Sociedades médicas alertam para riscos graves das manchas de óleo à saúde

Voluntários e ambientalistas que trabalham na remoção das manchas do óleo que chegam às praias brasileiras correm o risco de sofrer danos que vão além das irritações na pele, podendo comprometer órgãos como o fígado, os rins e os pulmões.

O alerta, da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), leva em conta que esse trabalho não tem sido realizado com os cuidados necessários para evitar intoxicações. Já a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), adverte que crianças e adolescentes estão ainda mais expostos a esse risco.

Desde o fim de agosto, o óleo já atingiu ao menos duzentas praias e localidades litorâneas de todos os Estados do Nordeste. A maior parte das ações de limpeza é feita pelas populações locais, como trabalho voluntário. Dezenas de casos de intoxicações já foram notificadas, principalmente no estado de Pernambuco.

Conforme a SBD, os grupos de voluntários têm entrado em contato com o óleo sem a proteção adequada e, em muitos casos, com impregnação da pele. “Importante salientar que o petróleo (ou óleo cru) é constituído por compostos químicos de diferentes toxicidades que podem causar danos à saúde, como tolueno, xileno, benzeno e hidrocarbonetos policíclicos aromático”, diz em nota.

Essas substâncias podem produzir efeitos negativos em diversos órgãos e sistemas do corpo humano, como hematopoiéticos (interfere no processo de maturação dos elementos do sangue), hepáticos, renais e pulmonares, além de produzir alterações no humor e nas funções cognitivas.

Para reduzir os riscos, a SBD elaborou um guia com orientações aos envolvidos no processo das praias e outras pessoas que, acidentalmente, coloquem a pele em contato com petróleo.

Nas ações de limpeza do óleo derramado nas praias, a pessoa deve usar equipamentos de proteção, como óculos, luvas e roupas que cobrem membros superiores e inferiores (mangas compridas e calças). As luvas mais apropriadas são as de nitrila ao invés das de borracha, pois protegem mais contra óleos, graxas e petróleo. A lavagem deve ser imediata após o contato.

Caso, mesmo com essa proteção, ocorra o contato, a pele deve ser lavada com água e sabão. A aplicação de óleos para bebês, geleia de vaselina ou pastas utilizadas por metalúrgicos para remover óleos e graxas facilita a remoção. Após a retirada dos resíduos, a aplicação de cremes ou loções hidratantes ajuda a melhorar as condições da pele. Não se deve usar solventes (tíner, aguarrás, óleo diesel, querosene ou gasolina) para retirar o óleo. O contato com esses produtos aumenta o processo irritativo, piorando a dermatite de contato.

Cuidados

Moradores e turistas que estão nas regiões afetadas pelo derramamento devem evitar contato direto com o óleo, principalmente crianças e gestantes.

Também não devem inalar os vapores gerados pelo óleo e usar protetor solar de amplo espectro, com fator de proteção acima de 30.

“É importante observar as orientações da vigilância sanitária para o consumo de alimentos, como peixes e mariscos, provenientes das áreas afetadas”, destaca.

Sintomas

Os sintomas mais comuns, em caso de contato com o óleo, são irritação e dor nos olhos, coceira e olhos vermelhos.

Já os sintomas respiratórios são irritação e dor de garganta, tosse, respiração mais difícil e coriza.

Podem surgir ainda dor de cabeça, náusea, tonturas e fadiga, além de ferimentos e traumas.

A pele pode ficar irritada e vermelha, evento conhecido como dermatite de contato. Os efeitos pioram se a pele permanecer exposta ao sol, podendo causar queimaduras solares.

Crianças

A Sociedade Brasileira de Pediatria pede aos pais ou responsáveis que não liberem crianças e adolescentes para banho em áreas atingidas pelo derramamento.

A população dessas faixas etárias não deve fazer parte das equipes que atuam na limpeza dos locais afetados. A mesma orientação vale para gestantes em qualquer período da gravidez.

Conforme a SBP, o banho de mar nestas áreas só deve ser liberado por orientação das autoridades navais e sanitárias, após certificação da inexistência de novas fontes de contaminação (manchas de óleo ou presença de óleo no sedimento marinho, recifes e manguezais) em cada local.

No caso de crianças e adolescentes, o cuidado com o consumo de peixes e moluscos deve ser ainda maior.

Pais e responsáveis devem acompanhar as análises em amostras colhidas nos diversos locais afetados até a definição da ausência de risco para o consumo humano.

Pele

A SBP recomenda que, se houver contato do óleo com a pele, deve-se remover a substância com papel higiênico ou guardanapo molhado em óleo de cozinha, lanolina ou glicerina e a seguir lavar a região afetada com água e sabonete.

A entidade alerta ainda que o dano para a pele será mais grave quanto maior for o tempo de contato e a quantidade da substância.

Mesmo um contato eventual com o petróleo pode determinar a dermatite de contato, na qual a pele fica avermelhada depois de 8 a 12 horas. Na sequência, haverá descamação. As lesões podem demorar vários dias para melhorar. “As crianças, que tem a pele mais fina e sensível, apresentam um risco maior de apresentar transtornos, inclusive queimaduras”, alerta.

A SBP lembrou a necessidade de o governo garantir assistência médica suficiente a todas as pessoas expostas ao óleo. Recomendou ainda que os voluntários e moradores sejam cadastrados para permitir um posterior seguimento dessas populações para identificar manifestações de longo prazo e oferecer suporte.

As orientações da SBP foram elaboradas com as contribuições de três departamentos científicos – Alergia, Dermatologia e Toxicologia, e Saúde Ambiental.

Em caso de dúvida, os pacientes podem entrar em contato com o Centro de Informações Toxicológicas do Ministério da Saúde pelo telefone 0800-7226001.

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