando suas substâncias”.

Um inquérito civil foi aberto a pedido do Ministério Público em 2002 para apurar os efeitos da poluição do Polo Petroquímico de Capuava, e, segundo Maria Ângela Zaccarelli Marino, ninguém foi responsabilizado até agora. O inquérito teve início com estudo feito pela médica. “No ano passado uma menina de 13 anos, que tinha asma e morava próxima ao Polo morreu, isso quer dizer que temos casos muito graves por lá. Temos notícias de muitas pessoas que tiveram crises por inalar esse pó branco também, há também queixas de problemas de pele e nos olhos que são as partes mais imediatamente expostas. É preciso uma providência imediata pois a Cetesb até agora não fez nada. Vi multa recente que a companhia aplicou de R$ 65 mil, isso é uma piada para as empresas do polo, é mais barato pagar multa que instalar um filtro”, aponta.

Para Maria Ângela o pó branco e o que ele contém é um mistério. “Isso me intriga. É um absurdo um morador ter que deixar seu único imóvel porque estão jogando pó na cara dele, por isso é preciso uma providência imediata pois a doença não espera. A lentidão das autoridades não está ajudando. O Polo Petroquímico de Capuava é um caso único no país, em outros polos as casas ficam a quilômetros de distância. O estudo que fizemos com animais que foram expostos ao pó preto, mostrou que todos os órgãos foram comprometidos, não acredito que o pó branco é diferente”, completa.

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