Polo Design completa 15 anos e deixa legado

Presidente do Polo Design ressalta que entidade criou um círculo virtuoso na região (Foto: Divulgação)

Em entrevista exclusiva ao RD, o presidente do Polo Design Center, João Carlos Mazza, falou dos frutos colhidos pela associação, que completa 15 anos de fundação neste mês. Segundo Mazza, a entidade foi criada depois de ficar constatado que 75% dos arquitetos e consumidores preferiam comprar produtos de decoração em lojas de São Paulo. Com um bom trabalho de fidelização e qualificação das 70 lojas associadas, o fluxo de clientes se inverteu e o ABC passou a ser referência no mercado. Este aliás, o maior legado deixado pela entidade nesses anos todos. Leia abaixo os principais trechos da entrevista.

Como se deu a criação do Polo?

Na época, nós percebemos que 75% dos consumidores (arquitetos e designers de interiores, assim como seus clientes), na hora de comprar os produtos para decoração de uma casa, preferiam ir para São Paulo. Tentamos entender o porquê e descobrimos que era principalmente por dois motivos básicos: em primeiro, as lojas de São Paulo atendiam com mais qualidade, tanto o consumidor final quanto os profissionais, e a gama de produtos e serviços oferecidos era maior. E o segundo motivo é que os arquitetos eram incentivados a comprar nas lojas fora do ABC porque, à medida que eles se tornavam fiéis, ganhavam prêmios, particularmente viagens.

Então, vocês resolveram fazer o mesmo?

Exatamente. Só que não bastava dar prêmio para o arquiteto. Se não melhorássemos a qualificação das lojas não adiantaria nada. Então pensei, vamos criar um sistema de fidelização, juntar as melhores lojas do ABC, só que ao invés de a gente pagar uma viagem para o arquiteto fazer compras em Miami ou se divertir na Disney, vamos dar viagens que sejam ferramentas de desenvolvimento profissional para eles. Vamos enviá-lo para a Feira de Milão, para a Bienal de Arquitetura de Veneza, Feira do Design de Londres. Dessa forma, o profissional faz uma viagem importante para seu próprio desenvolvimento porque ele vai buscar tendências, soluções para utilizar em seus projetos. Esse profissional também vai passar a cobrar mais dos lojistas.

Qual é o resultado deste trabalho nesses 15 anos?

Nós conseguimos criar um círculo virtuoso. Montamos uma associação para manter os arquitetos com seus clientes aqui no ABC. Só que foi algo tão bem bolado e com tanto sucesso que não só a gente manteve nossos profissionais aqui como a gente começou a atrair profissionais de outras regiões, do Brasil inteiro. Para você ter uma ideia, a gente vende até para arquitetos do norte da África. Com tudo isso, hoje, invertemos o fluxo de clientes, 75% compram aqui. Acredito que esse seja o grande legado do Polo Design Center nestes 15 anos.

Então podemos dizer que o ABC, hoje, é uma das referências em arquitetura e design de interiores no Brasil?

Não tenha dúvida nenhuma disso. Há cerca de quatro ou cinco anos, nós nos reunimos com o diretor do Politécnico de Milão, que é uma das três maiores escolas de arquitetura e design do mundo e descobrimos que eles haviam feito um estudo para escolher alguns lugares da América Latina para apresentar uma proposta de solução desenvolvida por eles para uma empresa. O ABC estava entre os mercados escolhidos por conta do nível de excelência que já se encontrava.

E em números, quanto o Polo Design movimenta?

Olha, o que posso dizer, é que começamos com 200 profissionais de arquitetura e design e hoje somos 1.600 profissionais. Eram 20 lojas e hoje são 70. Cada uma dessas empresas empregam, em média, 20 funcionários. O Polo Design é um arranjo produtivo local (APL). Para se associar, o lojista tem de ter uma unidade estabelecida em qualquer cidade do ABC. Isso está no estatuto e foi feito para desenvolver a região. Já os profissionais, estes podem ser de qualquer lugar do Brasil e do mundo. Por ano, cerca de 300 arquitetos e designes ganham viagens para eventos nacionais e internacionais. Também premiamos com equipamentos para escritório como software, computadores, impressoras e plotters. Vale lembrar outras iniciativas como a realização do Polo Design Show a cada dois anos. Nas quatro edições somadas, sendo a última em 2014, recebemos público de 100 mil pessoas. Outra iniciativa é de cunho social e está na décima primeira edição. Todo ano a gente escolhe uma instituição de caridade para revitalizar.

Região pode se tornar polo produtor de design

O trabalho desenvolvido pelo Polo Design Center contribuiu para reduzir a evasão de consumidores de produtos de decoração de interiores para São Paulo ao mesmo tempo que ajudou no desenvolvimeto profissional de profissionais de arquitetura e de design. Isso transformou a região em referência quando o assunto é consumo, mas tanto conhecimento adquirido por meio de intercâmbios na Europa pode levar o ABC a se transformar em um centro produtor de design?

Segundo João Carlos Mazza, presidente do Polo Design Center, a região está muito bem aparelhada com os principais produtos disponíveis no mercado internacional. Mas a produção de design em si requer um parque fabril que já existiu, mas que foi perdido.

“Uma coisa é você estar atualizado sobre tendências e inovações. Outra é você protagonizar essas tendências. A região já conta com profissionais que fazem isso, mas ainda são poucos, pois nossa indústria foi sucateada”, explicou Mazza.

O empresário lembra que até a década de 1970, São Bernardo era o maior produtor nacional de móveis. Mas com a abertura do mercado, as empresas fecharam ou se mudaram para outros Estados. “Quem se deu bem com isso foi o Rio Grande do Sul. Hoje o Estado é o grande produtor nacional de móveis e sofás. O poder público e os empresários de lá se uniram e souberam trabalhar para enfrentar a concorrência promovida pela abertura de mercado. Aqui, faltou união e interesse dos agentes públicos”, afirmou.

Mas em seu ponto de vista, o ABC pode voltar a ser protagonista no segmento. Atualmente, a região é capaz de criar design com base na indústria de marcenaria, ou seja, móveis. Mas o setor envolve mais do que isso, pois o design de interiores envolve empresas do setor metalúrgico, de plásticos, entre outros. Na Europa, por exemplo, há profissionais que produzem maçanetas com desenhos específicos, pois há capacidade técnica e fabril para transformar o projeto em produto. Tudo é uma questão de tempo.

“Na Polo Design Show do ano passado, nós convidamos, para dar palestra, um dos maiores produtores de design do mundo, o italiano Simone Michele, que ficou impressionado com algumas peças produzidas por arquitetos nossos. Ele chegou a dizer que aquilo tinha de ser mostrado ao mundo”, comentou Mazza.

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