Quando a luz caiu
A pergunta básica é: onde você estava quando a luz apagou? Eu estava voltando de uma videolocadora de onde pegara um filme, destes lançamentos que você tem de devolver no dia seguinte. Ia ver o filme na terça mesmo, claro, que era o único tempo que tinha disponível, de maneira que o black-out me acarretou o prejuízo de pelo menos uma locação. Mas, que diabo!, o filme podia até ser ruim, daqueles tão ruins que a gente paga para não ter de ver, e então quem sabe aquilo foi um apagão providencial, pelo menos para mim.
No mais, aproveitamos para matar um sorvete que estava no congelador e que ia fatalmente virar uma vitamina de leite conforme o tempo passasse e a luz não voltasse. Demos cabo dele impiedosamente – e dessa vez sem culpa: afinal, para o sorvete, era ser tomado ou ir pro lixo. Aproveitei também para contar uma história para o meu filho dormir, uma história de vampiros e bruxas. Na hora em que o Drácula ataca o pescoço da mocinha, ele caiu no sono e começou a roncar. Gosto de pensar que ele é simplesmente mais corajoso do que eu sempre fui, mas isso é provavelmente um equívoco; mais provável é que eu contando histórias seja meio entediante mesmo.
O tempo foi passando, a luz que estava em meia-fase caiu de vez, e fui ficando meio aflito de pensar em hospitais e indústrias, lugares em que a falta de energia, principalmente por muito tempo, pode ser uma questão de vida ou morte. Ato contínuo, refleti sobre o tempo dos lampiões, aquele em que as pessoas sobreviviam o tempo todo sem energia elétrica, sem DVDs e sem sorvete no refrigerador. Os lampiões serviam para o básico, um bom livro ou uma conversa. Os hospitais não tinham as máquinas de fazer pi, mas faziam o seu melhor com sangrias, quinino y otras cositas mas. As pessoas viviam menos, mas não necessariamente menos felizes.
Agora vivemos na época da globalização, representada sobretudo pela evolução das luzes e dos meios de comunicação, com os quais falamos instantaneamente com os EUA, a França e o Japão. A cidade grande, com suas luzes artificiais – o que outrora eram luzes de néon –, era, desde Baudelaire e particularmente desde Benjamin, o símbolo máximo da modernidade. Da mesma maneira, Baudrillard identifica Tóquio, com sua superexposição de marcas luminosas e lasers, como o símbolo máximo da pós-modernidade, se é que ela existe.
Pois bem: as luzes de São Paulo e os lasers de Tóquio dependem de alguns fios de Itaipu, ou da usina de energia japonesa, seja ela qual for. Em outras palavras, a modernidade, desde seu advento, está literalmente por um fio. Uma queda de energia no Paraná reduziu a nada as comunicações que fazem com que a globalização seja globalização. Se alguém tropeça no fio em Itaipu, a modernidade já era, ainda que metaforicamente.
Nós, crianças empolgadas com o mundo ultra-rápido, de repente passamos a depender do savoir faire dos que viveram em outros tempos, ou pelo menos dos que se acostumaram a viver no tempos dos outros. Os celulares, com suas lanternas, ajudaram a andar pelos quartos da casa, mas quanto tempo duraria uma bateria de celular que não pára de ser usada? Um notebook e um modem manteriam o contato com o resto do mundo, mas a bateria do notebook tem autonomia de duas horas. O que funcionou como meio de comunicação, de novo, foi o velho e bom radinho de pilhas.
Na terça-feira, o radinho de pilha foi uma espécie de Burrinho Pedrês, do conto de Guimarães Rosa, um animal velho e teimoso que enfrenta e vence a enxurrada com um velho em seu lombo, ao passo que os outros cavalos e cavaleiros, fortes e arrogantes, são arrastados e mortos. Ao descrever a situação passo a passo, o radinho serviu para lembrar que toda a infra-estrutura que nos cerca e que nos simboliza não deixa de ser um meio, e não um objetivo. O objetivo, o fim, o que realmente vale a pena é, no fim e ao cabo, matar um belo sorvete e contar uma boa história para seu filho ninar.