O ET mais perto de você

A Nasa descobriu uma molécula orgânica em um planeta fora do Sistema Solar. Pelo menos na Terra, as cadeias compostas por ligações sucessivas de carbono são um dos pré-requisitos básicos para a existência de vida – ao lado, você sabe, de água, de temperatura regular, essas coisas. Em nosso planeta, o carbono é responsável pelo grafite, pelo papel Stencil, pelo diamante, pelo PVC – e pela pele, o cérebro, os órgãos, a comida, pelos vírus e pelas bactérias. Tudo carbono.
Então a descoberta da Nasa é como que uma revolução, principalmente para aqueles cientistas que, desde o início dos tempos – os nossos tempos –, se debatem com a questão sobre existir ou não vida fora da Terra. Se existir, ainda que seja uma bactéria – bem, isso seria um chute no saco dos criacionistas. A não ser que modifiquemos a Bíblia, dizendo que Deus, depois de fazer a luz, o céu, a Terra, o homem, a Ava Gardner e depois de passar o domingo descansando, tenha gostado do exercício e começado de novo, desta vez trabalhando no planeta HD 209458b.
Não, não se trata de um planeta habitável. Não foi lá, seguramente, que Deus juntou lama para criar um outro Adão, verdolengo e com quatro orelhas. É um planeta grande demais; nada resistiria à gravidade ali.
Mas a descoberta, que aliás nem é inédita, confirma o que era uma longínqua hipótese do astrônomo Carl Sagan, aquele da série Cosmos. Sagan ousou, nos anos 1980 – sim, não faz tanto tempo assim –, sonhar com o dia em que o homem encontraria vida em outros planetas. Por isso, ele era motivo de chacota em muitos círculos científicos respeitadíssimos.
Cria-se, com base em modelos matemáticos, que a formação de vida era uma casualidade no Universo tal como o conhecíamos. Casualidade que, pelas probabilidades, teria poucas chances de acontecer uma vez – e aconteceu, estamos aqui de prova! –, quanto menos por acontecer duas ou mais vezes. Pior do que isso: os modelos matemáticos ainda aferiam a impossibilidade de existirem sistemas solares iguais a este em que vivemos eu, você, o Maluf, essa gente toda. Aferiam, enfim, a impossibilidade de existirem outros planetas fora do Sistema Solar.
A comunidade científica tem, baseada na aceitação tácita e fanática dos princípios de Karl Popper e outros filósofos da ciência, a mania de achar que, se algo não é provável, então não existe. Estes princípios, aceitos sem nenhuma torção de nariz, levaram os astrônomos a mangar do Carl Sagan. Que era um cientista, que seguia os mesmos princípios e que, se não o fizesse, não teria escrito O Mundo Habitado pelos Demônios, que hoje é nada menos do que a bíblia dos céticos científicos de todo o mundo – aqueles mesmos que zombam dos criacionistas, a meu ver com certo direito.
Contra esse buling da alta academia, Sagan respondia com um argumento que, já à época, parecia razoável: não se deve menosprezar o tamanho do Universo.
Hoje se sabe que há mais estrelas no céu do que grãos de areia numa praia. Se ao redor de apenas uma destas estrelas, que nem é lá muito grande, orbitam nada menos do que oito planetas – eram nove, mas Plutão não tem culpa nenhuma nessa história –, por que não haveria mais planetas ao redor de mais estrelas, estrelas maiores e mais bonitonas, com combinações binárias de lua e tal?
Mais: se há planetas, muitos mais do que se suspeitava, por que não haveria vida, obedecidas as pré-condições para que ela, a vida, haja? Sagan apenas questionava o modelo matemático aceito como bíblia pelos céticos e, ora vejam só, Sagan estava certo! Estão aí o Hubble e o Spitzer, que não o teriam deixado mentir se tivessem sido inventados antes.
Conclusão número um: na ciência, o ceticismo é importante para se aceitar uma lei universal, mas também é importante que haja, senão a credulidade, uma certa esperança no improvável para que descubramos coisas novas.
Conclusão número dois: se a tecnologia de que a Terra ainda dispõe para investigar planetas distantes é pouca, e mesmo assim já foi suficiente para encontrarmos os pré-requisitos básicos para a vida, então são grandes as possibilidades de que Carl Sagan estivesse certo: pode mesmo haver algo lá fora.
Fox Mulder ficaria deliciado.
1/11/09 às 17:18
Como Sagan já diziam moléculas orgânicas são criadas pelo universo todo o tempo, assim como foram criadas na Terra primitiva - já que tantos os planetas apresentam as mesmas condições que a nossa atmosfera primitiva tinha. Mas como isso de existir vidas em planetas, não é essencialmente provado, consideram (ou consideravam) ser impossível. Bem, seria um pouco de presunção nossa achar que num universo com bilhões e bilhões de sistemas (como vc disse, mas do que grãos de areia), não existisse nem ao menos um disposto a desenvolver vida. Não necessariamente como a nossas, claro, mas algo que fosse vivo, mesmo um ser unicelular.
As possibilidades são (ou quase) infinitas.
E ainda achamos que podemos saber todas.
Até.