Voluntários do ABC relatam o drama da fome e a queda de doações na pandemia

O RDTv desta quinta-feira (01/04) foi sobre solidariedade, com instituições e cidadãos comuns que recolhem, preparam e distribuem alimentos para a população necessitada, que aumentou muito com a pandemia. Participaram do programa a empresária Gisele Capelli, idealizadora dos projetos Anjos da Sopa e da Geladeira Solidária; o padre Ryan Holke, do vicariato episcopal da Diocese de Santo André; o diretor das unidades do Sesi (Serviço Social da Indústria) no ABC, Mário Quaranta; e o coordenador da Cufa (Central Única das Favelas) em São Bernardo, Alex Camburão. Houve destaque, ainda, para outros projetos sociais de voluntários, que enviaram vídeos.

No depoimento todos, muita esperança e relato da dificuldade em conseguir doações, que caíram expressivamente este ano. Há sete anos com produção e distribuição de sopas nas ruas, Gisele conta hoje também fornece refeições entre lanches, almoço e café da manhã. “É uma coisa que já vem comigo e quando eu vi eu já tinha abraçado, na primeira entrega eu já trouxe uma família inteira para a minha casa. E vamos para o sétimo ano com distribuição de alimentos e até resgate dessas pessoas”, relata. Por semana tem atendido 1,5 mil pessoas. No início, Gisele e outros voluntários conseguiam preparar 70 refeições, hoje são 1.500 entre lanches, refeições e café da manhã. “A gente vai às ruas e serve aqui na Geladeira Solidária. Transformei minha garagem em uma lanchonete solidária”, relata.

Com a pandemia muitas mudanças aconteceram, os voluntários da entidade tiveram que se dividir em grupos menores. Nas ruas, durante a entrega de alimentos, Gisele vai na frente com álcool em gel e fornece máscaras. Conta que conseguir doações está difícil. Diz que vive o milagre da multiplicação, pois o cenário é de guerra. “Sinto a dor de cada pessoa com fome, as pessoas recorrem à gente com fome, só querem um prato de comida”, conta ao relatar que recebe doações de pessoas físicas de toda parte do País. “Temos de comprar uma cesta básica e doar e àquelas pessoas que passam aqui em frente. Precisamos de todo tipo de alimentos dentro da data de validade e produtos de higiene. Também precisamos de álcool em gel e máscara, porque temos de doar uma máscara para cada morador de rua quando fazemos a entrega dos alimentos”, explica Gisele.

Preparo das refeições do projeto Anjos da Sopa. (Foto: Reprodução)

A idealizadora do Anjos da Sopa diz que as doações caíram pela metade. “As doações não acompanham, o crescimento da demanda, chega ao ponto da gente abrir um pacote de arroz de 5 quilos e dividir para duas famílias”, diz Gisele, ao explicar que, além das refeições prontas, assiste cerca de 100 famílias. Nesta Páscoa, uma ação entre amigos do projeto, que visava arrecadar 96 ovos de chocolate para crianças de cinco abrigos de Santo André, extrapolou a meta. “Conseguimos 237 ovos e as crianças de todos os abrigos de Santo André vão receber e dois abrigos de Diadema também, além disso as crianças das 100 famílias assistidas vão ganhar ovos de Páscoa”, comemora. As doações podem ser feitas para o PIX dos Anhos da Sopa (97215-4434).

 

Mensagens de carinho e motivação são escritas nas marmitas entregues pela igreja. (Foto: Reprodução)

