Tragédia do Sarriá completa 25 anos nesta quinta-feira

Um das maiores tragédias do futebol brasileiro completa 25 anos nesta quinta-feira. No dia 5 de julho de 1982, uma seleção brasileira praticamente imbatível enfrentava a Itália e precisava apenas de um empate para avançar às semifinais da Copa do Mundo da Espanha e lutar por um título que não vinha desde 1970. Mas o Brasil perdeu por 3 a 2 – com três gols do carrasco Paolo Rossi -, para surpresa do mundo inteiro, e marcou aquela amarga derrota na memória dos torcedores.

“Voltem tranqüilos para o Brasil. Vocês jogaram o melhor futebol da Copa e o mundo inteiro aplaudiu o nosso time”, foram as palavras ditas pelo técnico da seleção, Telê Santana, logo após a eliminação brasileira no Mundial de 82. Essas frases serviram apenas para aliviar um pouco a dor e a frustração da queda de um time com uma campanha irrepreensível, recheado de craques.

Antes da fatídica eliminação, o Brasil estava dando um show nos gramados espanhóis. Na primeira fase, em Sevilha, três exibições de gala contra União Soviética (2 a 1), Escócia (4 a 1) e Nova Zelândia (4 a 0). Zico, Sócrates, Toninho Cerezo, Falcão, Oscar, Júnior, Éder e Serginho Chulapa mostravam um futebol refinado, que fazia com que todos se encantassem durante os jogos brasileiros.

Com a primeira colocação do Grupo 6, a seleção comandada por Telê Santana se deslocou para Barcelona, onde teria pela frente Argentina e Itália nas quartas-de-final. No primeiro jogo da chave, os italianos surpreenderam e bateram os argentinos, que tinham Diego Maradona em seu primeiro Mundial, por 2 a 1. Na seqüência, foi a vez dos brasileiros ganharem dos maiores rivais na América do Sul – 3 a 1, com gols de Zico, Júnior e Serginho Chulapa.

Por ter melhor saldo de gols, o Brasil entrou em campo contra a Itália com a vantagem do empate. A seleção italiana fazia má campanha e ainda estava em greve de silêncio com a imprensa do país, que criticava ferozmente o futebol da equipe. Por isso, a classificação brasileira parecia uma mera formalidade.

O jogo

Logo aos cinco minutos de partida, quando Paolo Rossi marcou o primeiro gol da Itália, o torcedor presente ao Estádio Sarriá, em Barcelona, percebeu que algo de diferente poderia acontecer. Pouco tempo depois do susto, aos 12, Sócrates empatou para o Brasil, após boa jogada de Zico. O que ninguém poderia imaginar era que, numa falha de Cerezo aos 25, Paolo Rossi faria mais um e deixaria a Itália em vantagem no intervalo.

O resultado negativo, ainda nos 45 minutos iniciais, surpreendeu tanto que até os jogadores da seleção brasileira desceram para os vestiários completamente desanimados. “No intervalo, nosso vestiário parecia um velório. Nunca senti uma decepção tão grande em minha vida”, disse o zagueiro Oscar, um dos poucos que tentaram reanimar os companheiros para o segundo tempo.

No reinício da partida, a injeção de ânimo parece que deu certo e o Brasil partiu com tudo para o empate. Depois de uma série de defesas do goleiro Dino Zoff, a seleção brasileira finalmente conseguiu a igualdade num belo gol de Falcão, aos 23 minutos.

Com o placar em 2 a 2, tudo parecia caminhar para a classificação brasileira. Só que, mais uma vez, Paolo Rossi atravessou o caminho e fez o seu terceiro gol no jogo, após uma jogada de escanteio. Era o fim para o Brasil, que ainda esbarrou novamente numa muralha chamada Zoff, autor de uma defesa à queima-roupa de Oscar no último lance da partida.

Decepção

“Aconteceu com a gente o que houve com a Holanda em 74 [derrota dos favoritos holandeses para a Alemanha Ocidental na final da Copa]. O melhor time não conseguiu o título”, disse Júnior, um dos poucos jogadores a falar depois da derrota no Estádio Sarriá.

“Cometemos dois erros. Nas duas vezes que conseguimos empatar, fomos à frente e não soubemos segurar o empate”, afirmou Zico, triste pelo fato de o Brasil ter feito melhor campanha que o rival. “É uma competição traiçoeira. Conseguimos quatro vitórias em cinco jogos e acabamos perdendo a vaga para a Itália, que só venceu duas.”

Com a derrota brasileira, o mundo inteiro buscou explicações para a tragédia. Telê Santana deixou o comando da seleção, mas voltou para a Copa de 1986, quando perdeu novamente – desta vez, para a França, nos pênaltis, pelas quartas-de-final do Mundial do México.

O troco brasileiro sobre os italianos só veio em 1994, após um pênalti desperdiçado por Roberto Baggio, que garantiu, enfim, o tetracampeonato do Brasil na Copa dos Estados Unidos.

O Estádio Sarriá não existe mais para contar a história desse jogo – foi demolido, em 1998, para pagar dívidas do Espanyol. Mas aquela derrota não sai da cabeça de qualquer brasileiro que viu aquela seleção da Copa de 82 jogar. (AE)

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