Extrema direita ronda leste da Europa em países da antiga cortina de ferro

O caldeirão do nacional-populismo foi lentamente cozido no fogo baixo da insatisfação e da frustração no Leste Europeu nos 30 anos após a queda do Muro de Berlim. Partidos frágeis, a percepção de que a prosperidade é ainda uma sombra do prometido e a revolução digital, que abriu as portas para as transformações no mercado de trabalho, impulsionaram o discurso de combate às elites do partido húngaro Fidesz, de Viktor Orbán, e do polonês Lei e Justiça, de Jaroslaw Kaczynski.

“As pessoas aceitaram de má vontade a desigualdade, mas esperavam que isso fosse compensado pela igualdade de oportunidades (após a queda)”, diz Konstanty Gebert, colunista da Gazeta Wyborcza, na Polônia, ex-ativista anticomunista. “Quando viram que não aconteceu, isso levou à sensação de que a revolução havia sido traída e a uma reação contra as elites democráticas.”

Pesquisa divulgada no mês passado pelo Pew Research Center reforça a tese. Segundo o estudo, há entre os habitantes dos países da antiga Cortina de Ferro um sentimento generalizado de que as elites e os políticos ganharam mais do que o cidadão comum – 71% dos húngaros, por exemplo, creem que os políticos não se importam com o que a população pensa.

A situação não é diferente entre os alemães que viviam sob o regime comunista. Uma visão menos favorável da União Europeia e o descontentamento com a representatividade política dão combustível para iniciativas como a do Alternativa para a Alemanha (AfD), partido de extrema direita que obteve, em setembro, 27,8% dos votos nas eleições na Saxônia e 23,5% em Brandemburgo, ambos Estados que pertenceram à Alemanha Oriental (RDA).

Análise do Barômetro do Populismo, de 2018, mostra que quase um terço dos eleitores da ex-RDA (30,4%) apresentavam “tendências populistas”. “Na Alemanha, a volta de partidos de extrema direita assusta mais pela lembrança do nazismo, que em geral é relacionado a tais movimentos”, afirma o professor de relações internacionais da ESPM, Demetrius Pereira.

Economia

Ainda que o avanço do nacional-populismo tenha começado poucos anos após a queda do Muro, as crises econômica de 2008 e a migratória, a partir de 2015, ajudaram a detonar a rejeição aos partidos tradicionais e à integração europeia. “A crise financeira de 2008 confirmou o sentimento generalizado para parcela da população de que os ‘sábios’, na melhor das hipóteses, não sabem o que estão fazendo e o Ocidente mente deliberadamente para manter seus interesses”, diz Gebert. Para Joerg Forbrig, diretor para o Leste Europeu e Europa Central do German Marshall Fund, o baque econômico de dez anos atrás resultou em uma “reação contra a globalização e a integração da zona do euro”.

A crise dos refugiados acrescentou mais elementos à lista de problemas. “Tensões de longa data vieram à tona entre a ideia de sociedades abertas e diversas, por um lado, e a ideia tradicional de comunidades culturais homogêneas, por outro”, diz o especialista alemão. “Os governos de Hungria e Polônia e muitas pessoas na Alemanha Oriental também rejeitaram as decisões da UE de admitir refugiados de regiões devastadas pela guerra. Como resultado, a rejeição à migração e à integração na UE ganhou mais força.”

No ano passado, o Pew Research Center mostrou que, enquanto a Europa como um todo apoia a entrada de imigrantes, mas questiona como Bruxelas trata do assunto, países como Hungria e Polônia têm os menores índices de disposição em acolher refugiados: 32% e 49%, respectivamente.

“As crises financeira e imigratória reforçaram nesses países a sensação de que os novos regimes não conseguiram entregar os bens públicos prometidos como contrapartida do novo contrato social estabelecido após 1989”, afirma Paula Vedoveli, professora de relações internacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV).
Especialistas ouvidos pelo Estado são unânimes em apontar uma hipotética paralisia política como um dos riscos do avanço do nacional-populismo na UE, ainda que, por ora, os tentáculos estejam restritos a Estados pequenos e de influência limitada.

“O movimento seria muito mais ameaçador se um governo como o da Itália ou da França resolvesse desafiar as regras econômicas do bloco”, afirma Roger Eatwell, professor da Universidade de Bath, no Reino Unido, e autor do livro National Populism: The Revolt Against Liberal Democracy, que deve ser lançado no Brasil em 2020.

E como será o futuro? Para analistas, o resultado das eleições locais na Hungria, com a derrota do partido de Orbán em Budapeste e em 11 das 23 principais cidades, pode dar dicas. “Há sinais de que a ‘onda’ populista que varreu a Europa nos últimos anos não crescerá de maneira linear”, diz Joerg Forbrig.

Konstanty Gebert, porém, alerta que os populistas não perderão poder enquanto os democratas não convencerem seus eleitores de que eles são confiáveis. “Isso significa abordar as razões que levaram à perda de confiança, incluindo erros cometidos na economia e a rejeição às identidades de grupo.”

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