Igreja

O padre Ryan Holke conta que o trabalho desenvolvido nas comunidades, onde estão as 101 paróquias e 279 capelas no ABC, enfrenta dificuldades por conta da baixa arrecadação de donativos. “Depois de um ano de recebimento de doações e distribuição, agora a gente enfrenta a grande dificuldade de que as doações têm diminuído e a necessidade é cada vez maior. Temos focado nas pessoas que estão com maior necessidade. Sempre que chega alguém, procuramos ter alguma coisa, mesmo que não seja uma cesta completa, mas não deixando a pessoa ir embora de mãos vazias. Chegamos a atender nesse tempo 10 mil famílias por mês”, explica. O trabalho do vicariato da igreja católica precisa de todo tipo de doação, mas especialmente alimentos. “Como a cesta básica subiu muito de preço, mesmo com a chegada do auxílio emergencial, ainda fica muito aquém do necessário para nossas famílias. Neste momento precisamos dos alimentos básicos como arroz, feijão, óleo, macarrão, café, açúcar, tudo isso é muito importante”. Quem quiser doar pode procurar a paróquia mais próxima os endereços estão no site: www.diocesesa.org.br.

Cufa

Alex Camburão, coordenador da Cufa em São Bernardo, conta que no início da pandemia com a economia ainda não tão impactada, a entidade chegava a receber cinco mil cestas básicas por mês, hoje o volume caiu para menos de 300. “As doações caíram e o número de pedidos aumentou muito. Estamos fornecendo cestas para as mulheres com mais de quatro crianças que não têm companheiro. Temos um que precisa e outro que precisa mais, então infelizmente temos que fazer essa escolha, que é dura”, conta.

Entrega de cestas básicas em um dos trabalhos feitos pela Cufa de São Bernardo. (Foto: Divulgação)

A Cufa articula uma parceria com a Abrascond (Associação Brasileira dos Síndicos de Condomínios) para uma ação nos prédios de apartamentos na cidade. O objetivo é instalar caixas para arrecadação nestes locais.

Camburão relata que a dificuldade é muito grande nas comunidades, onde o isolamento social é praticamente impossível. “Dentro da favela não dá distanciamento social, sai na porta e já esbarra no vizinho, no corredor das vielas. A gente passa a mensagem da importância do isolamento, mas pessoas dizem que não têm como ficar isoladas, pois se ficar a luz vai ser cortada. Para eles é complicado, como tentar conscientizar a população sobre distanciamento social se o morador tem que sair e entra num ônibus lotado? Mesmo assim a gente tem que acreditar na ciência de que vai chegar a vacina e que tudo vai passar”, diz.

Neste domingo a Cufa vai fazer a doação de 1,3 mil caixas de chocolate em nove favelas de São Bernardo, parte doada pelo Fundo Social e parte que veio de doações de empresas. “Para nove favelas é pouca coisa, mas a gente consegue dar uma amenizada nessa situação toda. Serão cerca de 40 voluntários da Cufa trabalhando o domingo todo, desde a manhã, nestas nove favelas”, finaliza Camburão. Doações podem ser encaminhadas para a sede da Cufa (Estrada do Poney Clube, 2.087, Jardim Las Palmas). Informações pelo WhatsApp e doações via PIX podem ser feitas pelo 98112-3905.

Sesi

Mario Quaranta, do Sesi, diz que a entidade tem realizado uma grande campanha no Estado para a arrecadação de alimentos e que vai contar com a parceria das entidades sociais para a distribuição dos donativos. “Percebemos que a alimentação não  chegado na mesa das pessoas porque diminuíram as doações, então o Sesi vem para tentar ajudar. Nossa grande proposta dessa vez é receber as doações dos parceiros, de pai de aluno, de usuário, da pessoa que faz academia do Sesi, e daquela pessoa que passa na frente do Sesi, que vai lá e deixa um pacote de arroz, sal, açúcar, óleo, macarrão, o que for possível. Estamos entrando em contato com as empresas da região, então o empresário, o funcionário da empresa, nossos funcionários, todo mundo está envolvido”, conta.

O Sesi tem uma relação de 55 entidades, cadastradas no ano passado durante a campanha que entregou refeições prontas, preparadas nas cozinhas da entidade. “O Sesi sabe como arrecadar; as entidades sabem onde entregar. A gente tema percepção de que vai melhorar. O pensamento é sempre de progredir”, diz Quaranta. Quem quiser doar pode procurar uma das 11 escolas do Sesi no ABC, das 8 s 11h e das 13 às 16h. Mais informações em www.sesisp.org.br/doealimento .

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